sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Duas mulheres, um século de diferença e um ideal em comum

Ana Lúcia Hennemann

O mundo está cheio de pessoas que fazem a diferença e mudam a história da vida de muitos indivíduos. Pessoas que ampliam seus horizontes, saindo de situações desfavoráveis e trazem benefício à muitos em sua volta.
 Um dos grandes trunfos que muitas destas pessoas citam é justamente a educação. A possibilidade do homem ampliar seus horizontes e perceber que a realidade pode ser modificada a qualquer momento. A educação é um “bem de consumo” que muitos ainda não têm acesso, por isso em 1990 na Conferência de Jomtien foram estabelecidas metas que tentam resolver alguns dos problemas educacionais a serem destacados abaixo:  
- mais de 100 milhões de crianças, das quais pelo menos 60 milhões são meninas, não têm acesso ao ensino primário;
- mais de 960 milhões de adultos – dois terços dos quais mulheres são analfabetas, e o analfabetismo funcional é um problema significativo em todos os países industrializados ou em desenvolvimento;
- mais de um terço dos adultos do mundo não têm acesso ao conhecimento impresso, às novas habilidades e tecnologias, que poderiam melhorar a qualidade de vida e ajudá-los a perceber e a adaptar-se às mudanças sociais e culturais; e
- mais de 100 milhões de crianças e incontáveis adultos não conseguem concluir o ciclo básico, e outros milhões, apesar de concluí-lo, não conseguem adquirir conhecimentos e habilidades essenciais.(UNICEF, 1990)

Quando as metas educacionais foram criadas, pensou-se justamente em pessoas como a paquistanesa, Malala Yousafzai.
Esta jovem de 17 anos emocionou o mundo quando começou a contar sobre suas privações em um blog clandestino, iniciado em 2009, aos 11 anos, ela publicava sob um pseudônimo, através da BBC local. O blog era um diário onde denunciava as atrocidades cometidas pelo Talibã contra meninas que iam à escola em áreas sob controle da milícia.
Em outubro 2012, um membro do Talibã disparou contra Malala atingindo-a na cabeça. Ela sobreviveu e vive em Birmingham na Inglaterra, juntamente com sua família.
Foi reconhecida internacionalmente e no seu discurso do Prêmio Nobel da Paz (2014), Malala enfatizou: "Uma criança, um professor, um livro e um lápis podem mudar o mundo".
E Malaia tem razão, um único professor pode fazer um diferencial muito grande na vida de muitos cidadãos, e como exemplo disso, cito alguém que talvez não teve tanto reconhecimento, mas assim como Malala, fez um diferencial para o mundo.
Mary McLeod Bethune (1875-1955), poucos sequer tomaram conhecimento de sua existência, mas ela na simplicidade de seu ser fez contribuições significativas à humanidade.

Seus pais e irmãos mais velhos eram escravos na Carolina do Sul (EUA) e ela começou a trabalhar aos 5 anos de idade. Mary McLeod teve o desejo de aprender por entender que aquilo faria um diferencial em sua vida, dizem que um dia foi à casa dos patrões fazer uma entrega juntamente com sua mãe e ali viu um quarto repleto de livros, deslumbrada com tudo, começou a folhear as páginas daquele mundo tão diferente do seu, mas no auge de sua euforia, recebeu um tapa em suas mãos e um aviso dos patrões de que aqueles objetos pertenciam somente aos brancos.
McLeod sentiu o desejo de mudança, o desejo de aprender o que estava naqueles papéis, naquele mundo que ainda não lhe pertencia. E nessa nova perspectiva de vida, conseguiu alguém que lhe ensinasse a ler e a decifrar este código chamado leitura.
Ela foi a única de sua família que teve acesso aos estudos, e viajava muitos quilômetros diariamente para que conseguisse este feito. Mas não parou por ai, tornou-se professora, ensinou muitos a ler e de cada um cobrava US$1 (um dólar), para que pudesse investir na educação de novas pessoas, novos candidatos ao saber.
McLeod, montou uma escola, uma universidade (Universidade Bethune-Cookman) e uma grande população teve acesso ao ensino através da perseverança desta mulher. Na atualidade, a fundação por ela formada migrou para a África, pois lá ainda há muitos que não tem acesso ao ensino. Ainda há muitos que tem um desejo imenso do saber, mas suas privações ainda são maiores que suas vontades.
Exemplos como Malaia e McLeod estão separadas por um século, mas ambas sabem o que fazer com um lápis, com um papel e acima de tudo com o respeito da figura do professor.
Imaginem o dia que as pessoas se perceberem com um computador, com uma rede social, uma megaenciclópédia e com milhares de professores a seu inteiro dispor...


Referências Bibliográficas:

Mary Jane McLeod Bethune. (2014). O site Biography.com. Disponível online em  http://www.biography.com/people/mary-McLeod Bethune--9211266.

UNICEF. Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Disponível online em: http://www.unicef.org/brazil/pt/resources_10230.htm


VEJA, Online. Malala e ativista indiano ganham o Nobel da Paz. Disponível online em http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/malala-e-indiano-ganham-o-nobel-da-paz-por-seus-trabalhos-pela-educacao#galeria

Desamparo Aprendido

Ana Lúcia Hennemann
Imagem: Cena do filme “A História sem fim”(1984), onde Atrax o cavalo, atolado no pântano, ficou tão deprimido e parou de se mover, tornando-se assim impotente quando fez  esta escolha. 

O desamparo aprendido é quando as pessoas se sentem impotentes para lidar com  situações negativas porque as experiências anteriores mostram-lhes que elas não têm como resolver a situação.
Em 1965, o psicólogo Martin Seligman, da Universidade de Pensilvânia, realizou um experimento baseado no condicionamento clássico de Pavlov, (cada vez que um sino tocava, os cães salivavam pois sabiam que receberiam um alimento em seguida). Porém, no experimento de Seligman ele usou dois grupos de cães.  Um dos grupos foi colocado em uma jaula na qual o chão estava conectado a uma corrente elétrica, que disparava de tempos em tempos pequenos choques, de baixa intensidade. O outro grupo foi colocado em outra jaula, porém, havia um dispositivo onde eles conseguiam facilmente desligar o sistema que provocava os choques.
Após um período inicial em que os cães ficaram acostumados às suas jaulas, Seligman mudou-os de ambiente, colocando-os em jaulas, com o mesmo sistema de choques, mas com uma barreira muito baixa, que qualquer um dos animais podia pular sem dificuldade.
Mas algo inesperado aconteceu, ao invés de tentarem se livrar do choque, os cães do primeiro grupo se deitavam e permaneciam naquele local.
Mas no segundo grupo, constituído de cães que não haviam passado pelo condicionamento do choque, rapidamente eles descobriram estratégias para fugir daquele local.  
Os cães, do primeiro grupo, haviam “aprendido” que não havia nada que pudessem fazer para evitar os choques, e por isso nem tentavam sair daquela situação. O experimento de Seligman ficou conhecido como DESAMPARO APRENDIDO, ou seja, não adianta tentar sair de uma situação negativa porque o passado ensinou que tudo iria acontecer do mesmo jeito.
E qual a relação disso para nossas vidas?
Simples, se alguém experimenta situações desfavoráveis durante muito tempo, pensam que não há como escapar das situações e acabam sendo coniventes com tudo que lhes acontece. Perdem a vontade de buscar mudanças, acostumam-se com a ideia de que não há alternativas.
Um exemplo disso: você vota? Para você seu voto é importante? Ou nenhum dos políticos prestam e o seu voto não vai fazer diferença nenhuma?
É estranho isso!!! Mas, quando lemos a respeito dos cães, nos perguntamos porque eles simplesmente não saiam daquela condição? Entretanto, o desamparo aprendido faz com que muitos adultos deixam de lutar, de tentar algo melhor, de buscar outras alternativas.
A política é apenas um exemplo, mas existem diversas outras situações em que as pessoas preferem “levar choque”, ao invés de ampliar seu campo de visão e olhar para outros lados. Sim, olhando por esta perspectiva é muito estranho, mas é muito mais comum do que imaginamos!
Outro exemplo: alunos com baixo desempenho escolar a longo prazo tendem a criar uma autoimagem de não aprendizagem, antecipam para o si o fracasso e com isso deixam de buscar alternativas eficazes para a mudança. Conforme Smith e Strick (2011) “Uma vez que um estudante desista de tentar, o fracasso está praticamente garantido.”
O desamparo aprendido mexe com questões primordiais de todo ser humano: a motivação e a autoestima. O indivíduo que não tem um motivo para lutar, ele não vive, ele não consegue ter perspectivas de melhoras, qualquer caminho está bom; da mesma forma se o indivíduo não consegue olhar para si mesmo e se enxergar como um sujeito de mudança, então sua autoestima se transforma numa “baixaestima”, e assim como os cães de Seligman, a única alternativa que resta é deitar e saber que irá receber choques de qualquer maneira...
Entretanto, sempre é relevante lembrar que motivação é algo que vem de dentro de nós, e no momento em que tomamos a decisão da mudança, ela já começa a acontecer, pois, nossos pensamentos influenciam na nossa realidade. Alguma dúvida? Que tal conhecer a história de Viktor Frankl? Certamente ele é um exemplo de que sempre há novas perspectivas, independente da situação!


Referências:
MYERS, David. Psicologia Social. 10ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010
ROGERS, Bill. Gestão de relacionamento e comportamento em sala de aula. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
SMITH, Corine. STRICK, Lisa. Dificuldades de Aprendizagem de A-Z. 2 ed. Porto Alegre: Penso, 2011.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Currículo oculto

Imagem: Mauricio de Sousa

Vivemos num mundo repleto de linguagem, tanto verbal, quanto não-verbal. A linguagem é o modo que nos utilizamos para nos comunicar com os outros, e  ela não necessita de palavras, nem de escrita, pode simplesmente ser expressada através de símbolos, placas, gestos...
Lá pela década de 1920, a arte cinematográfica era constituída por filmes mudos. O artista tinha que saber transmitir através do corpo todo o enredo da história, e o público por sua vez aprendia a focar nos detalhes, a perceber o outro por aquilo que ele não disse, mas sim pelo que ele fez.
Oscar Wilde dizia que "A vida imita a arte", mas também é correto afirmar que  "a arte imita a vida", e o cinema nada mais fez do que enfatizar aquilo que mais fazemos no cotidiano: Expressar-se através do corpo, pois ele é um veículo de linguagem, tudo em nós fala. Nossos atos valem mais que nossas palavras, eles são o nosso currículo oculto. É o que não dizemos, mas praticamos, consciente ou inconscientemente, ou seja, tudo aquilo que é feito, mas nem sempre entra em conformidade com aquilo que se diz.
Por exemplo: quando um pai diz para o filho: - Coloque o lixo na lixeira! Porém, em determinados momentos o filho vê o pai agindo em contradição, praticando justamente o contrário do que ele diz, eis aí um currículo oculto se instalando na percepção da criança;

E crianças são assim, atentas a tudo e a todos, ávidas para entender o mundo ao qual estão inseridas.