domingo, 5 de fevereiro de 2017

O “Bruxo da Matemática” na Intervenção Neuropsicopedagógica

Ana Lúcia Hennemann¹

O uso de games no contexto clínico tem se tornado cada vez mais habitual. Para aqueles que desconhecem o trabalho realizado neste setting, ou seja, local de atendimento, num primeiro momento pode parecer apenas uma aproximação do clínico com a realidade vivenciada pelo consulente, contudo há muito mais elementos que permeiam esta interação.
Um bom exemplo disso é o jogo Pearls before swine conhecido como “Bruxo da Matemática”, indicado como intervenção neuropsicopedagógica no contexto da matemática, mas que também pode ser utilizado como excelente no auxílio para o desenvolvimento das funções executivas...
O jogo consiste na interação indivíduo X máquina que tem como avatar um bruxo, onde o mesmo mostra a sua mão com três fileiras de pérolas. Na primeira linha de pérolas há cinco unidades, na segunda quatro e a terceira com três. O bruxo mostra apenas quatro dedos, sendo que três deles contém palavras com as ordens do jogo, por exemplo:  no dedo indicador está escrita a palavra “new”, significando que vai começar o jogo; no dedo médio, a palavra “go”, significando que o jogador está passando a vez; e no dedo mínimo, a palavra “quit”, que significa que o jogador desistiu do jogo.
O jogador poderá clicar em uma das fileiras de pérolas e tirar quantas pérolas quiser e em seguida clicar em “go”, que passará a vez para o adversário. Ambos irão jogando sucessivamente até que o jogo termine e então basta clicar em “new” para recomeçar tudo novamente. O uso de palavras em inglês também pode servir de objeto de estudo, auxiliando a ampliação do vocabulário infantil.
Algumas habilidades matemáticas podem ser exploradas através destas jogadas, por exemplo: contagem, seriação, par e ímpar, relação termo a termo, subtração, inclusive após o jogo virtual pode-se fazer uma versão analógica do jogo, o que permite que o indivíduo tenha uma planificação diferenciada do jogo.
No entanto, o objetivo do jogo é fazer com que o bruxo tire a última pérola, o que significaria que o ele foi derrotado no jogo. Mas, isso não é tão fácil, pois exige muita concentração, atenção, um plano estratégico e um bom raciocínio lógico, que nos arremete ao desenvolvimento das funções executivas que também é um dos aspectos que é trabalhado no atendimento neuropsicopedagógico.
Segundo Lezak (2004 apud Saboya 2007) as funções executivas abrangem 4 domínios que necessitam ser bem trabalhados: volição, planejamento, ação propositiva e monitoramento, que seria o desempenho efetivo.
A volição diz respeito aos aspectos relacionados à intenção, iniciativa e motivação, então relacionado ao jogo, pode-se ter a percepção se o indivíduo consegue ter uma inciativa, se ele tem motivação, ou seja, algo que o faça querer jogar, por exemplo: vencer o jogo. Mas apenas ter o objetivo de vencer o jogo não basta, se faz necessário ter a iniciativa de jogar.
O planejamento fará menção aos aspectos relacionados às capacidades de tomada de decisão e julgamento, ou seja, decidir e estabelecer estratégias observando o que é prioritário no momento, apresentando controle de impulsos.
A ação propositiva prioriza aspectos relacionados ao controle inibitório, flexibilidade cognitiva e processos atencionais.  Aqui é necessário que se inicie, mantenha, modifique ou interrompa um conjunto complexo de ações e atitudes organizadamente. Por exemplo, se o indivíduo participou de uma rodada do jogo e não venceu, se faz necessário que ele modifique as ações feitas anteriormente para que numa próxima tentativa possa conseguir o êxito.
E por fim, o desempenho efetivo que faz menção aos aspectos associados à utilização de feedbacks para o ajuste de respostas (cognitivo-comportamentais), de modo a tornar as mesmas mais adequadas ao contexto. O indivíduo, pode aqui fazer uso da metacognição, ou seja, pensar sobre o pensar, ele vai monitorando o que deu certo e reutilizando estas estratégias de forma mais eficaz.
Há de se ter o entendimento que sair vencedor de qualquer jogo, nem sempre acontece num mesmo dia, as vezes este jogo pode levar mais tempo, horas, dias, e aí a importância do indivíduo explorar de diferentes formas as estratégias já utilizadas e que não tiveram êxito. O importante para ter êxito no jogo ou em qualquer tarefa é saber fazer uso dos domínios executivos que envolvam volição, planejamento, ação propositiva e monitoramento.

Referências:
MENEZES, Josinalva. Atividades interdisciplinares com jogos virtuais para o ensino da matemática. 2006. Disponível online em: http://www.comunidadesvirtuais.pro.br/seminario2/trabalhos/josinalvamenezes_josivaldobrito.pdf
RUSSO, Rita Margarida Toler. Neuropsicopedagogia clínica: introdução, conceitos, teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2015.
SABOYA, Eloisa (et al). Disfunção executiva como uma medida de funcionalidade em adultos com TDAH. Jornal Brasileiro de Psiquiatria.  vol.56 suppl.1 Rio de Janeiro 2007. Disponível online em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852007000500007


-------------------------------------------------------------------------------------------------------
[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  O “Bruxo da Matemática” na Intervenção Neuropsicopedagógica.  Novo Hamburgo, 02 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/o-bruxo-da-matematica-na-intervencao.html

Um comentário:

  1. Ana Lúcia, parabéns! Gostei muito do seu texto, excelente! Muito obrigada pela contribuição.

    ResponderExcluir