sábado, 20 de dezembro de 2014

Prazer em conhecer – A aventura da ciência e da educação


Existem pessoas que são fenomenais, emocionam outros através de sua trajetória de vida, agradando diferentes públicos, fazendo narrativas de ciências, história, geografia, filosofia e diversas outras áreas de conhecimento. E é dessa forma que o livro Prazer em Conhecer – A aventura da ciência e da educação que Drauzio Varella e Miguel Nicolelis dialogam num bate papo muito extrovertido intermediados por Gilberto Dimenstein, contando a trajetória de suas vidas desde a infância.
Os sonhos eram audaciosos para as condições financeiras dos entrevistados, mas eles ousaram sonhar e correr atrás de seus ideais. O sucesso de hoje representa a meta traçada no ontem. Gilberto Dimenstein inicia o livro falando da semelhança entre estes dois cientistas: paulistanos, descendentes de famílias imigrantes, educação básica em escola pública, cursaram medicina na USP, dedicaram-se à pesquisa e aos poucos a educação tornou-se o grande projeto da vida de ambos. O livro divide-se em 5 emocionantes capítulos:
- Primeiras lições – O primeiro capítulo nos faz viajar no tempo e espaço e imaginar Nicolelis e Dráuzio ainda crianças, tendo seus primeiros contatos com o mundo científico, das descobertas, das curiosidades. Nicolelis menciona a importância de sua vó como a personagem que lhe amplia os horizontes e o faz ir à busca de seus ideais, enfatiza que ela foi a sua mentora. Ela apaixonada pelas histórias do Brasil, da construção do império, de um novo país por Dom Pedro I, faz com que o neto tenha esse ideal também, o ideal de construir um futuro melhor, um país melhor. Drauzio conta suas experiências com a doença da mãe, iniciadas quando ainda tinha 2 anos de idade e aos 8 anos a morte bate a casa de sua vó, imagens que ficaram gravadas em seu inconsciente: acompanhar a evolução da doença dia a dia, ano a ano, numa época em que os recursos médicos eram precários, que pouco se sabia sobre algumas doenças, e foi dessa forma que teve o desejo de ser médico.
Essas imagens ficaram fortemente gravadas, essa experiência de convívio com a doença desde pequeno. Meu pai dizia que a primeira vez que me perguntaram o que eu queria ser, respondi que ia ser médico. E nunca mudei de ideia, nunca me arrependi nem pensei em ter outra profissão.
Drauzio Varella (2014, p. 20)
- A meia dúzia que faz a diferença – Neste segundo capítulo, Miguel Nicolelis conta sua trajetória no Colégio Bandeirantes, o prêmio em dinheiro que recebeu por ser um dos alunos de destaque no ano e que serviu de entrada para a primeira casa própria da família. Também faz menção a importância do cientista ser aberto para ruptura de dogmas, pois na concepção dele: ciência precisa de inovação, percepção de diferentes olhares, ou seja olhar para o novo, para o desconhecido e questionar: - Ei, vocês já pensaram nisso?
O Colégio Bandeirantes foi excelente para mim porque representou um Everest, uma montanha que todo mundo à minha volta dizia que não tinha como um menino proveniente do grupo escolar, como eu, escalar. Foi a escola que me introduziu no universo empírico da ciência. Ali não havia choro: fazíamos simulado todo domingo de manhã. Os alunos podiam fazer o que quisessem: Não ir à aula, estudar onde quisessem...Mas havia duas semanas de prova, dia sim, dia não; quem não passasse ia embora. A gente o chamava carinhosamente de Campo de Concentração Colégio Bandeirantes.
Miguel Nicolelis (2014, p. 33)
Interessante aqui é o depoimento de Drauzio Varella contando sua entrada na USP e suas expectativas do mundo acadêmico, sendo que ele enfatiza que cada um de nós tem uns 200 professores durante a vida, mas aqueles que realmente mudam nosso destino não passam de cinco ou seis, pois estes têm um forte compromisso, um comprometimento com aquilo que fazem, eles realmente acreditam no seu trabalho. (Varella, 2014)
- Momento de decisão – Nicolelis conta seus primeiros dias na USP fazendo menção ao professor de neurofisiologia mas que dava aulas de astronomia para pessoas que tivessem interesse sobre o assunto. Numa destas aulas Nicolelis teve um insight, pois o professor mostrou um projeto do Observatório de Arecibo, em Porto Rico, que na época tinha a maior antena radiotelescópica do mundo onde a equipe deste observatório decidiu criar uma rede de dezenas de radiotelescópios pelo mundo apontando simultaneamente para o mesmo setor do universo a fim de fazer um mapa completo de rádio visando obter uma imagem realmente detalhada daquele setor. Então Nicolelis propôs fazer esta mesma experiência, porém com o cérebro humano, colocando centenas de eletrodos numa única só vez para examinar a população de neurônios de determinado setor do cérebro.
Drauzio relata suas primeiras experiências como médico e a dica de seu professor para que estudasse sobre imunologia, pois era uma área que na época ninguém conhecia.
[...] estou na faculdade de medicina, tem um louco que é professor de fisiologia na minha frente falando de Andrômeda???[...] Pensei que ficaria nisso, mas então ele passa a falar a respeito da Via láctea, situando onde nós estávamos. Começou, basicamente, a dizer o quão insignificantes eram nosso Sol e nosso planeta, quão completamente sem propósito era a nossa vida, procurando mostrar que a única coisa que realmente interessava era construir um propósito pessoal ao longo da vida, e que a ciência era o caminho. Miguel Nicolelis (2014, p 39-40)
- A construção do propósito – No penúltimo capítulo Nicolelis conta a inusitada história de como se tornou um especialista em vibrissas (pelos da face, ao redor das narinas) de ratos e de que forma isso o levou ao projeto “brain-machine interface”(interface cérebro-máquina). Também Drauzio faz o relato sobre como entrou no mundo da comunicação, seus receios de ser mal visto pelos demais médicos, pois na época médicos não tinham este tipo de atividade, mas também faz menção ao imenso prazer que tem em ensinar.   
- Aprender: caminho para a liberdade – E eis o último capítulo, com uma emocionante narrativa de Drauzio Varella contando suas experiências como professor em cursos universitários. Ele enfatiza a importância do professor lecionar diversas vezes a mesma matéria, pois dessa forma ele vai se apropriando da experiência do que realmente é eficaz para a aprendizagem do aluno, naquele conteúdo. Também, traz uma abordagem do trabalho desenvolvido na Casa de Detenção na década de 1980, com intuito de trazer esclarecimentos sobre a Aids, sendo que no início deste projeto 17% dos presidiários estavam contaminados.
Como forma de libertação humana, Nicolelis fala da escola empírica que está estruturada em Natal, onde as crianças são agentes de transformação da aprendizagem, onde talvez serão nossos futuros disseminadores do conhecimento, mas que no momento presente o importante é que estão sendo felizes.