domingo, 28 de abril de 2013

Hipnose: o poder elástico do cérebro





    A plasticidade do cérebro e outras possibilidades por meio da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes

   A hipnose é definida como um estado alterado de consciência ampliada, em que o sujeito permanece acordado todo o tempo, experimentando sensações, sentimentos, talvez tendo imagens, regressões, anestesia, analgesias e outros fenômenos enquanto está nesse estado. Assim, poucas palavras têm o poder de despertar reações tão hipnóticas quanto o próprio termo hipnose. A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia. Podemos afirmar que a sua utilização se encontra presente em toda história da humanidade. Os acontecimentos chamados hipnóticos fazem parte da vida dos seres humanos continuamente. Todos os dias e a cada instante estamos embutidos nesse chamado “estado alterado de consciência”.

    Algumas pessoas a consideram um embuste ou algo que só serve para fazer com que alguém tenha ações específicas: agir como animais ou provar alimentos picantes. Há quem acredite que cura todos os tipos de patologias e há aqueles que a acham tão perigosa que deveria ser completamente abandonada.

   O Dr. Milton Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural da mente humana, bem como sua existência e efeitos no cotidiano. Uma das suas contribuições para a Psicologia foi o conceito de utilização da realidade individual do paciente, a terapia naturalista, as diferentes formas de comunicação indireta, a técnica de confusão e de entremear. Dessa forma, o legado do Dr. Erickson contribuiu para diversas escolas e campos de conhecimento que tratam da relação entre cognição, comportamento e atividade do sistema nervoso em condições normais ou patológicas, como o caso da própria neuropsicologia, que tem caráter multidisciplinar e apoio na Anatomia, Fisiologia, Neurologia, Psicologia, Psiquiatria e Etologia, entre outras ciências. Assim, a questão que fica: seria possível promover a reabilitação neuropsicológica pelo princípio da plasticidade cerebral através das ferramentas de hipnose?

     A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia

     A melhor resposta pode ser descrita pelo próprio Milton Erickson, ele mesmo acometido pela poliomielite e suas consequências que o acompanharam durante a vida. Dr. Erickson, em muitos de seus artigos, livros e seminários didáticos, relatava que usava o próprio transe hipnótico como uma forma de manter um estado adequado, sem dor e, consequentemente, viver melhor. Dessa forma, percebemos a autohipnose como uma ferramenta importante nessa intervenção cerebral.

Pesquisas recentes

     As pesquisas atuais estão avançando no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre os mecanismos de recuperação funcional, bem como sobre os fatores relacionados às variações interindividuais. Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico, constituindo uma unidade funcional com o corpo e o ambiente.

   Atualmente, quando se fala em reabilitação neuropsicológica, devemos pensar que existem técnicas de reabilitação que podem atuar em níveis diferentes, como o treino cognitivo que trabalha a restauração da função, as estratégias compensatórias (internas ou externas), que atuam no nível da atividade, e participação social, com o intuito de tornar o indivíduo mais participativo. Além disso, é comum nos programas de reabilitação a utilização de diferentes técnicas com cada tipo de paciente, como atendimento individual e em grupo, psicoterapia para ampliação da percepção e aceitação dos déficits, orientação e replanejamento vocacional. O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente e o contexto biopsicossocial no qual está inserido.

    Partindo do pressuposto de que existem diversas técnicas de reabilitação, o interessante é realizar uma discussão sobre o uso da hipnose enquanto ferramenta em reabilitação neuropsicológica, especificamente atuando em neuroplasticidade.

    A plasticidade cerebral pode ser definida como uma mudança adaptativa na estrutura e função do sistema nervoso que ocorre em qualquer fase do desenvolvimento, como funções de interação com o meio ambiente interno e externo, ou ainda como resultante de lesões que afetam o ambiente neuronal. Além disso, a plasticidade cerebral constitui-se de um processo dinâmico, em que se relacionam as estruturas e suas funções, proporcionando respostas adaptativas que são impulsionadas por desafios do meio ou alguma lesão, se mantendo ativa, em diferentes graus, durante toda a vida inclusive na velhice.

    Os neurocientistas constataram que o grau de neuroplasticidade varia conforme a idade do indivíduo. Como exemplo, durante o desenvolvimento ontogenético, o sistema nervoso é mais plástico. Essa é a fase da vida do indivíduo onde tudo se constrói e se molda de acordo com o genoma e as influências do ambiente. Porém, mesmo durante o desenvolvimento, existe uma fase de maior plasticidade denominada período crítico, na qual o sistema nervoso é mais suscetível às transformações provocadas pelo meio ambiente externo. Após o organismo ultrapassar essa fase e atingir a maturidade, sua capacidade plástica diminui, se modifica, mas não se extingue. Há várias formas de neuroplasticidade, como: regeneração, plasticidade axônica, plasticidade sináptica, plasticidade dendrítica e plasticidade somática.

     Para pensar no poder elástico do cérebro e relacionar com a hipnose moderna empregada pelo Dr. Milton Erickson é necessário verificar, dentro da própria vida deste, uma similaridade curativa, onde essa neuroplasticidade desempenhou um papel de reestruturação nele mesmo, como descrito acima.

     Nessa interrelação sistêmica, entre corpo e ambiente, podemos estabelecer uma percepção avançada ao ver que Dr. Erickson, por si mesmo, desenvolveu um tipo especial de concentração mental para qualquer movimento mínimo, refazendo mentalmente cada movimento repetidas vezes, de forma a fazer uma nova ligação de aprendizado entre os fatores pensantes da sua subjetividade e a reação física dos movimentos. A comprovação dessa prática fora descrita nos artigos médicos acadêmicos que ele havia escrito. Outras enfermidades também acompanharam a vida de Erickson, como o daltonismo e a deficiência auditiva, podendo parecer para qualquer pessoa como problemas ou grandes dificuldades para viver. Mas Dr. Erickson descreveu e utilizou destas os seus próprios recursos para desenvolver uma abordagem terapêutica que se tornou reconhecida pela eficácia e elegância de aplicação, utilização e resultados imediatos, além da reabilitação neuropsicológica autoapresentada.

     Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural.

PRESENTE DE GREGO?

     A hipnose ericksoniana pode ser vista como um “cavalo de troia”, em que é ofertado um presente disfarçado ao sujeito, no qual este, nessa condição, recebe e se faz elaborar internamente questões e ensaios, como uma espécie de trabalho que nasce de dentro, recuperando neurônios ao gerar a plasticidade cerebral necessária para a reabilitação funcional. Através da própria sugestão (autohipnose) ou ao induzir pacientes pelo instrumento da hipnose, podemos criar novas representações subjetivas, novas ressignificações e novas conexões; dessa forma, manter um ambiente interno capaz de promover mudanças ou simplesmente ajudar o sujeito a encontrar recursos internos para auxílio na reabilitação neuropsicológica.

     Uma das formas de aplicação da hipnose elaborada pelo Dr. Erickson está na maestria da utilização da linguagem analógica, por comparação, em que as metáforas, alegorias e anedotas faziam um papel desse “cavalo de troia” mencionado anteriormente, um disfarce linguístico na condução do transe hipnótico.

     Ao observar a forma de trabalho hipnótico do Dr. Erickson, pode-se perceber a clara intenção de ofertar presentes linguísticos ao inconsciente do sujeito hipnotizado. Quando Erickson contava a um paciente sobre o caso de outro paciente, na verdade sua intenção esperada seria que o próprio paciente fizesse a relação com sua história de vida. Se o relato tivesse uma solução ou alternativa para um problema que estava sendo trabalhado, o paciente encontraria relações com esse fato, se comparando ao mesmo e encontrando na sua própria história recursos internos para enfrentamento da situação problema.

    Para ilustrar tal metodologia, podemos citar Rosen (1982), em que o Dr. Erickson utilizava uma passagem de sua própria história, quando criança, com a intenção de estabelecer vínculo com o paciente e permitir que o mesmo falasse de seu problema, com confiança e assertividade necessárias. “É... você sabe, bom... vou iniciar nossa sessão contando um trecho interessante da minha vida... foi assim: ...muita gente estava preocupada comigo porque eu já tinha quatro anos de idade e ainda não falava e uma irmãzinha minha, dois anos mais nova, já falava, e continua falando, mas até agora não disse quase nada. E... muitos ficavam aflitos porque eu era um menino de quatro anos que não podia falar... Minha mãe dizia confiante: ‘vai falar quando chegar a hora’” (ROSEN, 1982, p. 67).

    Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico

    Dessa forma, o paciente poderia elaborar o melhor momento para falar com confiança. Como Rosen (1982) menciona, nesse exemplo se destaca a convicção do Dr. Erickson de que se pode confiar que a mente inconsciente terá as respostas certas no momento oportuno. E, se essa história fosse contada a um paciente que começa a experimentar o transe hipnótico, poderia tranquilizá-lo no sentido de que pode aguardar, sem preocupações, até que apareça o impulso para falar algo relevante, ou até que possa revelar, de uma maneira não verbal, as suas mensagens inconscientes.

    Ao pensar dessa forma, poderíamos trazer a seguinte questão: “O que aconteceria se fosse dada uma relação metafórica para um paciente em reabilitação neuropsicológica de que outra pessoa conseguiu resultados importantes com determinado pensamento ou atividade?”. Se a metodologia e ferramentas aplicadas pelo Dr. Erickson estiverem certas, a reabilitação neuropsicológica estaria sendo auxiliada pela linguagem e comunicação do psicoterapeuta, favorecendo assim a neuroplasticidade e provável recuperação de um paciente.

    Ao tratarmos de conhecimento científico, é necessário enfatizarmos que este pode criar paradigmas, conceitos e visões referentes ao mundo, à maneira como encaramos a nós mesmos, nosso cérebro e as relações externas que nos cercam. A ciência cria modelos teóricos com suas visões sobre como operamos no mundo, desenvolvemos nossa personalidade, construímos nossa subjetividade e o modo como nosso cérebro se desenvolve e se adapta. Tais modelos teóricos estão em constantes mudanças e recriações.

    É justamente nesse ponto que se concebe que o legado de Erickson consiste prioritariamente em um presente de grego, na medida em que convida seus interlocutores às transformações profundas não apenas em suas formas de abordagem terapêutica, mas também a uma revisão crítica de todos os momentos e situações onde o conhecimento se constrói.

    O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente

PAPEL DO TERAPEUTA

     Em Psicologia, podemos levar esse conhecimento a novos caminhos, indo além de simples acolhimentos a pacientes com lesões funcionais, mas podendo influenciar positivamente na reconstrução e reabilitação do sujeito atendido.

    O papel do psicólogo como profissional deve carregar um arquétipo de curador, em que sua figura traz conforto, aceitação e, principalmente, a esperança de recuperação. Neste momento, fica a importância de esse profissional perceber que o ser humano é constituído pelo princípio do biológico, psicológico e social. Naturalmente, através da constante pesquisa e desenvolvimento de novas técnicas, nós, os psicólogos, podemos agregar mais e ajudar outros profissionais da área médica na recuperação de pacientes com lesões neuropsicológicas.

      Quando consideramos a hipnose como instrumento ou simplesmente como uma forma de comunicação, abre-se a escolha para todas as linhas terapêuticas, seja comportamental, humanista, psicanalista ou cognitiva. Partimos do pressuposto de que, para atuar, o psicólogo precisa se comunicar e comunicação é redundância, sempre estamos comunicando algo. A hipnose moderna, termo considerado após Erickson, é uma forma de comunicação elegante, às vezes formalmente, com os olhos fechados em profundo estado alterado de consciência ou simplesmente de forma coloquial, como uma conversa, ao contar uma história ou relatar um fato, pode trazer dentro desse conto uma semente de mudança em reabilitação. O poder elástico do cérebro, sua plasticidade e outras possibilidades através da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes. Ignorar esse conhecimento pode significar ignorar as próprias condições do ser humano e do profissional psicólogo, onde a curiosidade por novas descobertas trará novos resultados no futuro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um ambiente acolhedor faz a diferença...



     Quem não se sente bem num ambiente acolhedor? Todos queremos ser bem tratados, independente do local onde estivermos... acompanhei estes dias a postagem de um amigo que se encontrava num estabelecimento público e a pessoa nem olhava para ele, simplesmente estava ocupada demais com a internet (e não era com afazeres do trabalho). Mas isso há em qualquer local, pois quantas vezes desistimos de alguma compra, pois julgamos o atendimento de “péssima qualidade”(ou seja, a pessoa não nos deu a devida atenção).
      Agora pensem a diferença que faz quando um bom profissional vem e lhe oferece um bom atendimento, ou seja, lhe atribui um valor. Nossa tendência será responder com sincronicidade. Cito o exemplo de um professor UNIVERSITÁRIO que tive o prazer de conhecer, que mesmo com a sala lotada, não iniciava a aula sem passar de um em um e dar um aperto de mão, lhe desejando uma boa aula. Na PÓS-GRADUAÇÃO, também tive mais um belíssimo exemplo disso, então o que quero dizer é que pessoas assim fazem a diferença, nos instigam a dar o nosso melhor, atitudes e gestos de simplicidade é que tocam os corações das pessoas. Pensando mais um pouquinho...dos professores pelos quais você já teve a oportunidade de conviver, é do conteúdo que você lembra ou é algo mais?
      No entanto alguns ainda acreditam que “cara fechada” é sinal de respeito, dá um ar de maior autoridade, é comum até hoje no campo educacional ouvir-se a expressão “Nos primeiros meses não se pode mostrar os dentes, depois que os alunos criaram respeito, aí sim é diferente”. Será mesmo? Porque se perpetuam frases que nós mesmos como indivíduos não gostaríamos de sermos vítimas? Ou você... seja como aluno, ou como cliente, gostaria de ser atendido por alguém que não lhe “mostrasse os dentes”?
     Ainda prefiro acreditar que um ambiente acolhedor faz a diferença, e nesse sentido, transcrevo as palavras de André Palmini (2011), para que possamos refletir...

“Quis a natureza que o nosso cérebro evoluísse no sentido de que pela expressão facial dos outros nós pudéssemos saber o quanto estamos acolhidos, o quanto a gente pode confiar em alguém. Temos um rastreador do ambiente. O aluno consegue sentir se o ambiente é mais ou menos acolhedor, consegue identificar ameaças e saber o quanto são confiáveis as pessoas que estão em volta dele. Consequentemente, a maneira como a gente vai se posicionar, as nossas expressões faciais, os nossos gestos e a nossa voz vão permitir que o ambiente seja mais ou menos acolhedor. Quanto mais “feia a cara”, mais o aluno vai se afastar. Não estou querendo dizer que o professor não tenha autoridade. É bom o pai que amarra a cara quando é necessário amarrar, mas que não esteja de cara amarrada o tempo todo. Então, é bom o professor que fecha a cara quando tem que fechar, mas não a maior parte do tempo...”

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Transtorno Global do Desenvolvimento


Fonte: Revista Ciranda da Inclusão- ano II número 20

     A classificação Estatística Internacional de Doenças relacionadas à Saúde (CID), em sua última versão (10), define o Transtornos Globais de Desenvolvimento como: “Grupo de transtornos caracterizados por alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e modalidades de comunicação e por um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Estas anomalias qualitativas constituem uma característica global do funcionamento, em todas as ocasiões.”.


     Muitos professores se sentem desamparados quando recebem alunos com Transtornos Globais do Desenvolvimento. Acreditamos que um dos motivos para o surgimento dessa sensação seja certo desconhecimento sobre o assunto. Um exemplo disso é a falta de produção acadêmicas a respeito do tema.
Carla Karnoppi afirma que e 28 anos de pesquisa em trabalhos acadêmicos no Brasil, foram realizados 366 mil estudos, sendo que, dentre estes, somente 264 eram sobre assuntos referentes ao autismo e à psicose. As áreas de interesse são descritas abaixo:

     De acordo com a autora, os trabalhos a respeito de TGD concentram-se em três áreas específicas, sendo que na Educação foram desenvolvidos apenas 53 estudos sobre o tema, registrando assim a carência de pesquisas a respeito.
     Dentro dos Transtornos Globais de Desenvolvimento, também encontramos a psicose.

     A psicose é a perda de sentido de realidade ou incapacidade de distinguir entre as experiências reais e imaginárias. É uma deficiência grave e continua de relacionamento emocional com pessoas, juntamente com segregação e tendência para preocupar-se com objetos inanimados.
     A psicose é um estado incomum de funcionamento psíquico. Mesmo não sabendo exatamente como são as patologias psiquiátricas, podemos imaginar algo semelhante ao compará-las com determinadas experiências pessoais. A tristeza e a alegria assemelham-se à depressão e à mania, o medo e a ansiedade perante situações corriqueiras têm relações com os transtornos fóbicos e de ansiedade. Da mesma forma, outros transtornos psiquiátricos podem ser imaginados a partir de experiências pessoais. No caso da psicose não há comparações, nem mesmo um sonho, por mais irreal que seja, é semelhante à psicose.
     O aspecto central da psicose é a perda do contato com a realidade, dependendo da sua intensidade. Os psicóticos quando não estão em crise, zelam pelo seu bem-estar, alimentam-se, evitam machucar-se, tem interesse sexual, estabelecem contato com pessoas reais. Isso tudo é indício da existência de um relacionamento com o mundo real. A psicose propriamente dita começa a partir do ponto em que o paciente relaciona-se com objetos e coisas que existem no nosso mundo. Modifica seus planos, suas ideias, suas convicções, seu comportamento por causa de ideias absurdas, incompreensíveis, ao mesmo tempo em que a realidade clara e patente significa pouco ou nada.
Algumas características:
·         Deficiência no desenvolvimento da fala ou perda do desenvolvimento da fala;
·         Distúrbio na percepção sensorial;
·         Conduta ou padrões de movimento bizarros na rotina ou no ambiente;
·         Acessos de pânico intensos e, frequentemente, imprevisíveis;
·         Falta do sentido de identidade pessoal;
·         Desenvolvimento intelectual embotado, fragmentado ou desigual.

 SUGESTÕES DE INTERVENÇÕES PEDAGÓGICAS :
SOCIALIZAÇÃO
COMUNICAÇÃO:
COGNIÇÃO:


Fonte:
CID10, Classificação Estatística internacional de Doenças e Problemas Relacionados à saúde.
VASQUES, Carla Karnoppi – Transtornos Globais do Desenvolvimento e Educação: Análise da Produção Científico – Acadêmica.
HONORA, Márcia; FRIZANCO, Mary L. – Esclarecendo as deficiências - Aspectos teóricos e Práticos para contribuir com uma sociedade inclusiva.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O mundo secreto do inconsciente


Ele ocupa a maior parte do cérebro e controla quase tudo o que fazemos. Mas a ciência já sabe como domá-lo e usar os poderes dele para várias coisas, de guardar senhas a fazer espionagem militar. Conheça as novas descobertas sobre o inconsciente - e veja como elas confirmam a principal teoria de Freud.


Revista Superinteressante - por Alexandre de Santi e Sílvia (fevereiro de 2013)

Quando tinha pouco mais de cinquenta anos, o médico africano T.N. sofreu dois derrames cere­brais devastadores. Eles destruíram totalmente seu córtex visual, a re­gião do cérebro que nos permite enxergar. T.N. ficou completa e ir­remediavelmente cego. Mas, ainda no hospital, um grupo de cientistas ingleses decidiu recrutá-lo para um estudo estranho. Colocaram um laptop na frente de T.N. e pediram a ele que identificasse qual figura aparecia na tela, que poderia ser um círculo ou um quadrado. O homem identificou corretamente 50% das figuras - o que é de se esperar num cego, pois esse índice de acerto é o mesmo que se consegue fazendo escolhas aleatoriamente. T.N. estava apenas chutando. Mas aí, num se­gundo teste, os pesquisadores tro­caram as imagens exibidas no lap­top. Agora, aparecia uma sequência de rostos, alguns amigáveis e outros hostis. T.N. deveria dizer se cada face era amiga ou inimiga.

Para perplexidade geral, ele identificou corretamente dois ter­ços dos rostos. Sorte? Os cientistas repetiram o teste, mas o índice de acerto se mantinha. T.N. estava tendo alguma reação aos rostos. Ele dizia que não estava vendo nada - e, clinica­mente, de fato era impossível que enxergasse. Como explicar isso, então? Um fenômeno sobrenatural? Não.

Ser capaz de ler expressões faciais é uma habilidade extre­mamente importante. Para o homem das cavernas, saber se um indivíduo era amistoso ou hostil poderia significar a diferença entre a vida e a morte. E era preciso fazer isso no ato; não dava tempo de conversar e analisar racionalmente a pessoa para saber se ela era boazinha ou não. Por isso, ao longo da evolu­ção, uma região cerebral se especializou em julgar rostos. Ela se chama área fusiforme e é um pedaço fininho e comprido da parte de baixo do cérebro. Quando você vê uma pessoa pela primeira vez, sua área fusiforme analisa o rosto dela. O proces­so dura frações de segundo e é inconsciente, ou seja, você não percebe que está acontecendo. Sabe aquela primeira impressão instantânea, que parece puro instinto e sempre temos ao co­nhecer alguém? É um julgamento feito pela área fusiforme.

No cérebro de T.N., esse pedaço estava intacto. O córtex dele não conseguia processar as imagens enviadas pelos olhos, mas a área fusiforme sim. É por isso que, mesmo estando cego, T.N. ainda conseguia ver rostos. Seu cérebro consciente não enxer­gava mais nada. Mas o inconsciente dele ainda conseguia ver - e, mais do que ver, julgar os rostos das pessoas.

Há diversos casos como o de T.N., tantos que a ciência até criou um termo para desígná-Ios. blindsight, ou visão cega. Todos seguem o mesmo padrão. Conscientemente, a pessoa está cega - mas partes do cérebro dela ainda conseguem en­xergar. A visão cega é apenas uma das demonstrações do po­der do inconsciente, que interessa cada vez mais aos cientistas. Agora, o lado oculto da mente não é apenas um assunto de psi­canalistas; ele também virou uma das áreas mais interessantes da neurociência moderna. Essa transformação aconteceu por­ que as técnicas de mapeamento cerebral finalmente estão permitindo que os cientistas comecem a desbravar o inconsciente - um mundo inexplorado e muito maior que a consciência.

Quão maior? No ano passado, a emissora inglesa BBC fez essa pergunta a sete dos maiores experts do mundo em cérebro e cognição, de quatro grandes universidades (Oxford, Montreal, Columbia e Londres). Cada um deles deu seu palpite - sim, palpite, pois a ciência ainda está longe de ter um catálogo comple­to dos processos cerebrais. Pelas estimativas dos especialistas, a consciência ocupa no máximo 5% do cérebro. Todo o resto, 95%, é o reino do inconsciente.

Muito do que você faz, o tempo inteiro, é inconsciente. Falar, por exemplo. Você simplesmente pensa no que quer dizer (as ideias), e não precisa selecionar conscientemente as palavras - elas simplesmente aparecem. Isso acontece porque o seu in­consciente trabalha nos bastidores durante o papo, vasculhan­do o seu vocabulário e abastecendo o consciente para ajudar você a se expressar. Enquanto você escuta outra pessoa falar, acontece algo parecido. Você não precisa analisar e decodificar conscientemente cada palavra do que ela está dizendo - porque o seu inconsciente se encarrega de transformar em ideias os sons que estão saindo da boca dela. Quando você lê um texto, é a mesma coisa: o inconsciente transforma automaticamente os símbolos gráficos (as letras e palavras) da página em ideias, que só então são transmitidas para a sua consciência. É por isso que é tão difícil aprender outro idioma. Quando você começa a falar ou ler textos em outra língua, só usa a consciência - porque o inconsciente ainda não assumiu a tarefa (mais sobre isso daqui a pouco), e você tem de escolher ou analisar as palavras uma por uma. "Falar outro idioma é quase experimentar ser outra pessoa. Precisamos reunir os sentidos usando outra lógica" , diz Luiza Surreaux, doutora em estudos da linguagem e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O inconsciente se encarrega de tudo o que fazemos sem es­forço perceptível, como andar na rua ou escovar os dentes. Por causa disso, ele opera em potência máxima o tempo todo - e é uma exceção no organismo. Se você se levantar e sair correndo, por exemplo, os seus músculos vão gastar aproximadamente 100 vezes mais energia do que se você estivesse imóvel (e co­ração e pulmão também serão mais exigidos). Mas o cérebro é diferente. Quando você faz alguma coisa mentalmente intensa, como jogar xadrez, ele gasta apenas 1 % a mais de energia do que se você estivesse olhando para o teto, sem pensar em nada. Isso acontece graças ao inconsciente - que trabalha frenetica­mente até quando estamos relaxados. "O cérebro é abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras", diz o psicólogo e neurocientista Ran Hassin, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos autores do livro The New Unconscious ("O novo in­consciente", ainda não lançado no Brasil). "Novo inconscien­te", aliás, é o termo que os cientistas têm utilizado para definir essa nova abordagem - que propõe uma explicação puramente neurológica para o lado oculto da mente. Mas também confir­ma a principal ideia de Freud.

• Psicanálise X Ciência

Sigmund Freud não foi o "descobridor" do inconsciente. Já durante o Iluminismo, no século 18, se discutia a existência dele - entendido como um pedaço da mente dotado de vontades que escapavam ao controle consciente. A contribuição específica (e enorme) de Freud foi transformar uma noção vaga num conjunto de ideias, teorias e técnicas: a psicanálise. Como explica o biógrafo Peter Gay em Freud - Uma Vida para Nosso Tempo (Companhia das Letras, 2012), Freud acreditava que o inconsciente era "uma prisão de segurança máxima" na qual os traumas sofridos na infância ficavam aprisionados, e nisso estaria a raiz das infelicidades humanas.

A neurociência nunca deu muita bola para a psicanálise. Mas os novos estudos sobre inconsciente trazem comprovação para um conceito central dela. Uma experiência liderada pelo psi­quiatra Eric Kandel, que ganhou o prêmio Nobel de Medicina de 2000 por estudos sobre neurotransmissores, mostra como o inconsciente pode funcionar como amplificador das emoções. Antes da experiência, os voluntários preencheram questioná­rios que mediam seus níveis de ansiedade. Depois, enquanto seu cérebro era monitorado pelos cientistas, cada voluntário via uma série de rostos com expressões de medo. Foram duas sessões. Na primeira, as fotos passavam bem devagar, com tempo suficiente para o voluntário analisar os detalhes de cada uma. Na segunda, as imagens passavam tão rápido que os vo­luntários não conseguiam identificar nada - não tinham nem certeza de ter visto um rosto ou qualquer outra coisa. A inten­ção de Kandel e seus colegas era provocar emoções conscientes e inconscientes. Quando a foto ficava por um bom tempo na tela, o voluntário tinha tempo de perceber conscientemente a expressão de medo da imagem. No outro experimento, era tudo tão rápido que não era possível ter uma reação consciente.

Essas imagens rápidas estimulavam diretamente o inconscien­te, e provocavam atividade muito alta no núcleo basolateral da amídala cerebral - área ligada às sensações de medo. Já as ima­gens lentas, que eram interpretadas de forma consciente, não geravam nenhuma atividade nessa área. Quanto mais ansiosa a pessoa era, maior a diferença entre a interpretação consciente e inconsciente da mesma coisa (as imagens). Para Kandel, o estudo é a comprovação neurocientífica de uma teoria central da psicanálise: a interpretação inconsciente de coisas negativas é a fonte de muitas das aflições humanas. Freud tinha razão.

O inconsciente pode ser fonte de angústias - e também de algumas injustiças, cujos efeitos são perceptíveis desde a in­fância. O queridinho do professor, provavelmente, será o aluno com as melhores notas da classe. Não porque ele seja necessa­riamente o melhor, mas porque os professores acreditam que seja - e acabam atuando inconscientemente a favor dele. Esse fenômeno, que se chama incentivo inconsciente, tem respaldo em diversos estudos científicos. Um dos mais engenhosos (e mais polêmicos também) foi conduzido na década de 1960 por Robert Rosenthal, hoje um octogenário professor de psicologia da Universidade da Califórnia.

Na experiência, os alunos de uma escola americana foram submetidos a uma prova. Rosenthal e sua equipe disseram aos 18 educadores do colégio que se tratava de um teste especial, desenvolvido na Universidade Harvard para analisar o poten­cial de desenvolvimento de cada criança. Mentira. Era apenas um reles teste de QI, sem nada de especial. O objetivo da lorota era aumentar as expectativas dos professores. Os alunos fize­ram a prova, e a grande sacada de Rosenthal veio na hora de anunciar o resultado. Antes mesmo de calcular a pontuação de cada aluno, os pesquisadores escolheram aleatoriamente três a seis crianças de cada série e disseram aos professores que aqueles alunos haviam se destacado e teriam um desempenho extraordinário nos anos seguintes. Era outra mentira.

No final do ano escolar, a equipe de Rosenthal voltou à escola e repetiu o teste. Os alunos que haviam sido falsamente diag­nosticados como gênios haviam ganho, em média, 3,8 pontos de QI a mais que os demais. O resultado foi ainda mais surpre­endente entre alunos da primeira série: a diferença entre os ungidos e o resto foi de assombrosos 15,4 pontos de QI a mais. Ou seja: as crianças que haviam sido apre­sentadas como mais inteligentes de fato se tornaram mais inteligentes - porque inconscientemente, sem querer, os professores haviam dado mais atenção e estímulo a elas. "O resultado mais importante des­se experimento foi mostrar como a expectativa dos professores faz toda a diferença para o desenvolvi­mento dos alunos", analisa Rosenthal. É impossí­vel ser completamente justo e imune a esse tipo de influência, mas existe um antídoto eficaz contra as distorções induzidas pelo inconsciente: saber que ele sempre está pronto para nos enganar.



• Aprender sem saber

Se, por um lado, é impossível controlar o inconsciente de maneira consciente, é possível influenciá-lo. "Po­demos mudá-lo. Ele é tão maleável quanto a consci­ência, ou talvez mais", afirma o neurologista Ran Has­sino Como se faz isso? Praticando alguma coisa até que ela se torne uma segunda natureza, ou seja, vire um processo automático. Qualquer profissional de elite, seja um pianista profissional, um jogador da seleção brasileira de futebol, um médico-cirurgião ou uma bailarina do Theatro Municipal, depende de anos de o consciente prática para chegar ao topo da carreira. Cerca de dez anos de prática - ou 10 mil horas de treino, segundo uma famosa pesquisa do psicólogo Anders Ericsson, da Universidade da Flórida. Ericsson estudou violinis­tas de uma das melhores escolas de música de Berlim. Eles começaram com cinco anos de idade, todos no mesmo ritmo. Mas, a partir dos oito anos, as horas de ensaio começaram a variar entre os estudantes. Quando chegaram aos 20 anos, os melhores violinis­tas haviam somado 10 mil horas de treino, enquanto os demais não passavam de 8 mil horas - e os piores da turma tinham apenas 4 mil horas de estudo.

A dedicação trouxe recompensa porque, quando se pratica muito alguma coisa, ela fica gravada num tipo especial de memória: a memória não-declarativa, que faz parte do inconsciente e registra ações e movimentos do corpo. É ela que permite que o violinista consiga tocar bem. Se dependesse apenas do consciente, ele não daria conta de todos os procedimentos envolvidos na tarefa (ler a partitura, equilibrar o instrumento no ombro, posicionar os dedos, mover o arco, respirar e, ainda por cima, tocar de maneira natural e relaxada).

E ninguém conseguiria aprender a falar fluentemente um segundo idioma. Em suma: a chave para ensinar uma nova habilidade ao próprio inconsciente é treinar, treinar e treinar. É um processo bem demorado. Mas já existe gente tentando deixá -lo mais rápido.

• As senhas invisíveis

Elas são um problema típico do mundo moderno. Ou você aca­ba esquecendo as suas, ou escolhe uma bem bobinha e usa pra tudo - até que, por causa disso, alguém acaba invadindo o seu e-mail ou conta bancária. Um grupo de cientistas da Univer­sidade Stanford tem uma solução melhor: senhas ultrassecre­tas, que ficam armazenadas no inconsciente. Funciona assim. Primeiro, os cientistas pedem a voluntários que joguem um joguinho no qual bolinhas caem, uma de cada vez, em uma das seis colunas que aparecem na tela. O objetivo é apertar o botão do teclado correspondente à posição da bolinha na tela. Se a bolinha cai do lado esquerdo, por exemplo, a pessoa aperta a letra S (porque ela fica bem à esquerda no teclado). A ordem das bolinhas parece aleatória, mas não é. A pessoa não percebe, mas existe uma sequência que se repete de tempos em tempos - cerca de 90 vezes ao longo de 30 minutos, a duração do jogo. Essa sequência é definida pelo computador e é personalizada, ou seja, diferente para cada jogador. Ela é a senha. E, graças à repetição, acaba sendo gravada no inconsciente da pessoa.

Na segunda etapa da experiência, a pessoa joga o joguinho novamente. E as bolinhas vão caindo na tela do mesmo jeito: sua ordem parece aleatória, mas uma sequência específica (a senha) se repete de tempos em tempos. Como as bolinhas caem bem depressa, o jogador erra muitas. Exceto as boli­nhas daquela sequência que ficou gravada no inconsciente dele. Sem perceber nem saber o motivo, a pessoa acerta to­das. Está digitada a senha. Ela é reconhecida pelo compu­tador, que libera o acesso. Além de ser conveniente (você nunca mais precisará se lembrar de uma senha), a tecnolo­gia é extremamente segura. "O sistema torna praticamente impossível para um assaltante forçar a vítima a revelar sua senha bancária, por exemplo. Porque a senha está no cérebro da pessoa, mas não está acessível conscientemente a ela", explica Hristo Bojinov, um dos criadores da tecnologia.

Segundo ele, o sistema de senhas inconscientes pode che­gar ao mercado dentro de três anos, mas ainda precisa ser aperfeiçoado. Por enquanto, ele é inviável para uso cotidiano - porque é preciso jogar o joguinho durante 5 a 10 minutos até que a senha inconsciente seja digitada. Dez minutos é bastante. Mas é bem menos do que as 10 mil horas do exemplo anterior. Ou seja: a nova técnica mostra que é possível inserir informações simples no inconsciente muito mais de­pressa do que se acreditava.

O Exército americano já percebeu, e está tentando tirar proveito disso. A ideia é ajudar os analistas de imagens aére­as, funcionários do Pentágono que olham as fotos tiradas pelos satélites espiões dos EUA - e dizem quais delas contêm algo re­levante (como um reator nuclear ou uma base militar inimiga, por exemplo). É um trabalho cansativo e difícil, pois são mi­lhares de fotos aparentemente iguais, com diferenças minús­culas. Mas o cientista Paul Sajda, da Universidade Columbia, teve a ideia de monitorar o cérebro de um analista enquanto ele olhava essas fotos. O analista vestiu uma touca de eletroen­cefalograma (EEG), cheia de sensores que medem a atividade elétrica em determinadas regiões do cérebro. Aí Sajda mostrou a ele uma foto relevante, ou seja, na qual se via claramente uma construção suspeita. O eletroencefalograma registrou um pico de atividade cerebral - pois aquela imagem havia despertado a curiosidade do analista. Normal.

Mas aí os pesquisadores resolveram acelerar as coisas, e co­meçaram a exibir dez imagens por segundo. Algumas das fotos eram relevantes, outras não, mas todas passavam rápido de­mais para que o analista conseguisse prestar atenção em qual­quer coisa. Mesmo assim, quando aparecia uma foto relevante, algo incrível acontecia: o eletroencefalograma registrava um pico de atividade no cérebro dele. O analista não conseguia perceber nada de diferente nas imagens, mas o inconsciente dele sim - e estava identificando as fotos que tinham pontos interessantes. De acordo com Sajda, o novo método permite aumentar em até 300 vezes a eficiência da análise de imagens militares. "Os processos inconscientes são capazes de algum tipo de racionalidade, muito mais do que se pensa, e essa racio­nalidade pode levar a boas decisões", escreve o neurocientista Antonio Damasio no livro E o Cérebro Criou o Homem.

• Hans, o cavalo esperto

O inconsciente não é apenas um depósito de traumas reprimi­dos e habilidades incríveis. Ele também é especialista em fazer o contrário: colocar tudo pra fora. O psicólogo Paul Ekrnan, da Universidade da California, ficou famoso por ter catalogado mais de 10 mil conjuntos de "microexpressões" - expressões faciais que fazemos inconscientemente enquanto conversamos, e que podem revelar nossas verdadeiras emoções. Inclusive se o seu interlocutor for um cavalo.

Em 1904, o alemão Wilhelm von Oster ficou famoso por suas apresentações com Hans - um cavalo que era capaz de "quase tudo, menos falar". Segundo o dono, Hans fazia cálculos ma­temáticos complexos. Quando perguntavam a raiz quadrada de quatro, o bicho respondia batendo o casco duas vezes no chão. A conexão era tanta que Hans acertava o resultado mesmo quando seu mestre não fazia as perguntas em voz alta - e apenas pensava nelas. Havia quem jurasse de pés juntos que o cavalo lia a mente de Von Oster. A dupla rodou a Alemanha em apre­sentações fantásticas, e deixou estudiosos debruçados sobre o mistério durante anos. Em 1907, o psicólogo Oskar Pfungst pu­blicou um estudo que solucionava a charada. Hans só acertava os resultados quando seu 'entrevistador' (no caso, Von Oster) já sabia a resposta certa. Pfungst descobriu um padrão: Von Oster se inclinava levemente para frente quando terminava de propor uma questão. Esse era o sinal. Hans entendia e começava a bater o casco no chão. Quando atingia o número certo de batidas, algum outro movimen­to do dono denunciava a hora de parar. Von Oster era um charlatão, então? Talvez. Mas muitas outras pessoas, que não sabiam de nada, desafiaram Hans com problemas matemáticos. O cavalo acertou to­dos. É que elas, sem saber, também coordenavam com movimentos inconscientes as respostas dele. Ou seja: cavalos talvez não saibam fazer contas, mas podem ser capazes de ler o inconsciente alheio com mais precisão do que muito humano.

Ainda não existe uma fórmula que permita con­trolar o que dizemos de forma inconsciente. Emi­timos sinais inconscientes o tempo todo - a ponto de sermos transparentes até para cavalos. É por isso que é tão difícil fingir: todo mundo percebe quando achamos que uma festa está meio chata, por exem­pIo. Mas não vá culpar o seu inconsciente por isso. Se não fosse ele, você sequer conseguiria dançar e conversar ao mesmo tempo.

Para saber mais

Subliminal, Leonard Mlodinow. Pantheon Books, 2012.
Em Busca da Memória, Eric Kandel. Companhia das letras, 2009.

domingo, 21 de abril de 2013

Aprendendo a construir a identidade pedagógica pessoal




   Cada um de nós vai construindo sua identidade com pontos de apoio que considera fundamentais e que definem as suas escolhas. Cada um tem uma forma peculiar de ver o mundo, de enfrentar situações inesperadas. Filtramos tudo a partir de nossas lentes, experiências, personalidade, formas de perceber, sentir e avaliar a nós mesmos e aos outros.

    Uns precisam viver em um ambiente superorganizado e não conseguem produzir se houver desordem, enquanto outros não dão a mínima para a bagunça ou fazem dela um hábito. Uns precisam de muita antecedência para realizar uma tarefa, enquanto outros só produzem sob a pressão do último momento.

    Na construção da nossa identidade é importante como nos vemos, como nos sentimos, como nos situamos em relação aos outros. Muitos fomos educados para depender da aprovação dos demais, fazemos as coisas pensando mais em agradar os outros do que no que realmente desejamos.

     Todos  experimentamos inúmeras formas de comparação, ficamos em segundo plano, fomos deixados de lado, sofremos todo tipo de perdas e isso interfere na nossa autoimagem.

      Sempre nos colocam modelos inatingíveis de beleza, de riqueza, de sucesso, de realização afetiva. É intensa a pressão social para que nos sintamos infelizes, diminuídos em alguns pontos ou para que nos contentemos com pouco.

    Muitos permanecem imobilizados pelo medo do julgamento alheio, pelo medo de falhar. Vivem para fora, para serem queridos, aceitos. E sem essa aceitação se sentem mal, se escondem fisicamente ou através de formas de comunicar-se pouco autênticas, desenvolvendo papéis para consumo externo.

    Internamente – mesmo quando aparentemente o negamos – temos consciência de que somos frágeis, contraditórios, inconstantes e, em alguns campos, inferiores a outros.

     A grande questão é que, intimamente,  muitos não se gostam de verdade, não se aceitam plenamente como são, duvidam do seu valor, tentam justificar seus problemas, procuram  formas de compensação, de aprovação.

     Boa parte dos nossos descaminhos, das nossas dificuldades, perdas e problemas advém do medo de sermos felizes, de acreditar no nosso potencial.

   Ficamos marcando passo por sentir-nos inseguros, por incorporar tantas injunções negativas, acomodadoras, medíocres.

    Essa construção da nossa identidade que fomos realizando tão penosamente não a podemos modificar magicamente. Podemos, contudo, aprender a ir modificando alguns processos de percepção, emoção e ação.

   É importante reconhecer nossas qualidades, valorizá-las, destacá-las e buscar formas de colocá-las em prática, escolhendo situações em que elas sejam mais testadas e necessárias. Estar atentos ao que acontece e ir antecipando-nos, prevendo, testando, avaliando.

    Somos chamados a realizar grandes voos. Podemos ir muito além de onde estamos e de onde imaginamos e de onde os outros nos percebem.

      Podemos modificar nossa percepção, aprendendo a aceitar-nos e a gostar plenamente de nós, a aceitar-nos plenamente, intimamente como somos, sem comparações nem desvalorizações, quando ninguém nos vê, quando não temos que representar para alguém e ir adiante, no nosso ritmo, acreditando no nosso potencial.

   Para mudar o mundo podemos começar mudando a nossa visão dele, de nós. Ao mudar nossa visão das coisas, tudo continua no mesmo lugar, mas o sentido muda, o contexto se altera.

    Em geral não é preciso ir morar em outro ambiente, em outra cidade, mas descobrir novas formas de olhar e de compreender as pessoas, os ambientes com as que convivemos.

    Construímos a vida sobre fundamentos autênticos ou falsos. As construções em falso são como andaimes ou contrapesos para segurar uma parte do prédio que pode vir abaixo, cair. Procuramos esconder – até de nós mesmos - o lado negativo, o que anos incomoda, o que não gostamos.

   Quanto mais muros de contenção, duplas paredes, contrafortes criamos. Quanto mais estruturas paralelas levantamos, menos evoluímos a longo prazo, menos nos realizamos.

    As pessoas podem criar obras incríveis, maravilhosas em qualquer setor e, mesmo assim, girar em falso, estarem construindo superestruturas paralelas.

     Se o que nos leva a realizar coisas é a necessidade de reconhecimento, de aceitação, de ser queridos, o foco está distorcido e poderemos estar agindo a vida toda em falso.

    Se eu preciso necessariamente da aprovação de alguém para sentir-me bem, na mesma medida deixo de aceitar-me, de gostar-me, de integrar-me. Eu me volto na direção do outro, o coloco como eixo e começo a girar em falso. E quanto mais insisto nesse padrão e direção, mais me afasto do meu centro, mais energia preciso gastar, mais peso e superestrutura acumular. Posso ser reconhecido e não evoluir nem ser feliz.

      Creio que a grande maioria das pessoas se agita muito, faz mil atividades, mas não foca o essencial. Chega quase lá, mas lhe falta a atitude de total sinceridade consigo, de permitir-se o desvendamento de tudo o que é e carrega consigo. Espera a sua realização dos outros, de ser reconhecido por eles.

     Hoje dá-se muita ênfase às profissões onde há visibilidade, de divulgação, de marketing, que propiciam ser reconhecido como as de modelo, ator, esportista, televisão...). Muitos buscam a TV, ser entrevistados,  aparecer em colunas de jornais. Em si isso é bom, mas a atitude pode atrapalhar. Precisam de reconhecimento social como condição fundamental para sentir-se bem. São felizes se e quando aparecem, quando são solicitados, quando estão em evidência.

      É bom ser chamado, mas não posso depender disso, não posso ser infeliz se não me chamam nem focar minha vida em função do reconhecimento público. Se vier, ótimo, o aceitarei com prazer, mas não estarei ansioso pelo sucesso, pela aprovação, por ser reconhecido. Continuo minha vida focando a aceitação, a mudança possível e a interação tranquila com as pessoas e atividades que em cada etapa possuem significado e que me ajudam a crescer.

     A comunicação autêntica estabelece conexões significativas na relação com o outro. Desarma as resistências e provoca, geralmente, uma resposta positiva, ativa, e desarmada dele. Em contrapartida, a comunicação agressiva gera reações semelhantes no outro e pode complicar todo o processo subsequente.

        A cada dia confirmo mais a importância de termos mais e mais pessoas na sociedade e especificamente na educação que sejam capazes de relacionar-se de forma aberta com os outros, que facilitem a comunicação com os colegas, alunos, administração e famílias. Pessoas maduras emocionalmente, que saibam gerenciar os conflitos pessoais e grupais; que tenham suficiente flexibilidade para compreender diferentes pontos de vista, e intuição para aproximar-se de forma adequada a diferentes pessoas e formas de viver.

    Necessitamos urgentemente dessas pessoas para mudar o enfoque fundamental das práticas educacionais, para vivenciar práticas mais ricas, abertas e significativas de comunicação pedagógica inovadora, profunda, criativa, progressista.

            Descubro, com satisfação, que mais e mais pessoas estão ou mudando ou querendo mudar. Isso é um excelente sinal de que é possível realizar um grande trabalho na educação brasileira. Vamos concentrar-nos nestes grupos que estão prontos para o novo, que procuram aprender, que estão dispostos a avançar, a experimentar formas mais profundas de comunicação pessoal e tecnológica.

            Temos um longo trabalho, no campo político, de implementar ações estruturais de apoio à mudança integrada, que contemple currículo, processos de comunicação e tecnologias. Podemos ir incentivando as pessoas, grupos e instituições que estão buscando soluções novas e sérias em educação. Na universidade podemos dar subsídios teóricos e pedagógicos para essa mudança.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Mate as formigas do seu cérebro

    No livro Transforme seu cérebro, transforme sua vida, Daniel Amen, fala como os pensamentos negativos podem ser limitantes na vida das pessoas, sendo que estes, automáticos em algumas pessoas, parecem ter vida própria: verdadeiras  “formigas”...


   
   As formigas são os pensamentos cínicos, sombrios que podem levar as pessoas a se sentirem depressivas e fatalistas... Este tipo de pensamento limita severamente a capacidade de uma pessoa para desfrutar de sua vida, pois os pensamentos são poderosos. Cada célula do seu corpo é afetada por cada pensamento que você tem. É por isso que quando as pessoas ficam emocionalmente perturbadas, elas realmente desenvolvem sintomas físicos, como dores de cabeça ou dores de estômago. A angústia interna de um  pensamento melancólico pode fazer com que as pessoas se comportem de maneiras que alienam os outros, por exemplo, ao emitirmos frases que são típicas formigas (pensamentos automáticos negativos), tais como:

"Você nunca me ouve."
Pensamento sempre/nunca: pensar com palavras como sempre, nunca, ninguém, todo mundo, toda vez, tudo (absolutismo);

"Só porque nós tivemos um bom ano no negócio, não significa nada."
Concentrar-se no negativo: ver só o lado ruim de uma situação;

"Você não gosta de mim."
 •Leitura da mente: acreditar que você sabe o que os outros estão pensando;

"Esta situação não vai dar certo. Eu sei que algo ruim vai acontecer. "
Previsão do futuro: prever o resultado pior possível de uma situação;

"Eu me sinto como se você não se importasse comigo."
Pensando com sensações: acreditar nas sensações negativas sem mesmo questioná-las.

"Eu deveria ter feito muito melhor, eu sou um fracasso."
Torturando-se com a culpa: pensando com palavras como deveria, preciso, poderia ou tenho de;

"Você é arrogante."
Rotulação: colocar um rótulo negativo em si mesmo ou em outra pessoa;

"Você está atrasado, pois você não se importa comigo."
Personalização: colocar em eventos inócuos um significado pessoal.

"A culpa é sua."
Culpar os outros: culpar outra pessoa por seus próprios problemas.

     Na concepção de Amen, estes pensamentos limitam seriamente a capacidade das pessoas para desfrutarem de maneira positiva suas vidas. Conforme o autor o Sistema Límbico desempenha as funções de •   Estabelecer o tom emocional da mente; •Filtrar os eventos através dos estados internos (criar a nuance emocional); •Rotular eventos como internamente importantes;  •Armazenar lembranças altamente carregadas de emoção; •Modular a motivação;  •Controlar o apetite e os ciclos de sono;  •Promover ligações; •Processar diretamente o sentido do olfato; •Modular a libido. 
      Pessoas que alimentam as “formigas”, seriam as que apresentam  problemas no Sistema Límbico, apresentando características de •Mudanças de humor irritabilidade, depressão clínica; •Aumento de pensamentos negativos; •Percepção negativa de eventos; •Diminuição da motivação; •Fluxo de emoções negativas; •Problemas de apetite e sono; •Diminuição ou aumento de resposta sexual; •Isolamento social.

     A maioria das pessoas não entende como os pensamentos são importantes, e deixam o desenvolvimento de padrões de pensamento ao acaso. Ter pensamentos negativos faz com que as pessoas sintam desconforto ou dor interna. Toda vez que você tem um pensamento de raiva, um pensamento cruel, um pensamento triste, ou um pensamento mal-humorado, seu cérebro libera substâncias químicas negativas que fazem seu corpo se sentir mal (e ativar seu sistema límbico). Pense na última vez que você esteve zangado. Como é que o seu corpo se sente? Quando a maioria das pessoas estão com raiva seus músculos ficam tensos, o coração bate mais rápido, suas mãos começam a suar e podem até começar a sentir tontura. Seu corpo reage a cada pensamento negativo que você tem.
      Para Amen, os pensamentos têm propriedades físicas reais. Eles são reais! Eles têm influência significativa em cada célula de nosso corpo, pois a cada pensamento que temos sinais elétricos são enviados por todo o cérebro. Portanto, quando estamos sobrecarregados com pensamentos negativos nosso sistema límbico fica afetado e nos traz problemas, tais como: irritabilidade, mau humor, depressão, etc.
    A questão é: como aprendemos a controlar nossos pensamentos? Existe alguma escola para isso? O autor aponta para algumas possíveis soluções:
1º Nutrição: Nosso sistema límbico precisa de gordura e proteína para funcionar adequadamente. Níveis baixos de dopamina, serotonina e norepinefrina estão ligados a depressão e distúrbios de humor. É essencial comer proteína suficiente em quantias balanceadas com gorduras e carboidratos.
2º Atividade Física: O exercício físico pode ser muito eficaz, pois ele libera endorfinas que induzem uma sensação de bem-estar. O exercício também aumenta o fluxo sanguíneo por todo o cérebro, o que o nutre de tal forma que ele possa funcionar adequadamente.
3º Contato Físico: O toque físico real é essencial à boa saúde. O toque é essencial à natureza humana. Ainda assim, na nossa sociedade fria e litigiosa, o toque está se tornando cada vez menos frequente. Abrace ou ao menos toque em seus filhos, seu cônjuge e seus entes queridos regularmente. Dar e receber massagens irá melhorar a saúde e as ligações límbicas.
4º Biblioteca de boas lembranças: Sempre que você se lembra de um evento em particular, seu cérebro libera agentes químicos parecidos com aqueles liberados quando o evento de fato ocorreu. Lembrar traz de volta estados de espírito e sentimentos semelhantes. Para equilibrar as lembranças más é importante lembrar as vezes que nossa vida esteve carregada de emoções mais positivas. Faça uma lista dos dez períodos mais felizes de sua vida. Descreva-os para si mesmo em detalhes, usando o máximo possível dos cinco sentidos. De que cores você lembra? Que cheiros havia no ar? Havia música? Que roupa você vestia? Qual a expressão do seu rosto? Quando as das pessoas estão felizes seus músculos relaxam, o coração bate mais devagar e a respiração fica mais lenta.
       Portanto, tentar gerenciar seu padrão de pensamento pode ser um grande desafio, mas cada vez que essas formigas estiverem lhe atormentando, procure pelo seu tamanduá!!!

Fonte: AMEN, Daniel G. .Transforme seu Cérebro. Transforme sua Vida. Editora Mercuryo, 2000.