segunda-feira, 24 de junho de 2013

Desaprendendo a lição

                                                                     
                                     
                                                                                                       Affonso Romano de Sant’anna

“Há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas em seguida vem outra idade em que se ensina o que não se sabe”. Esta frase de Roland Barthes é instigante. Desmistifica a prática usual do ensino. Por isto, ele continua seu pensamento afirmando que é preciso “desaprender”, "deixar trabalhar o imprevisível” até que surja a chamada “sapiência”, uma sensação de “nenhum poder, um pouco de saber”, mas com “o maior sabor possível”.

E num seminário em Paris, praticando a errância do saber, propôs aos alunos que o encontro na classe não tivesse tema pré-determinado. O desejo inconsciente do saber é que deveria aflorar o tema. Ali os alunos deveriam não apenas desejar saber, mas saber desejar. Desejar o saber é uma primeira etapa, mas saber desejar é uma atitude refinada. Entre um e outro vai a distância do canibal ao gourmet.

Como derivação das colocações de Barthes se poderia dizer: o professor pensa ensinar o que sabe, o que recolheu dos livros e da vida. Mas o aluno aprende do professor não necessariamente o que o outro quer ensinar, mas aquilo que quer aprender. Assim o aluno pode aprender o avesso ou o diferente do que o professor ensinou. Ou aquilo que o mestre nem sabe que ensinou, mas o aluno reteve. O professor, por isto, ensina também o que não quer, algo de que não se dá conta e passa silenciosamente pelos gestos e paredes da sala.

É, aliás, a mesma história que se dá com o texto. O autor se propõe a dizer uma coisa, mas o leitor constrói sua leitura segundo suas carências e iluminações. Por isto se equivocou Jacques Derridá ao dizer que o texto escrito segue livre sem paternidade, enquanto o discurso oral é tutelado pelo orador. O orador também não controla seu discurso, pelo simples fato de estar presente. A palavra ao ser pronunciada já não nos pertence. O orador é falado pelo seu discurso. Fala-se o que se pensa que se sabe, ouve-se o que se pensa que foi pronunciado. O sentido é construído a muitas vozes e ouvidos, harmonicamente. Tinha razão o polifônico Sócrates: “A verdade não está com os homens, mas entre os homens”.

Repitamos a frase de Barthes: “Há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas em seguida vem outra idade em que se ensina o que não se sabe”. E adicionemos o seguinte raciocínio: em geral pensa-se que o professor é aquele que “fala”, que preenche com seu encachoeirado discurso uma aula de 50 minutos ou um seminário de três horas. Este é um conceito de ensino como uma atividade “oracular” da parte do mestre, que se complementa numa passividade “auricular” da parte do aluno. Contudo, assim como o espaço em branco é importante no poema, assim como a pausa organiza a música, o saber pode brotar do silêncio. O jorro contínuo de palavras pode ostentar apenas ansiedade. O conhecimento pode se instalar no entreato. O silêncio também fala. É isto que se aprende durante as ditaduras. E, por outro lado, durante as democracias se aprende que o discurso nem sempre diz.

Portanto, à audácia de desaprender o aprendido soma-se a astúcia do silêncio. No princípio era o Verbo. A construção do silêncio exige muitas palavras. O escritor, por exemplo, constrói uma casa de palavras para ouvir seu silêncio interior.
Comecei falando em Barthes. E aquela frase inicial dele remete não só para a questão do “saber” e do “sabor”, mas do “saber” e do “poder”. Na verdade enriquece-se o saber combatendo-se o poder que ele aparenta. E uma forma de incrementar o poder é o “perder”. Assim, o melhor professor seria aquele que não detém o poder e nem o saber, mas que está disposto a perder o poder, para fazer emergir o saber múltiplo. Nesse caso, perder é uma forma de ganhar e o saber é recomeçar.

E para terminar, nada melhor que uma frase de outro desconstrutor de verdades, que é Guimarães Rosa: “Mestre não é quem ensina, mas aquele que, de repente, aprende”.

Discurso aos formandos de Letras URFJ
proferido no Palácio Gustavo Capanema,

Rio, 24/08/1986

Teoria Triádica de Inteligência



     Preocupado com as questões mais gerais sobre o comportamento inteligente, o renomado pesquisador da Universidade de Yale, Robert Sternberg (1996) desenvolveu a Teoria Triádica da Inteligência. Segundo este pesquisador, os testes de QI não são válidos para medir o tipo de inteligência exigida para o sucesso no mundo real, como por exemplo, para a carreira profissional de uma pessoa. Para Sternberg, o comportamento inteligente é muito amplo, não sendo passível de ser medido da forma tradicional. Ele argumenta que a pessoa pode ser inteligente de três formas: pelo uso de uma inteligência analítica; ou pelo uso de uma inteligência criativa; ou ainda pelo uso de uma inteligência prática. Vamos considerar cada uma dessas inteligências em relação à criança em seu percurso de desenvolvimento.
     A criança que se destaca por sua inteligência analítica é aquela que, em geral, o professor gosta de ter em sala de aula: academicamente brilhante, tira boas notas nos testes, aprende com facilidade e com pouca repetição, tem facilidade em analisar as idéias, pensamentos e teorias. Gosta de livros e muitas vezes aprende a ler sozinha ou com pouca instrução. A escola tradicionalmente reforça as habilidades analíticas de seus alunos, ao acentuar a memorização e reprodução dos conhecimentos, muitas vezes em detrimento da aplicação e do ensino de técnicas para o desenvolvimento do pensamento criador. Assim é que a pessoa essencialmente analítica muitas vezes carece de idéias novas e originais e pode ter dificuldade em um ambiente que exija respostas diferentes e incomuns.
     Já a criança que se destaca por suas habilidades de pensamento criativo apresenta, em geral, talentos e dificuldades opostos. A pessoa com inteligência criativa nem sempre tem as melhores notas e nem sempre se destaca na escola por suas habilidades acadêmicas. No entanto, demonstra grande imaginação e habilidade em gerar idéias interessantes e criatividade na forma de escrever ou falar e de demonstrar suas aptidões e competências. Essa criança tende a ter independência de pensamento e de idéias, a ver humor em situações que nem sempre os outros percebem como tal e são muitas vezes consideradas o “palhaço da turma”,
     A terceira forma de ser inteligente, conforme Sternberg, leva em consideração a facilidade da criança em se adaptar ao ambiente e desempenhar atividades que são adequadas para o desenvolvimento de uma tarefa. A criança demonstra inteligência prática e senso-comum, sendo capaz de chegar em qualquer ambiente, fazer um levantamento do que é necessário para atingir algum objetivo prático, e executar sua tarefa com precisão.
À medida que ganha experiência de vida, a pessoa prática demonstra esta inteligência com mais intensidade, o que a permite lidar com as pessoas e conseguir que um determinado trabalho seja executado, percebendo o que funciona e o que não funciona. É a inteligência prática ou conhecimento tácito que, no contexto de vida prática, é responsável pela melhor adaptação da pessoa ao ambiente e para o sucesso no mundo real, principalmente no desempenho profissional.
     Tomemos o exemplo de um professor. É desejável que, para o sucesso de sua profissão, o professor tenha bem memorizado os conhecimentos relacionados à disciplina que ensina; é também desejável que aplique técnicas instrucionais com criatividade e imaginação; além disso, a forma com que utiliza o currículo deve ser adaptada ao contexto da sua sala de aula, às necessidades individuais de seus alunos e às demandas sociais da sua população estudantil.
     Conclui Sternberg que os tradicionais testes de inteligência poderão ser bons preditores de sucesso do aluno na sua vida acadêmica, mas terão pouco impacto na predição do sucesso na vida prática e no ambiente de trabalho, que exigirão outras formas de inteligência não abarcadas pelos testes. Para serem justos para com a inteligência a ser medida, há necessidade do uso de outros tipos de testes, que não só os de lápis-e-papel, e que sejam mais amplos e flexíveis.

Fonte:
VIRGOLIN, Angela. Altas Habilidades/Superdotação: Encorajando Potenciais. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de educação Especial, 2007. 

sábado, 15 de junho de 2013

KANDEL – Em busca da memória

 

     Em busca da memória é uma homenagem cinematográfica para um dos maiores pesquisadores de nossa geração, Eric Kandel, neurocientista (83 anos), ganhador do Prêmio Nobel, uma pessoa espirituosa, sentimental e amorosa. Ele dedicou sua carreira a entender as bases biológicas de como a mente armazena experiências e reage a elas - trabalho que, além de solucionar um mistério científico, apresenta o ponto de partida para novos tratamentos psiquiátricos. O filme de 95 minutos por Petra Seeger, nos dá um olhar para dentro da história pessoal de um homem maravilhoso com uma mente complexa em uma viagem extraordinária. 
     A vida de Kandel, pessoal e acadêmica, se desenrola no documentário biográfico. Revelando os acontecimentos que se desenvolveram na sua vida, mostra sua infância dolorosa em Viena ocupada pelos nazistas, a imigração de sua família para a América, e os obstáculos resultantes da construção de uma vida e o legado de um novo país.
   Também, calorosamente desvenda as dificuldades que ele enfrentou plantando suas próprias raízes, o que não foi fácil como o jovem cientista tinha que encontrar um equilíbrio entre o trabalho e a família. O filme faz um retrato fascinante de uma pessoa impulsionada por suas paixões, inspirado por suas experiências e como elas fornecem o contexto para a sua obra.
     O documentário leva Kandel ao seu apartamento em Viena e o aproxima das pessoas que ajudaram a salvar a vida de sua família. Revela, também, a ligação cultural e espiritual que ele tem para com o judaísmo, bem como o objetivo de preservar estes achados como as tradições de sua família, que ele continua a implementar durante as funções familiares e, claro, as memórias.
    Mas também nos leva para o mundo acadêmico e científico, pois através do avanço de seu trabalho, as memórias de Kandel, tanto positivas quanto negativas moldaram sua personalidade carismática e levaram - no a realizar a pesquisa revolucionária que é responsável por quase tudo o que sabemos sobre como funciona a memória. Isso nos permite entender melhor como o nosso cérebro produz e armazena memórias, que é um dos objetos de estudo mais interessantes na áreas das neurociências.
   EM BUSCA DE MEMÓRIA nos mostra com profundidade as realizações ao longo da vida e as reflexões de um homem, que acabou por ser muito maior do que a soma de todas as suas partes, por isso considerado um dos pesquisadores da memória mais importantes do século XXI.

Tricotilomania


Ela tinha uma mania específica, adorava colocar os dedos entre os cabelos e enrolá-los, do nada se percebia fazendo este gesto. Talvez fosse algo que trouxesse desde a infância. Seus cabelos sempre foram foco de interesse, em alguns momentos percebia-se sentido o comprimento do fio, alisando-o com a mão. Num determinado dia, o ato de enrolar e sentir o fio já não era mais suficiente, começou a arrancar fio a fio, sentia prazer em separar um único fio e puxá-lo, em seguida ficava contemplando o mesmo, observando cada detalhe... e foi assim que deparou-se no espelho com cicatrizes em sua cabeça, havia locais em que seus cabelos não cresciam mais...
    O nome lembra “tricô”, mas na verdade essa palavra cunhada pela dermatologista francês Henri Hallopeau nos arremate a um transtorno antes característico apenas em adultos, mas que de uns tempos vem sendo percebida em crianças e adolescentes. O termo Tricotilomania, TTM, (trhix em grego significa cabelo etillein refere-se a arrancar) aparece na literatura científica como casos em que o indivíduo “arranca cabelo”. As áreas mais comuns para puxar cabelo são o couro cabeludo, cílios e sobrancelhas, mas pode envolver o cabelo em qualquer parte do corpo. Em crianças, a tricotilomania ocorre igualmente em meninos e meninas. Em adultos, é mais comum em mulheres do que em homens.


     Segundo Toledo alguns podem arrancar só fios que estão nascendo ou os mais curtos, os mais grossos, os longos, os com textura ou cor diferentes, o grosso ou o escuro. Alguns arrancadores de cabelos demonstram interesse no cabelo alisando-o, sentindo o fio na mão, correndo o fio entre os lábios, mordendo a raiz ou comendo o fio ou parte dele. Crianças com TTM frequentemente se ocupam de outros comportamentos impulsivos, como onicofagia (roer unha), arrancar a cutícula ou cutucar ferimentos (skin picking), contrair a face, morder as juntas dos dedos, chupar o dedo polegar, bater no rosto, mastigar ou morder a língua, bruxismo (ranger os dentes), bater a cabeça na parede, masturbar-se, beliscar, morder ou torcer os lábios e balançar o corpo.
     Episódio de arrancar o cabelo podem ocorrer em qualquer lugar e durar minutos ou horas. Em crianças com TTM pode ser passageira, episódica ou contínua, e podem durar semanas ou meses até interromper o comportamento, levando a acreditar que está completamente livre, mas inesperadamente ter um súbito e inexplicado retorno da TTM. Como qualquer transtorno, há graus de severidade. Para alguns a perda pode ser mínima; para outros, o dano pode ser extenso, até mesmo chegar à calvície total.
     Muitas crianças planejam e desenvolvem seu próprio tratamento antes de buscar ajuda formal. Elas reconhecem a necessidade de manter as mãos ocupadas ou de ficar com elas quietas enquanto fazem atividades como ler para impedir que uma das mãos inicie o ato de arrancar cabelo, pois a TTM teria a função calmante, semelhante a outros comportamentos ( p. ex. chupar dedo). Entretanto quando estas tentativas falham, principalmente em adolescentes, começa a tentativa de disfarçar os danos causados (perda do cabelo) fazendo penteados especiais, maquilagem, uso de chapéus, bonés, lenços... 


      Conforme Rufer, a tensão interna causada por medos, inibições sociais, dificuldades de expressão de emoções e estados depressivos faz com que os sintomas sejam mantidos. E frequentemente acrescenta-se a ele a força do hábito: arrancar cabelos torna-se um ritual diário, por exemplo, ao dirigir, ler ou telefonar, que ocorre de forma inconsciente e automática, sem um desencadeador concreto. Além desses fatores psicossociais, causas biológicas, como o genótipo, por exemplo, parecem desempenhar papel importante: estudos mostram que o transtorno surge com frequência de 5% a 8% acima da média se outro membro da família já sofre do mesmo problema. O quadro, no entanto, não pode ser atribuído apenas à herança genética; também pode ser explicado como comportamento aprendido.
     A tricotilomania é muito mais que uma 'mania' de arrancar os fios de cabelo. É um distúrbio sério que vem acompanhado de outros problemas e merece muita atenção e que pode trazer danos irreversíveis ou de difícil tratamento.

Fonte:
TOLEDO. Edson Luiz. TARAGONO, Rogéria. CORDÁS, Táki. Tricotilomania. São Paulo: Revista Psiquiatrica Clínica. Vol 37, nº 6. 2010. Disponível online em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832010000600003

TOLEDO. Edson Luiz. Tricotilomania. In PETERSEN. WAINER. Terapias Cognitivo Comportamentais para Crianças e Adolescentes. Porto Alegra: Artmed, 2011.

RUFER, Michael. Arrancando os cabelos. Disponível online em http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/arrancando_os_cabelos.html

domingo, 2 de junho de 2013

Neuroplasticidade

      O caso relato a história de uma  garota onde o hemisfério cerebral esquerdo não se desenvolveu então, o direito assumiu todas as funções. Segundo Cosenza, o cérebro que se desenvolveu de forma diferente por fatores genéticos ou que sofreu modificações devido a condições da gestação apresentará comportamentos diferentes e necessitará de estratégias pedagógicas distintas durante a aprendizagem. Enfim, há necessidade do investimento em muitos estímulos para que ocorra a neuroplasticidade. 

Obs.: O vídeo pertence a Inez Cozzo

sábado, 1 de junho de 2013

Como o cérebro autista funciona

      Entender o que está se passando com outros nem sempre é tarefa fácil. Recordo-me de um filme chamado "Nell", onde a personagem principal cresceu em local isolado, juntamente com sua mãe, a qual apresentava uma afasia. O tempo passou, a menina cresceu, porém o único contato que teve com a fala, foi através de alguém que não apresentava excelência em comunicação. Sendo assim,  quando a moça foi encontrada as pessoas não conseguiam entender o que ela falava, considerando-a como incapaz de conviver entre os demais. Entretanto, a narrativa do filme mostrou  através de dois pesquisadores que ela não só era capaz de se comunicar como tinha a sua própria linguagem, o seu jeito de ser e interpretar o mundo. O vídeo a seguir passa esta mesma mensagem, pois os autistas tem um mundo onde primeiro precisamos decifrá-lo para após conseguir interagir com os mesmos. O importante é nunca desistir, pois sempre haverá alguma forma, algum jeito dessa comunicação ocorrer.