sábado, 29 de julho de 2017

Senso numérico - importância para a fluência matemática

Ana Lúcia Hennemann¹

“Quando criança, eu me sentia incompetente em relação à matemática, achava tudo sem sentido, sem encanto, sem porquê. A matemática se resumia a um amontoado de regras para acertar exercícios e conseguir passar de ano. Lembro-me de um problema em um livro de matemática, sem cor nem imagem: Um palhaço tem 5 roupas e 4 chapéus. De quantas formas diferentes ele pode se vestir? Como não sabia o que era para fazer, fiquei parada, olhando aquele texto. Foi então que a professora disse: “Multiplique a quantidade de roupas pela quantidade de chapéus”. Foi o que fiz: 5x4=20. E, ganhei um certo. Acertei, mas não compreendi! Na verdade, senti-me o palhaço daquele problema...”
- Luiza Faraco Ramos (2009, p.8-9)

     Se alguém menciona a expressão “mundo letrado”, o que exatamente vem à sua mente?
    Se num primeiro momento você pensou em letras, saiba que seu pensamento está correto, porém o mundo letrado não consiste apenas em letras, mas também em números, sendo que estes estão presentes no relógio, no controle remoto da televisão, no teclado do notebook, do celular, do computador, na camisa dos jogadores, nos preços das mercadorias. Pode-se afirmar que em toda a nossa volta as noções de números e todos seus demais contextos estão presentes, sendo que a interação do sujeito com o meio e o desenvolvimento das funções cerebrais cognitivas proporcionam a criança a aquisição destes saberes relacionados com as habilidades matemáticas.
   A relação destes números com suas respetivas quantidades inicia de modo lúdico, seja através de brinquedos, brincadeiras, narração de histórias (os três ursos, por exemplo), jogos e atividades cotidianas diversificadas.  Situações onde a criança é solicitada a mostrar em seus dedos quantos anos tem, contar objetos que possui, brincadeiras envolvendo relações termo a termo (correspondência entre quantidades) fazem com que as habilidades matemáticas se consolidem e vão permitindo deste modo a noção de senso numérico.
  O senso numérico envolve noções básicas do conhecimento numérico e suas respectivas quantidades, sendo que Corso e Dorneles (2010, p. 299) explicam que não há na literatura um conceito único desta habilidade, porém “de um modo geral, este se refere à facilidade e à flexibilidade das crianças com números e à sua compreensão do significado dos números e ideias relacionadas a eles”.
   As autoras também alertam que indivíduos que possui o senso numérico pouco desenvolvido podem ter baixo desempenho em atividades de contagem, realização de operações, estimativas e cálculo mental, ou seja, nos saberes básicos que auxiliam na fluência matemática. Por exemplo, no caso da citação inicial de Luiza Faraco Ramos, uma  criança com o senso numérico bem desenvolvido apresenta condições de resolver cálculos através de diferentes representações, ou seja, ela poderia ter estimativa da resposta, talvez inicialmente nem pensasse na possibilidade de multiplicação, mas poderia desenhar as tais roupas e chapéus e desse modo fazer as combinações.
    Nossas aprendizagens relacionadas às quantidades e números envolvem vários circuitos cerebrais que estão interligados repassando informações uns para os outros, através da coordenação do lobo parietal. Cosenza e Guerra (2011) nos dizem que o modelo mais adotado na relação cérebro x matemática é o Modelo Triplo Código, onde segundo este construto três circuitos diferentes são ativados:
1º no córtex do lobo parietal dos dois hemisférios cerebrais, ao redor de um sulco horizontal denominado sulco intraparietal = ocorre a percepção da magnitude (quantidade, fileira numérica);
2º em uma porção do córtex na junção occipito-temporal, também em ambos os hemisférios cerebrais = ocorre a representação visual dos símbolos numéricos (algarismos arábicos)
3º em uma região cortical do hemisfério esquerdo e parece envolver regiões temporo-parietais, que são ligadas ao processamento da linguagem = ocorre a representação verbal dos números (quatro, sete, vinte e um, etc.)

   Toda esta base envolvendo matemática deve estar organizada por volta dos 5 anos de idade (COSENZA; GUERRA, 2011), ressaltando aqui a importância do trabalho desenvolvido pela Educação Infantil, principalmente na identificação precoce de crianças que apresentam o senso numérico pouco desenvolvido. A alfabetização matemática, na qual se desenvolve o senso numérico, requer bases anteriores ao trabalho desenvolvido no Ensino Fundamental.
    Nesse sentido, o lúdico se mostra como maior recurso para o desenvolvimento destas habilidades básicas, sendo que Kamii e Clark (1992) enfatizam a importância da “aritmetização lógica da realidade”, ou seja, a criança interagir com as situações propostas como forma de construir o pensamento numérico, pensamento que não vem de livros, de explicações de outros, de programas de computador, mas sim das construções que ela vai realizando.  
Fonte: www.smarkids.com.br
- Jogo de memória: além do senso numérico, o jogo de memória é um dos jogos que trabalha muitas outras habilidades cognitivas:
- percepção visuoespacial (lembrar a forma/cor da figura virada e a sua localização),
- memória de trabalho (a criança precisa reter a informação das figuras que ela já virou)
- controle inibitório (pois ela precisa esperar até a próxima rodada)
- flexibilidade cognitiva (se alguém pegou o par de cartas antes que ela, se faz necessário criar uma nova estratégia para a próxima jogada)
- e também auxilia na relação termo a termo (correspondência).
Crianças por volta dos 4 anos de idade inicialmente podem se utilizar de jogos de memória que envolvam apenas quantidades, entretanto lá pelo final dos 5 anos já é possível trabalhar a relação quantidade x numeral correspondente até o numeral 10.


- Jogo de quantidades:
Fonte: http://professorajuce.blogspot.com.br/2015/02/matematica-na-educacao-infantil.html?spref=pi 
A criança joga o dado e precisa preencher seu tabuleiro (caixa de ovos) com a quantidade mostrada.


Noção de maior que  x menor que:










- Relações numeral x quantidade

 








Livros de histórias que trabalham o senso numérico:

- Os dez amigos. Autor: Ziraldo. Editora: Melhoramentos.
- Os dez sacizinhos. Autor: Tatiana Belinky. Editora: Paulinas.
- Chá das dez. Autor: Celso Sisto. Editora: Aletria.
- Cachinhos dourados. Autor: Ana Maria Machado. Editora: FTD.

Referências Bibliográficas:
BASTOS, José Alexandre. O cérebro e a matemática. São Paulo: Edição do Autor, 2008.
CORSO, Luciana. DORNELES, Beatriz. Senso numérico e dificuldades de aprendizagem na matemática. Rev. Psicopedagogia 27(83): 298-309. Porto Alegre: 2010.
COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.   Senso numérico - importância para a fluência matemática. Novo Hamburgo, 29 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/senso-numerico-importancia-para.html

sábado, 15 de julho de 2017

Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”

Ana Lúcia Hennemann¹
     
    Estudos das neurociências trouxeram a compreensão de muitas interfaces entre cérebro e aprendizagem, sendo que na atualidade já é possível verificar quais processos cognitivos são acionados quando um indivíduo executa determinadas tarefas. Deste modo, pesquisas relacionadas a área da leitura tem proporcionado a compreensão de vários processos específicos que precisam trabalhar em harmonia de forma a tornar o indivíduo um leitor mais eficiente, ou então, entender e poder intervir quando alguém apresenta dificuldades relacionadas à leitura.
     Corso e Salles (2009) em estudo da “Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças” explicam que para a leitura de palavras impressas acionamos o nosso léxico mental, este engloba dois processos diferentes: rota fonológica e rota léxica, por isso os mesmos são conhecidos como modelo cognitivo de “dupla rota”, porém, um leitor competente precisa dominar os dois processos para que o reconhecimento da palavra possa ser mais eficaz.

     A rota fonológica é responsável pela decodificação do grafema/fonema, por exemplo para leitura da palavra: “chivanerfluzba”, que na verdade se trata de uma pseudopalavra, o leitor, embora desconheça a palavra e seu significado, conseguirá ler fazendo uso dos conhecimentos fonológicos.
Por isso, a leitura de palavras tanto conhecidas quanto desconhecidas, podem ser lidas pela rota fonológica, porém, na leitura de palavras irregulares, o leitor apresenta bastante dificuldade pois a correspondência letra-som não obedece uma regra geral, ou seja, na leitura da palavra táxi um leitor iniciante pode ler “tachi”, do mesmo modo ler “echercício” ao invés de “exercício”. Crianças que recém estão se alfabetizando, utilizam e muito a rota fonológica, cujo esforço de decodificação faz com que a leitura seja mais lenta e segmentada e muitas vezes quando perguntamos sobre o significado da leitura, ela poderá responder que não sabe.
     Diferentemente, na rota lexical as palavras são identificadas conforme o reconhecimento de sua ortografia e também associados com outras palavras que tenham ortografias semelhantes, bem como o acesso imediato ao seu significado semântico. Por exemplo: vamos dizer que alguém lhe dita uma palavra e você fica na dúvida se a palavra é com j ou g, e imediatamente num ato automático, escreve a palavra como modo a sanar tal dúvida…isso acontece porque já temos armazenado um “dicionário léxico” que nos permite lembrar da forma ortográfica da palavra no momento em que a visualizamos. 
     O reconhecimento de palavras pela leitura é atingido precocemente por escolares sem dificuldades. (MOUSINHO; NAVAS, 2016). Entretanto, devemos lembrar que crianças, principalmente no processo de alfabetização, recém estão estruturando este dicionário, por isso é importante o maior contato possível com objetos de leitura (livros, revistas, jogos, etc).
     Do mesmo modo, hábitos de leitura diários, podem propiciar maior fluência e velocidade de processamento (capacidade de buscar as informações na memória de longo prazo), o que auxilia a criança a ter mais espaço na sua memória operacional de modo a conseguir prestar atenção a outros aspectos que envolvem a leitura, tais como: interpretação, comparação, identificação das ideias centrais.
     Vamos fazer uma experiência? Leia o parágrafo abaixo, o qual poderá lhe dar o entendimento de como se sente um indivíduo que necessita fazer constantemente somente uso da rota fonológica para a leitura de textos...
     O    u   s   o     d   a     r   o   t   a     f   o   n   o   l   ó   g   i   c   a    p   e   r   m   i   t   e     c   h    e   g   a   r     a   o     s   i   g   n   i   f  i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s     a   t    r    a   v   é   s       d   a      t    r   a   n   s   f   o   r   m  a   ç   ã   o      d   e    c   a   d   a    g   r   a   f   e   m   a     e   m     s   e   u     c   o   r   r   e   s   p    o    n   d    e    n   t     e       s   o   m   e    f   a   z   e   r     u   s   o     d   o     m    e   s   m   o     p   a   r   a    t   e   n   t   a   r     c   o   m   p   r   e   e   n   d   e   r      o   s   i   g   n   i   f   i   c   a   d   o    d   a   s    p   a   l   a   v   r   a   s.
     Talvez, este simples parágrafo tenha sido fácil para você, justamente porque já tem proficiência tanto no uso da rota léxica quanto da fonológica, porém, pode-se perceber que perdemos velocidade de processamento e fluência da leitura, imagine alguém que tenha que ler um livro fazendo uso apenas da rota fonológica! Então, pensando em todas estas situações, vamos responder as perguntas propostas no início deste artigo: - O que faz com que tenhamos maior fluência e velocidade de processamento na leitura? Será que é somente treino?
     Maior fluência e velocidade de processamento na leitura ocorre sim, através do aumento da nossa bagagem lexical. Treinos de leitura ajudam e muito, entretanto, se faz necessário entender que a criança pode apresentar déficit em algum dos componentes que fazem parte destes processos de dupla rota, fazendo com que não consigam desenvolver a fluência e a velocidade de processamento. Vejamos por exemplo: uma criança que esteja no 4º ano do ensino fundamental, onde a maioria das disciplinas exigem leituras constantes e a estratégia de leitura deste indivíduo ocorre somente pela rota fonológica. Essa situação causa um atraso na leitura e na compreensão leitora, pois acarreta no comprometimento da memória de trabalho e na busca de imagens mentais que ajudam a compreender a leitura.
    Nesse sentido devemos entender que apesar da criança fazer uso da rota fonológica, ela pode justamente ter processos desta rota que se mostram deficitários, tais como consciência fonológica, discriminação auditiva, memória fonológica, então de nada adiantará apenas treinar a leitura, pois existem outros fatores que necessitam ser desenvolvidos. Pais e professores devem levar em consideração que crianças no terceiro ano do ensino fundamental já deveriam ter todas estas habilidades bem desenvolvidas, caso contrário, se faz necessário uma avaliação do desempenho desta criança, de modo a averiguar em que aspectos ela precisa ser estimulada.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CORSO, Helena. SALLES, Jerusa. Relação entre leitura de palavras isoladas e compreensão de leitura textual em crianças. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 44, n. 3, p. 28-35, jul./set. 2009
MOUSINHO, Renata. NAVAS, Ana Luíza. Mudanças apontadas no DSM-5 em relação aos transtornos específicos de aprendizagem em leitura e escrita. Revista debates em psiquiatria - Mai/Jun 2016.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Processamento Léxico e fonológico – modelo cognitivo de “dupla rota”. Novo Hamburgo, 15 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/processamento-lexico-e-fonologico.html

terça-feira, 11 de julho de 2017

Memória operacional e aprendizagem

    Ana Lúcia Hennemann

 Imagine a seguinte situação: Você procurando um endereço e sem a possibilidade de uso do GPS!!! A estratégia é pedir informação a alguém. Simples!!! E vamos dizer que a orientação seja: - caminhe 3 quadras, dobre a primeira a direita, siga por mais 2 quadras, logo em seguida, dobre a primeira a esquerda e a esquerda novamente. Aparentemente pode ser algo fácil de lembrar, desde que sua memória operacional esteja funcionando perfeitamente. Caso contrário, terá que perguntar a várias outras pessoas de modo a relembrar a informação recebida.
     A memória operacional, também conhecida como memória de trabalho, é a que nos auxilia a reter por determinado período informações pertinentes as nossas tarefas diárias proporcionando a regulação do nosso comportamento frente a essas demandas.
     No entanto, a eficiência desta memória é limitada, pois: “solicitando que as crianças evoquem uma série de dígitos em ordem diferente da original (por exemplo, 2-8-3-7-5-1, se elas ouviram 1-5-7-3-8-2). [...] Aos 4 anos, as crianças normalmente lembram somente de dois dígitos; aos 12, normalmente lembram de seis” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2010, p. 306). E agora, exercitando a sua memória, você sabe dizer a média de dígitos que um adulto é capaz de lembrar?
    A memória operacional tem a propriedade de armazenar uma informação enquanto se realiza outra similar ou simultânea, isso pode ser percebido quando realizamos uma atividade de leitura, pois na proporção que os parágrafos são lidos se faz necessário reter as informações já absorvidas de modo a juntá-las aos próximos parágrafos. Essa capacidade é o que faz com que tenhamos o entendimento do contexto.
     Informações irrelevantes são descartadas em segundos e fazem parte de uma memória conhecida como sensorial ou imediata. Por exemplo: a criança jogando videogame e a mãe lhe faz alguma pergunta. Então como não obteve a resposta, olha para a criança e diz: - o que foi mesmo que eu te pedi? Ou seja, a criança ouviu, mas não ativou o registro desta informação. Ela ficou retida por segundos e foi descartada. Também podemos pensar na situação de largar as chaves do carro em algum local e no momento que for necessário utilizá-las, não lembrar mais onde estão.
     Contudo, se a informação for relevante ela será conservada por mais tempo na nossa consciência através do  sistema de repetição. Este por sua vez poderá acionar recursos de imaginação visual ou verbal. Por exemplo: digamos que é necessário ir ao mercado comprar: pão, leite, margarina…o indivíduo pode ir o caminho lembrando da imagem destes objetos ou repetindo o nome dos mesmos, tanto silenciosamente ou verbalizando as palavras.
    Portanto, a memória sensorial e o sistema de repetição são processos importantes para a memória operacional cuja função é reter e processar o conteúdo da informação e modificá-lo quando necessário, pois esta memória é constituída de sistemas neurais que processam vários tipos de informações (som, imagem e pensamentos) que são utilizados quando se faz necessário resolver, raciocinar ou compreender algo.
     Através da ativação de registros, ou seja, reativar a informação seja através da repetição ou por mecanismos de associação (sinais e pistas que auxiliem a relembrar a informação) a memória operacional pode aumentar seu tempo de durabilidade, tanto em horas quanto em dias. Por exemplo: você estaciona o carro no mercado cuja indicação do local marcava letra “J”, poderá logo fazer associações desta letra com outras informações: “J” de jacaré, poderá imaginar um jacaré dirigindo o seu carro, por exemplo.
     Como podemos perceber a memória operacional é fundamental para a aprendizagem, sendo que prejuízos nesta memória podem ocasionar desde situações de esquecimento das informações até mesmo inabilidade de responder as demandas diárias. Por isso, precisamos pensar em práticas que visem a higiene mental, tais como: exercício de respiração, meditação, prática de atividades físicas (caminhada, dança), recursos que melhoram a eficiência desta memória.
    Além do entendimento de atividades salutares, precisamos entender que para aprendermos necessitamos exercitar a memória, pois “a aprendizagem só ocorre com a formação e estabilização de novas conexões sinápticas, o que requer tempo e esforço pessoal” (COSENZA; GUERRA, 2011), por isso estudantes que somente recorrem ao conteúdo das provas nas vésperas das mesmas, não estão dando oportunidade para que estas aprendizagens sejam consolidadas na memória. Aprendizagem requer hábitos de estudo, preferencialmente com rotina diária contemplando período de 30 a 60 minutos em ambiente com poucos distratores onde o estudante consiga focar naquilo que ele está se propondo, seja lendo, seja fazendo exercícios, seja assistindo vídeo sobre o conteúdo que está estudando.

    Enfim, ações simples realizadas diariamente, com perseverança, podem auxiliar no pleno desempenho da memória operacional, sendo que pais e professores podem proporcionar aos estudantes o entendimento da importância dos hábitos de estudo, bem como, de atividades de higiene mental. Sendo que também há atividades de treino que podem melhorar o desempenho dessa memória, mas isso ficará para uma próxima publicação. 
Referência Bibliográfica:
COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
PAPALIA, D. OLDS,  Wendkos. FELDMAN, Duskin. O Mundo da Criança - Da Infância à Adolescência , 11 ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Memória Operacional e Aprendizagem.  Novo Hamburgo, 11 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/memoria-operacional-e-aprendizagem.html

sábado, 8 de julho de 2017

Discriminação auditiva – estimulação para a alfabetização

Ana Lúcia Hennemann¹
O ato de pensar e manipular explicitamente os sons da fala exige habilidades que ultrapassam o domínio da consciência fonológica.
Toffoli e Lampretch

     Numa publicação anterior foram apresentados elementos exemplificando o que é consciência fonológica e como familiares e professores podem auxiliar no pleno desenvolvimento desta consciência que se mostra pré-requisito para a alfabetização. No entanto, existem outros subsídios que necessitam ser trabalhados para que a criança venha obter êxito no desempenho acadêmico, sendo que um deles é a discriminação auditiva. 
     A habilidade de discriminação auditiva adequada permite ao indivíduo classificar e distinguir sons uns dos outros quanto a diferenças de frequência, duração ou intensidade, bem como realizar uma comparação entre sons-alvo e outros sons concorrentes. Ela pode incluir sons não verbais ou apenas sons da fala, sendo que, quando se refere aos sons da fala, é denominada discriminação fonológica (Ferracini, Trevisan, Seabra & Dias, 2009 apud SEABRA, 2013, p.29)
     Desde o ventre materno o desenvolvimento da estrutura óssea da audição vem se formando, sendo que Papalia, Olds e Feldman (2011) nos dizem que os fetos respondem a sons e parecem aprender a reconhecê-los. Após o nascimento, a audição do bebê ainda não está pronta, ela continua se desenvolvendo por muito tempo, mas já nos primeiros dias os bebês já podem distinguir os novos sons das falas que já conhecem ou ouviram, o que caracteriza o desenvolvimento da discriminação auditiva.
    Aos poucos a criança vai interagindo com os sons dos objetos/pessoas/ambiente a sua volta. É a cantigas de ninar, o som das portas abrindo e fechando, barulho da água do banho, telefone vibrando, enfim, uma infinidade de experiências servem de registros para a memória auditiva.  
   Estas memórias são de extrema importância, pois elas proporcionam maior facilidade para a criança identificar sons, no entanto, além de identificar se faz necessário discriminar, ou seja, perceber semelhanças e diferenças entre os mesmos, por exemplo: dependendo da intensidade e do timbre do latido de um cachorro é possível saber se podemos nos aproximar ou não.
    Do mesmo modo, quando a criança chega ao mundo letrado, ela terá que perceber que cada letra é composta por sons diferentes e quando aliadas as outras formam um novo som, portanto diferenciar, por exemplo o /pa/ do /ba/, ou “os olhos” dos “ozolhos” nem sempre é uma habilidade fácil, requer treino auditivo que deveria ter sido proporcionado muito antes do período de alfabetização, através de brincadeiras que podem ser realizadas com os familiares e também no contexto escolar.
Por exemplo:
Jogo de memória de sons:
Pode ser colocado diferentes objetos dentro de potes, cuidando para que tenha 2 potes com os mesmos objetos. Objetivo do jogo é que os jogadores encontrem os potes pares, sendo que para isso terão que sacudir os mesmos.
Jogo de Bingo de sons
Usando algum aplicativo  ou programa que tenha diversos sons gravados, fazer o jogo do bingo dos sons..

Na escola:
Encontro dos animais:
Cada criança, com os olhos vendados e cada uma receberá o nome de um animal para reproduzir o som. Num momento combinado todas devem começar a imitar a voz do animal e procurar os demais colegas que também estão emitindo o som parecido. Sugestão de animais: gato, cachorro, pinto, pato, vaca....etc.

Que som é esse?
As crianças de olhos vendados tentam ouvir o som proposto pelo professor e dizer qual é (por exemplo: fechar a porta, som de chocalho, som do apito, som de flauta, som de moedas caindo, etc).
Reprodução de sons
O professor pode proporcionar sequencias de sons que as crianças precisam reproduzir assim que solicitado. Por exemplo:
Palma, palma,_________palma, palma.
Palma, palma, pé (batida de pé), pé (batida de pé), palma, palma, palma.

Referência Bibliográfica:
ADAMS, Marilyn.[et al] Consciência fonológica em crianças pequenas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
LAMPRECHT, Regina; BLANCO-DUTRA, Ana Paula (Orgs.). Consciência dos sons da língua: subsídios teóricos e práticos para alfabetizadores, fonoaudiólogos e professores de língua inglesa. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2009.
PAPALIA. OLDS. FELDMAN. O Mundo da Criança - Da Infância à Adolescência , 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010
SEABRA, Alessandra. DIAS, Natalia. Avaliação Neuropsicológica Cognitiva. Vol 2. São Paulo: Memnon, 2013.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Discriminação auditiva – estimulação para a alfabetização.  Novo Hamburgo, 08 de julho/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/discriminacao-auditiva-estimulacao-para.html






quarta-feira, 5 de julho de 2017

Consciência Fonológica – O que é? Como desenvolvê-la?

Ana Lúcia Hennemann
Um dos pré-requisitos essenciais para o processo da alfabetização é justamente a consciência fonológica, no entanto, você saberia dizer exatamente qual o significado dela?  Essa consciência se desenvolve sozinha ou há alguma maneira de estimulá-la?


      Desde os primeiros meses de vida os bebês vão ativando seus mecanismos atencionais voltados aos sons da fala produzidos por aqueles que estão a sua volta, no entanto ele não tem a capacidade de fazer  reflexões sobre as palavras ouvidas, portanto tudo isso são processos não conscientes, ou seja, um bebê não apresenta capacidade para entender que bola rima com cola, que as letras iniciais destas palavras se diferem, habilidades estas que uma criança antes de entrar no ensino fundamental já deve ter construído, pois no momento em que a criança começa a tomar consciência dos diferentes “arranjos” estruturais que compõem uma palavra,  pode-se dizer que ela adquiriu a consciência fonológica (ADAMS, 2006).
      A consciência fonológica é a habilidade de reconhecer e manipular os sons que compõem a fala, ou seja, entender que a palavra falada se constitui de partes que podem ser segmentadas e manipuladas (LAMPRECHT, 2009). Ao ouvir as palavras “bola” e “cola”, o indivíduo poderá perceber (através da consciência fonológica) que as duas palavras rimam, que ambas são compostas de 2 sílabas, 4 fonemas (sons) cuja diferença entre elas reside no fonema inicial.  Portanto, essa consciência é de extrema importância para a leitura e escrita das palavras, principalmente no processo de alfabetização. Ler e escrever requer a habilidade de transcodificar os sons da fala, pois o princípio alfabético é composto de relações entre fonema (som) e grafema (letra) que a criança, ao interagir com estas, deve ir aprendendo a analisá-las, diferenciá-las, aproximá-las, até chegar a compreensão que os sons associados às letras são os mesmos utilizados na fala (ADAMS, 2006).
    Através destes entendimentos é fácil concluir que a aprendizagem da leitura e escrita não são atividades que se resumem apenas na memorização visual das palavras, mas sim, um processo que requer conhecimento das estruturas dos sons da fala (SEABRA, 2013). Por exemplo, uma criança ao interagir com a palavra: “SAPATO”, vai descobrindo que esta pode ser fragmentada em sílabas, que inicialmente podem ser identificados como “pedaços”: ‘SA’, ‘PA’, ‘TO’, ou fragmentada em letras s, a, p, a, t, o, em fonemas: /s/,/a/,/p/,/a/ /t/, /o/, que há outras palavras dentro desta palavra: SAPA, PATO, palavras estas que inicialmente são mais fáceis de serem identificadas, porém no momento em que a criança tiver a consciência de manipular os grafemas e fonemas, poderá formar outras palavras: SOPA, TAPA, PATA, TOPA, PASTO, PASTA, POSTA... Através do exemplo, pode-se perceber que a consciência fonológica é muito mais abrangente que a relação letra/som, ela engloba diferentes modalidades linguísticas, tais como consciência de sílaba, fonema, rima, aliteração.[1]
     Crianças que têm a consciência fonológica bem desenvolvida podem ter maior facilidade na aprendizagem da leitura e escrita, sendo que essa consciência pode ser treinada através de brincadeiras e jogos compatíveis com a idade e o desenvolvimento neurobiológico da criança. Sendo assim, a estimulação precoce da consciência fonológica, proporcionada por familiares e professores (principalmente da Educação Infantil) podem fazer o diferencial em futuras aquisições da leitura e escrita das crianças.
    
  Por exemplo: na aliteração, o uso de trava-línguas:
- O rato roeu a roupa do rei de Roma e a rainha de raiva roeu o resto.

    Rimas: declamação de versos ou livros tais como: “Você troca” de Eva Furnari  

   
 Sílabas: Brincadeira do pula sílabas:
 Fonemas:  
- Jogo soletrando- soletrar as palavras correspondentes as imagens...
- Ou brincar de: O que começa com o mesmo som de.....



[1] Aliteração são palavras que possuem o mesmo ONSET (ONSET – elemento que vem antes do núcleo (vogal) da sílaba).

Referência Bibliográfica:
ADAMS, Marilyn.[et al] Consciência fonológica em crianças pequenas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
CAPELLINI, Simone. GERMANO, Gisele. PROHFON – Protocolo de Avaliação das Habilidades Metafonológicas. São Paulo: Book Toy, 2016.
LAMPRECHT, Regina; BLANCO-DUTRA, Ana Paula (Orgs.). Consciência dos sons da língua: subsídios teóricos e práticos para alfabetizadores, fonoaudiólogos e professores de língua inglesa. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2009.
SEABRA, Alessandra. DIAS, Natalia. Avaliação Neuropsicológica Cognitiva. Vol 2. São Paulo: Memnon, 2013. 

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Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Consciência Fonológica – O que é? Como desenvolvê-la?  Novo Hamburgo, 05 de julho/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/consciencia-fonologica-o-que-e-como.html