sábado, 25 de fevereiro de 2017

Pão e circo cativando seus neurônios-espelho

Ana Lúcia Hennemann[1]

“[...] quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhece-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo.” Guy Debort

      Já aconteceu com você estar passando por algum local e de repente uma ou duas pessoas começam a olhar para algum ponto no céu e sem perceber você imita o gesto? É algo instintivo. Há um vídeo no youtube intitulado “Face the Rear” que retrata o seguinte cenário: alguém entra no elevador e em seguida 2 ou 3 atores entram e se posicionam de costas, inicialmente a pessoa olha com indignação, mas aos poucos o indivíduo vai virando e fica na mesma posição que os demais.
Imagem: Revista MeuCérebro/ Fev_2015
       Já imaginou se alguém ou um grupo se utilizasse de todo esse conhecimento para uma grande massa social? Induzissem pessoas a imitarem outras? Chorar quando outras chorassem, rir quando elas rissem, ficar indignado se elas passassem por situações de injustiça, enfim se preocuparem com a vida alheia e esquecer suas próprias vidas? Pois bem, isso aconteceu há muito tempo em Roma e ficou conhecida como a política do “Pão e Circo”.
        O povo trabalhava demais para sustentar o luxo de poucos; a comida escassa, mas recebiam trigo gratuitamente, então satisfazia as necessidades básicas; haviam livros, entretanto apenas alguns dominavam a arte da leitura. Os mais ousados começaram a criticar a forma de governo e perguntar sobre o valor dos impostos arrecadados; os reis, governantes da época perceberam a desmotivação e entenderam que precisavam agir, não poderiam abdicar de todo aquele luxo para satisfazer as vontades alheias.
       Naquele tempo não se entendia nada sobre cérebros humanos, de como se processava os pensamentos, de neurônios-espelho, rapport, empatia, projeção, mas era necessário modificar o padrão de pensamento, as conexões neurais daqueles indivíduos, caso contrário a insatisfação iria tomar conta de seus corpos e como eram muitos poderiam acabar com o privilégio da minoria.
        Os governantes reuniram-se e logo concluíram que o povo precisava de entretenimento, algo com o que se identificassem, sofredores, guerreiros em busca de vitória, liberdade, desejo de vencer a todo custo. Mas não eram todos que venceriam, somente alguns, aqueles que conquistassem a admiração de todos e mostrassem garra para esta conquista...e foi assim que corpos esculpidos apareceram em plateias de 50.000 mil a 90.000 mil espectadores. Em troca da tão sonhada liberdade, presentes caros, fama e glória, os gladiadores submetiam-se às exposições vis e banhadas de sangue e suor. E o povo ali, apenas dando uma espiadinha, rindo, divertindo-se em família, achando graça do infortúnio alheio. Projetando seus sonhos, suas necessidades, esquecendo suas angústias.
      Aos poucos, o sentimento de descontentamento era trocado pelo desejo de ver quem sairia vitorioso na próxima batalha, quem seria derrotado pelos demais, alguns criticavam toda essa artimanha, mas eles já não tinham voz, pois o povo em geral estava feliz.  Mas lógico, isso tudo ocorreu num século onde as pessoas da época não tinham os recursos e conhecimentos que temos na atualidade para entender todo o entorno que se passa por trás dos bastidores.
       No século XXI, o cenário modificou, mas as estratégias usadas no primeiro século continuam as mesmas: “Pão e circo” ativando os neurônios-espelho! Dentro do nosso cérebro temos regiões especificas que quando ativadas faz com que sentimos emoções e sentimentos de outros como se fossem nossos. É o sentir com o outro e como o outro. Estas células especializadas nos fazem perceber expressões, sentimentos e antever reações de outros indivíduos. Conforme o neurocientista Rizzolatti:  "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando."
      Assim como na Roma antiga, milhares de pessoas sentiam simpatia e desprezo pelos gladiadores, hoje temos de forma mais mascarada o mesmo espetáculo, os famosos reality shows. Mesmo que for para dar a famosa espiadinha, o fato é que muitos se deixam contagiar pelo enredo deste grande circo. Os neurônios-espelho são ativados e fazem com que o povo comece a vivenciar as reações de seu “jogador” preferido.
      Goleman, no livro Inteligência Social, menciona que em 1970 uma equipe de pesquisadores de Israel reuniu um grupo de voluntários para assistir vários clipes de filmes procurando entender parte dos mecanismos neurais envolvidos entre a tela e o espectador. Exames de ressonância magnético funcional eram realizados simultaneamente entre todos os envolvidos e percebeu-se que o cérebro dos espectadores agia como se a história imaginária estivesse acontecendo com eles, evidenciando assim que o cérebro faz pouca distinção entre realidade virtual (imaginária) e real. Conforme Goleman (2011, p.23), “quando o cérebro reage a cenários imaginados da mesma maneira que reage aos cenários reais, o imaginário tem consequências biológicas.[...] quanto mais notável e surpreendente o acontecimento, maior a atenção do cérebro.”
       Quando as pessoas estão aborrecidas e entediadas, tornam-se disfuncionais, começam a perceber fatos que desagradam todo o sistema à sua volta. Todavia, quando dominadas pelas emoções, focando a atenção em pequenos grupos, projetam-se ali, nem que seja apenas para uma “espiadinha”. Séculos se passaram e o homem ainda não dominou a arte de dominar a si mesmo. isso traz significativas consequências sociais. De agora em diante é preciso lembrar que “Pão e o Circo” anseiam dissimuladamente pelos seus neurônios-espelho.

Referências:
GOLEMAN, Daniel. Inteligência social: o poder das relações humanas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
GUARINELLO, Norberto. Violência como espetáculo: http://migre.me/orEaQ
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.   Pão e circo cativando seus neurônios-espelho. Novo Hamburgo, 25 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/pao-e-circo-cativando-seus-neuronios.html




[1] Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG / Membro do Conselho Técnico Profissional da SBNPp - whatsApp - 51 99248-4325

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