domingo, 12 de fevereiro de 2017

Neuropsicopedagogia e Aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]

A aprendizagem, ao longo da história da humanidade, sempre se mostrou um fator inquietante e elemento de profundas reflexões nas mais diversas áreas do saber. Inquietações que acompanharam Aristóteles, filósofo grego, estudioso de diversas ciências e como muitos de nós, apaixonado pela biologia. Desprovido de toda e qualquer tecnologia da atualidade, apenas com os rudimentares instrumentos da época, Aristóteles cria hipóteses sobre a natureza da lembrança e dos esquecimentos, os quais deram origem a grande número de experimentos na área da aprendizagem. O ato de aprender, de construir conhecimento, já fazia parte do olhar investigativo deste grego e retratava a construção do que já era um esboço das atuais pesquisas em neurociências: “[...]segundo Aristóteles, o conhecimento se constitui de uma série de filtragens, seleções e estruturações progressivas, que começam nos sentidos (na experiência) e culminam na estruturação racional do conhecimento. ” (DE CARVALHO 1996, p. 67-68)
Se Aristóteles, séculos antes, percebeu que os sentidos eram a porta de entrada da aprendizagem, Jean Piaget, atravessa a porta e descreve como ela se transforma em conhecimento. Além dos sentidos, que perpassam o sujeito, é preciso mais, é necessário a interação com o objeto, ou seja, a aprendizagem requer a interação do sujeito com o objeto (com tudo aquilo que não é o sujeito), e cada nova aprendizagem vai servindo de estrutura para novos conhecimentos, por isso, através de Piaget, podemos ter o entendimento de que a “ação” é elemento essencial da aprendizagem. Não há construção do saber, sem interação com o objeto de estudo, sem a experimentação, sem a ação. Nesse sentido Lima (1980, p.130) enfatiza:
Piaget chega a afirmar, paradoxalmente, que “tudo que se ensina à criança impede que ela invente ou descubra por si mesma” (o que a criança descobre ou inventa por si mesma, reestrutura, fundamentalmente, suas atividades motora, verbal e mental).

A aprendizagem pode ser sim algo complexo, repleta de descobertas e reestruturações, mas também existe simplicidade no aprender, há chaves que abrem este segredo. Chaves que aparecem através da descoberta de vias da aprendizagem e memória em moluscos, estudos realizados por Eric Kandel, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Kandel, nos mostra que a base do aprendizado está na criação e no fortalecimento de conexões entre os neurônios. Se o estímulo é fraco, a aprendizagem não se consolida, se o estímulo é forte, há alteração nas células nervosas e estas geram uma mudança. Podemos dizer que sempre ocorre  aprendizagem, no entanto ela só “cria raízes” no momento em que se transforma numa memória. Riesgo (2016, p.9), ao falar de aprendizado afirma que:  “Quando chega ao SNC[2] uma informação inteiramente nova, ela nada evoca, mas produz uma mudança na estrutura e/ou na função do SNC – isto é aprendizado, do ponto de vista estreitamente neurobiológico.”
Aprendizagens são chaves para mudanças, mas para toda chave, se faz necessário uma fechadura que podem ser o simbolismo de sentimentos e emoções. Então, surge Damásio e nos mostra que não há como separar “razão da emoção”. A aprendizagem passa pela esfera da emoção, não há como aprender sem sentir o gostinho do tempero da emoção, pois conforme Oliveira (2013) “em um nível básico, as emoções são parte da regulação homeostática e constituem-se como um poderoso mecanismo de aprendizagem”.
E assim, com o auxílio de chaves, portas e fechaduras, a aprendizagem foi mapeada e resultou num grande mapa representado por todo nosso sistema nervoso, que reduzidamente intitulamos “cérebro”. O processo de aprender envolve a decodificação do mesmo e entendimento que estamos diante de um mapa moldável, onde cada indivíduo vai se modificando conforme as modificações ambientais.
O ato de aprender, expertise do nosso cérebro, inquietou Aristóteles, Piaget, Kandel, Damásio e tantos outros que promovem ciência, desacomodou aqueles que transitam pela educação, desacomodou um grupo de pesquisadores que os fizera pensar numa nova ciência focada na aprendizagem. Uma ciência, descrita pela SBNPp[3] (2016), que transitasse pela psicologia cognitiva, pedagogia e neurociência aplicada à educação, que fosse desse modo transdisciplinar, que trouxesse respostas não somente para aqueles que aprendem tivessem facilidade em aprender, mas também proporcionasse aprendizagem a todos aqueles que se veem diante de algum empecilho.
Se há uma fisiologia da aprendizagem, o porquê não a trazer para a educação? O porquê não tornar a aprendizagem mais eficaz? E assim novamente a inquietação promoveu mudanças, e eis que surge a Neuropsicopedagogia que traz um novo olhar para a aprendizagem, um olhar que é capaz de reconhecer as limitações, mas também enxergar todas as capacidades do indivíduo. Não há como pensar em aprendizagem sem ter o entendimento de onde ela se localiza em nosso sistema nervoso, de qual a metodologia mais eficaz para determinado indivíduo e o porquê ela se consolida ou não nas memórias de cada um.
Neuropsicopedagogos são profissionais da Neuropsicopedagogia, que têm o compromisso com a constante busca do saber, do aprimoramento, de melhorar o ensino-aprendizagem e ter conhecimento sobre o neurodesenvolvimento do indivíduo, pois dessa forma “permite a utilização de teorias e práticas pedagógicas que levem em conta a base biológica e os mecanismos neurofuncionais, otimizando as capacidades do seu aluno” (OLIVEIRA, 2014, p.16) e também de seus pacientes.
O neuropsicopedagogo, trabalhando em conjunto com demais profissionais, procurará identificar o que realmente é importante para o educando, o que levará o mesmo a possíveis reestruturações cerebrais: - somente socialização?; - aprendizado de letras, palavras, frases?; - melhoria na coordenação motora?; - estimulação sensorial?; enfim, diante cada situação, se faz necessário criar uma estratégia de reabilitação do indivíduo. Por mínimas que sejam as condições, ainda assim, o foco tem que ser na potencialidade do indivíduo, mas também ter consciência de suas limitações, sejam momentâneas ou não.
A Neuropsicopedagogia entende que por mais simples que possa parecer a aprendizagem diante aos olhares de outros, por exemplo: a aprendizagem do simples ato de conseguir tirar o material escolar de dentro de uma mochila; esta aprendizagem provocou mudanças na organização funcional e anatômica do indivíduo, pois houve a construção de novas conexões entre os dendritos de diferentes neurônios, localizados em diferentes regiões cerebrais, e cada vez que este indivíduo chega à escola, ou mesmo à sua casa, ele por si só conseguirá pegar um lápis, um caderno, sem que outros o façam por ele.
Isto é aprendizagem, isto é provocar mudanças, é entender que a partir deste ato se abrem possibilidades para novas aprendizagens, que talvez alguns indivíduos, nunca cheguem ao aprendizado de escrever um livro, mas o simples fato de sozinho pegá-lo em suas mãos, talvez folheá-lo, já é digno de aplausos.

Referências Bibliográficas:

DE CARVALHO, Olavo. Aristóteles em Nova Perspectiva. Rio de Janeiro: TOPBOOKS, 1996.

LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. São Paulo: Summus, 1980.

OLIVEIRA, Nythamar. Damásio, Neurociência e Neurofilosofia. Porto Alegre, Fronteiras do Pensamento, 2013. Disponível online em: http://www.fronteiras.com/artigos/damasio-neurociencia-e-neurofilosofia. Acesso em 12/07/2016.

OLIVEIRA, Gilberto Gonçalves de. Neurociências e os processos educativos: um saber necessário na formação de professores. Educação Unisinos. V. 18, número 1, jan/abr 2014

RIESGO, Rudimar. Anatomia da Aprendizagem. In. ROTTA; OHLWEILER; RIESGO [et al]. Transtornos da Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

SBNPp. O que é Neuropsicopedagogia? Joinville: Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, 2016.  Disponível online em: http://www.sbnpp.com.br/o-que-e-neuropsicopedagogia/ Acesso em 14/07/2016.

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  Neuropsicopedagogia e Aprendizagem. Novo Hamburgo, 12 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/neuropsicopedagogia-e-aprendizagem.html





[1] Especialista em Alfabetização/Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva/Neuropsicopedagogia Clinica/Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG / Membro do Conselho Técnico Profissional da SBNPp WhatsApp +55 51 992484325 
[2] SNC – Sistema Nervoso Central
[3] SBNPp – Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia 

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