segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A música não sai da minha cabeça...porquê?

Imagem adaptada da página Seja Excelente

  
  Esses dias saiu um post da página “Seja Excelente”, sobre o refrão de uma música...  sem fazer alusão à pergunta que a mesma fez, mas ao refrão em si, surgiu a dúvida: o que acontece no cérebro da pessoa quando para que nos deixamos influenciar por uma música, um jingle? É o ritmo? é o som? a repetição? ou o despertar de associações emocionais?
   A questão é que independente da música ser boa ou não, ela domina o cérebro atrapalhando outras atividades no decorrer do dia. Por causa da necessidade inexplicável de ficar repetindo o tempo todo aquele refrão... se trata dos Earworms – Vermes de ouvido, que são reativados pelo simples ato de pensar neles.
     No livro intitulado “Alucinações musicais”, o neurologista Oliver Sacks discute as relações entre a música e o cérebro, onde ele aborda várias situações neurológicas nas quais seus pacientes apresentam uma espécie de perseguição pela música, os brainworms ou earworms, como ele os denomina, vermes do cérebro ou do ouvido. Sabe aquela música que não sai da sua cabeça, e você nem gosta muito dela? Às vezes queria deixar de ouvi-la e lá está ela, e você não sabe onde fica o botão para desligá-la. Há pessoas que ouvem, possuem uma música que toca dentro de suas cabeças, atrapalhando as atividades cotidianas. Sacks cita pacientes que possuem um ipod na cabeça e não conseguem desligá-lo.
    Mas não precisam se preocupar, o fato de ouvir estas tais músicas contagiantes,  se faz presente em 90% das pessoas. Algumas canções pops contém estes “vermes de ouvido”: agradavelmente melódicas, fácil de lembrar com "ganchos" que têm os atributos de um típico jingle. Psicólogos e neurologistas que estudam os efeitos da música no cérebro descobriram que a música que tem uma forte ligação emocional com o ouvinte é difícil de esquecer. Por isso que algumas músicas são utilizadas em propagandas de publicidade ao invés dos jingles.
   Geralmente este estilo de música, bem como os Jingles de sucesso tem três características: eles são curtos, de fácil compreensão e facilmente reconhecível. Essas músicas têm uma melodia alegre, simples; letra repetitiva e fácil de lembrar; e uma surpresa, como uma batida extra ou um ritmo incomum - os mesmos fatores que tornam as canções ou jingles populares em primeiro lugar. Se um jingle ou mesmo uma música (ou o refrão da mesma) não possuem estas características, é quase certo para ser esquecido. Portanto, não é a toa que se dá tanta ênfase ao “tchererete...”.
      De acordo com o Quad, a revista on-line da Universidade de Boston, em 1974, Baddely e Hitch descobriram o que eles chamaram de repetição fonológica, que é composta pelo estoque fonológico (seu "ouvido interno", que se lembra de sons em ordem cronológica) e pelo sistema de ensaio articulatório (sua "voz interior" que repete esses sons com o propósito de se lembrar deles). Essa área do cérebro é vital na primeira infância para o desenvolvimento do vocabulário e nos adultos para a aprendizagem de novos idiomas.
Cientistas britânicos tentaram compreender as origens dos earworms. Eles observaram como os vermes de ouvido, que os psicólogos chamam de imaginário musical involuntário, começam e chegaram as seguintes causas:
1-     A mais comum foi à exposição à música, seja ter ouvido uma música recentemente ou repetidamente ouvi-la.
2-     Desencadeamento  da memória, o que significa que ver uma determinada pessoa ou palavra, ouvir uma batida específica, ou estar em uma determinada situação o lembra de uma canção.
3-     O quadro emocional da sua mente, ou “estado afetivo”. Se está sentindo-se estressado, surpreso ou feliz quando você ouve uma música pode fazê-la ficar em sua cabeça.
4-     Um estado de atenção baixa. Uma mente dispersa, seja por devaneios ou sonhos, pode ser um gatilho para esse imaginário involuntário musical.
    Inicialmente, os pesquisadores estavam surpresos com a frequência dos vermes de ouvido. Depois, acharam que faz sentido, uma vez que essas músicas espontâneas na mente parecem ser uma consequência típica e diária do caminho que nosso cérebro processa música.
       Um site de publicidade norte americano, o Faris Wheel Productions traz como abertura de página o seguinte slogan: Está cientificamente provado que música são torneiras  em nossos sistemas límbico (nossos reservatórios emocionais ). É por isso que a música é parte de tudo o que fazemos.
      Na verdade creio que eles resumiram tudo, pois dificilmente alguém falará que não gosta de música...

Referência:
ROMANZONTI, Natasha. Porque músicas pegajosas grudam na nossa mente. Disponível online em: http://hypescience.com/porque-musicas-pegajosas-grudam-na-nossa-mente/
SACKS, Oliver. Alucinações Musicais: Relatos sobre a música e o cérebro. São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Síndrome de Charles Bonnet

O neurologista e escritor Oliver Sacks  Chama Nossa Atenção para à Síndrome de Charles Bonnet - na qual PESSOAS lúcidas, com deficiência visual experimentam alucinações. 


Nós vemos com os olhos. Mas também vemos com o cérebro. E ver com o cérebro é geralmente chamado de imaginação. E estamos familiarizados com os cenários de nossa própria imaginação, nossos cenários internos. Vivemos com eles por toda vida. Mas também existem alucinações. E alucinações são completamente diferentes. Elas não parecem ser criadas por nós. Elas não parecem estar sob controle. Elas parecem vir do exterior e imitar a percepção. 
 Então vou falar sobre alucinações. E um tipo particular de alucinação visual que eu observo em meus pacientes. Alguns meses atrás recebi um telefonema de uma enfermaria onde eu trabalho. me informaram que um dos pacientes, uma senhora na casa dos 90 anos, estava vendo coisas. E eles se perguntavam se ela estava senil. Ou, por ela ser uma senhora idosa, se ela teve um derrame, ou se ela estava com Alzheimer. 
 E então me perguntaram se eu poderia ir e ver a Rosalie, a senhora idosa. Eu fui vê-la. Era evidente de início que ela estava perfeitamente sã e lúcida e com boa inteligência. Mas ela estava muito assustada, e muito desconcertada porque ela estava vendo coisas. E ela me disse -- as enfermeiras não tinham mencionado isso -- que ela era cega, que ela tinha se tornado completamente cega, por degeneração macular, havia cinco anos. Mas agora, nos últimos dias, ela estava vendo coisas. 
 Então eu disse, "Que tipo de coisas?" E ela disse, "Pessoas com roupas orientais, em vestes, subindo e descendo escadas. Um homem que se vira para mim e sorri. Mas ele tem dentes enormes num lado da boca. Animais também. Eu vejo um prédio branco. Está nevando, uma neve suave. Eu vejo esse cavalo, com um arreio, dragando a neve. Então, uma noite, a imagem muda. Eu vejo gatos e cachorros andando na minha direção. Eles chegam até um certo ponto e param. Então a cena muda de novo. Eu vejo um monte de crianças. Elas sobem e descem escadas. Elas vestem cores brilhantes, rosa e azul, como vestidos orientais." 
 Algumas vezes, ela disse, antes das pessoas entrarem ela podia alucinar quadrados rosas e azuis no chão, que pareciam subir até o teto. Eu disse, "É como se fosse um sonho?" E ela disse, "Não, não é como um sonho. É como um filme." Ela disse, "Ele tem cor. Tem movimento Mas é completamente silencioso, como um filme mudo." E ela disse que parecia como um filme muito entediante. Ela disse, "Todas essas pessoas com vestidos orientais, subindo e descendo, tão repetitivos, tão limitados."
E ela tinha senso de humor. Ela sabia que aquilo era uma alucinação. Mas ela estava assustada. Ela tinha vivido 95 anos e nunca teve uma alucinação antes. Ela disse que as alucinações não eram relacionadas com nada que ela estivesse pensando, sentindo ou fazendo. Que elas pareciam chegar ou desaparecer por elas mesmas, Ela não tinha controle sobre as alucinações Ela disse que não reconhecia nenhuma das pessoas ou lugares nas alucinações. E nenhuma das pessoas ou dos animais, eles pareciam todos insignificantes para ela. E ela não sabia o que estava acontecendo. Ela se perguntou se ela estava enlouquecendo, ou perdendo a cabeça. 
Bem, eu a examinei cuidadosamente. Ela era um senhora idosa brilhante. Perfeitamente sã. Ela não tinha problemas médicos. Ela não tomava nenhuma medicação que pudesse produzir alucinações. Mas ela estava cega. E então eu disse a ela, "Eu acho que eu sei o que você tem." Eu disse, "Existe um tipo especial de alucinação visual que pode surgir com a deterioração da visão, ou a cegueira." "Ela foi originalmente descrita" eu disse, "no século 18, por um homem chamado Charles Bonnet. E você tem a síndrome de Charles Bonnet. Não há nada de errado com seu cérebro. Não há nada de errado com sua mente. Você tem a síndrome de Charles Bonnet." 
E ela ficou muito aliviada com isso, que não havia nada sério para se preocupar, e também muito curioso. Ela disse, "Quem é esse Charles Bonnet?" Ela disse, "Ele também teve isso?" E ela disse, "Diga a todas as enfermeiras que eu tenho a síndrome de Charles Bonnet." "Eu não estou louca. Não estou demente. Tenho a síndrome de Charles Bonnet." Bem, então eu contei pras enfermeiras. 
Agora isso, para mim, é uma situação comum. Eu trabalho em casas para idosos, basicamente. Eu vejo um monte de pessoas idosas que têm perda auditiva ou perda visual. Cerca de 10 por cento das pessoas com perda auditiva apresentam alucinações musicais. E cerca de 10 por cento das pessoas com perda visual têm alucinações visuais. Você não precisa estar completamente cego, apenas suficientemente prejudicado.
Agora com relação à descrição original no século 18, Charles Bonnet não as tinha. Seu avô tinha essas alucinações. Seu avô era um magistrado, um homem idoso. Ele havia feito uma cirurgia de catarata. Sua visão era bastante pobre. E em 1759 ele descreveu para seu neto várias coisas que ele estava vendo.
A primeira coisa que ele disse foi que viu um lenço pairando no ar. Era um grande lenço azul com quatro círculos laranjas. E ele sabia que aquilo era uma alucinação. Você não encontra lenços pairando no ar. E então ele viu uma grande roda em pleno ar. Mas às vezes ele não estava certo se estava alucinando ou não. Pois as alucinações poderiam encaixar no contexto das visões. Então uma vez, quando suas netas foram visitá-los, ele disse, "E quem são esses jovens bonitos com vocês?" E elas disseram, "Mas, vovô, não tem nenhum jovem bonito." E então os jovens bonitos desapareceram. Isso é típico dessas alucinações que elas podem surgir e desaparecer instantaneamente Elas geralmente não aparecem e desaparecem gradualmente. Elas são mais repentinas. E elas mudam repentinamente.
 Charles Lullin, o avô, via centenas de figuras diferentes, paisagens diferentes de todos os tipos. Em uma ocasião ele viu um homem com roupão fumando cachimbo, e percebeu que era ele mesmo. Essa foi a única figura que ele reconheceu. Numa ocasião que ele andava pelas ruas de Paris, ele viu -- isso foi real -- um andaime. Mas quando voltou para casa ele viu uma miniatura do andaime de 15 cm de altura, na sua mesa de estudo. Essa repetição de percepção é às vezes denominada palinopsia.
 Com ele, e com Rosalie, o que parece acontecer -- e Rosalie disse, "O que está acontecendo?" -- e eu disse que quando você perde a visão, como as partes visuais do cérebro não recebem mais sinais, elas se tornam hiperativas e excitáveis. E elas começam a disparar espontaneamente. E você começa a ver coisas. As coisas que você vê podem ser muito complexas.
 Em outra paciente minha, que tinha alguma visão, a visão que ela tinha podia ser perturbadora. Numa ocasião ela disse que viu um homem com uma camisa rasgada num restaurante. E ele se virou. E então ele se dividiu em seis figuras idênticas com camisas rasgadas, que começaram a andar na direção dela. E então as seis figuras se juntaram novamente, como uma concertina. Certa vez, quando ela estava dirigindo, ou melhor, seu marido estava dirigindo, a estrada se dividiu em quatro. E ela se sentiu indo simultaneamente em quatro estradas.
 Ela tinha muitas alucinações móveis também. Várias delas tinham relação com um carro. Algumas vezes ela via um adolescente sentado no capô do carro. Ele era muito persistente e se movia graciosamente quando o carro virava. E então quando eles paravam num semáforo, o garoto fazia um voo vertical súbito, 30 metros para cima, e então desaparecia.
 Outra paciente minha tinha um tipo diferente de alucinação. Essa mulher não tinha problemas nos olhos, mas nas partes visuais do cérebro. Um pequeno tumor no córtex occipital. E, acima de tudo, ela via desenhos animados. Esses desenhos eram transparentes e cobriam metade do campo visual, como uma tela. Ela via especialmente desenhos do sapo Caco. (Risos) Agora, eu não assisto Vila Sésamo. Mas ela fez uma observação dizendo, "Por que o Caco? Sapo Caco não significa nada pra mim." Sabe, eu esperava determinantes freudianos. Por que o Caco? Sapo Caco não significa nada para mim."
 Ela não ligava muito para desenhos. Mas o que a preocupava era que ela tinha imagens ou alucinações de faces e como Rosalie, as faces eram geralmente deformadas, com dentes muito grandes, ou olhos grandes. E isso a assustava. Bem, o que está acontecendo com essas pessoas? Como médico, eu tenho de tentar definir o que está acontecendo, e confortar essas pessoas. Especialmente assegurá-las que elas não estão ficando loucas.
 Algo em torno de 10 por cento, como eu dizia, de pessoas com perda visual têm essas alucinações. Mas não mais que um por cento das pessoas as percebem. Porque elas têm medo que pareçam loucas, ou algo do tipo. E se elas não as mencionam para seus médicos elas podem ser mal diagnosticadas.
Em particular, a noção é que se você ver coisas ou ou ouvir coisas, você está ficando louco. Mas as alucinações psicóticas são bem diferentes. As alucinações psicóticas, sejam visuais ou vocais, se referem a você. Elas acusam você. Elas seduzem você. Elas humilham você. Elas zombam de você. Você interage com elas. Não há nenhuma qualidade de referência nessas alucinações de Charles Bonnet. Há um filme. Você assiste um filme que não tem nada a ver com você. Ou é assim que as pessoas pensam disso.
 Há também uma coisa rara chamada epilepsia do lobo temporal. E às vezes, se um indivíduo sofre disso, ele pode se sentir transportado de volta a um momento ou lugar no passado. Você está num cruzamento de estrada particular. Você cheira castanhas tostando. Você ouve o tráfego. Todos os sentidos estão envolvidos. E você espera por sua namorada. E isso é aquela tarde de terça em 1982. E as alucinações do lobo temporal são todas alucinações multissensoriais, cheias de sentimento, cheias de familiaridade, localizadas no espaço e tempo, coerentes, dramáticas. As de Charles Bonnet são bem diferentes.
 Então nas alucinações de Charles Bonnet, você têm de todos os tipos, desde alucinações geométricas, os quadrados rosas e azuis que a mulher tinha, até alucinações bem elaboradas com figuras e especialmente rostos. Rostos, e às vezes rostos deformados, são as únicas coisas em comum nessas alucinações. E das mais comuns é o desenho animado.
 Então, o que está acontecendo? Fascinantemente, nos últimos anos, foi possível fazer neuroimagem funcional, fazer fMRI em pessoas que estão alucinando. E de fato, descobrir que diferentes partes do cérebro visual são ativadas enquanto elas estão alucinando. Quando pessoas têm essas alucinações geométricas simples, o córtex visual primário é ativado. Isso é a parte do cérebro que percebe bordas e padrões. Você não forma imagens com seu córtex visual primário.
 Quando imagens são formadas, um parte superior do córtex visual é envolvido no lobo temporal. E em particular, uma área do lobo temporal chamada de giro fusiforme. E é sabido que se pessoas têm lesões no giro fusiforme, elas talvez percam a habilidade de reconhecer rostos. Mas se há uma atividade anormal no giro fusiforme, elas podem alucinar rostos. E isso é exatamente o que você encontra em algumas dessas pessoas. Há uma área na parte anterior desse giro onde dentes e olhos estão representados. E essa parte do giro é ativada quando pessoas têm essas alucinações deformadas.
 Há uma outra parte do cérebro que é especialmente ativada quando alguém vê desenhos animados. Ela é ativada quando alguém reconhece desenhos, quando os desenha e quando alucina com eles. É muito interessante que isso seja específico. Há outras partes do cérebro que estão especificamente envolvidas com o reconhecimento e alucinação de edifícios e paisagens.
 Por volta de 1970 foi descoberto que não havia apenas partes particulares do cérebro, mas células particulares. "Células de rosto" foram descobertas por volta de 1970. E agora sabemos que há centenas de outros tipos de células, que podem ser muito específicas. Então você pode não ter apenas células de "carro", você pode ter células de "Aston Martin". Eu vi um Aston Martin essa manhã. Eu tinha de falar disso. E agora ele está em algum lugar.
 Agora, nesse nível, no que é chamado de córtex inferotemporal, há apenas imagens visuais, figmentos ou fragmentos. É apenas nos níveis superiores que os outros sentidos se juntam e há conexões com a memória e emoção. E na síndrome de Charles Bonnet você não vai até esses níveis superiores. Você está nesses níveis do córtex visual inferior onde você tem milhares e dezenas de milhares e milhões de imagens, ou figmentos, ou figmentos fragmentários, todos codificados neuralmente, em células ou pequenos grupos de células particulares.
 Normalmente todas elas fazem parte do fluxo integrado de percepção, ou imaginação. E não há consciência delas. Só se alguém tiver perda de visão, ou for cego, que o processo é interrompido. E ao invés de ter uma percepção normal, você está tendo uma estimulação anárquica e convulsiva, ou liberação, de todas essas células visuais, no córtex inferotemporal. Então, de repente você vê uma face. De repente você vê um carro. De repente isso, e de repente aquilo. A mente faz o possível para se organizar, e dar algum tipo de coerência para isso. Mas não é bem sucedida.
 Quando elas foram descritas pela primeira vez pensou-se que podiam ser interpretadas como sonhos. Mas de fato as pessoas dizem, "Eu não reconheço as pessoas. Eu não posso formar nenhuma associação." "Caco não significa nada para mim." Você não chega a lugar nenhum pensando nelas como sonhos.
 Bem, eu disse mais ou menos o que eu queria. Eu acho que quero apenas recapitular e dizer que isso é comum. Pense no número de pessoas cegas. Deve haver centenas ou milhares de pessoas cegas que têm essas alucinações, mas estão muito assustadas para mencioná-las. Então esse tipo de coisa precisa ser divulgada, para os pacientes, para os médicos, para o público. Finalmente, eu penso que elas são infinitamente interessantes, e valiosas, por nos oferecer alguns indícios de como o cérebro funciona.
 Charles Bonnet disse, 250 anos atrás -- ele se perguntava de que forma, pensando sobre essas alucinações, de que forma, como ele colocou, o teatro da mente podia ser gerado pela maquinaria do cérebro. Agora, 250 anos mais tarde, eu acho que estamos começando a vislumbrar como isso é feito. Muito obrigado.

Chris Anderson: Isso foi esplêndido. Muito obrigado. Você fala sobre essas coisas com tanto discernimento e empatia com seus pacientes. Você mesmo experimentou algumas das síndromes que você descreveu?
 Oliver Sacks: Eu temia que você perguntasse isso.  Bem, sim, um monte delas. E na verdade eu mesmo tenho perda de visão. Eu sou cego de um olho, e o outro não está muito bom. E eu vejo alucinações geométricas. Mas elas param por aí.
 C.A.: E elas não incomodam você? Pois você entende o que está acontecendo. Isso não deixa você se preocupar?
 O.S.: Bem, elas não me incomodam mais do que meu zumbido. Que eu ignoro. Elas me interessam ocasionalmente. E eu tenho vários desenhos delas nos meus cadernos. Eu fiz uma fMRI em mim mesmo para ver como meu córtex visual está dominando. E quando eu vejo todos esses hexágonos e coisas complexas, que eu também tenho, com enxaqueca visual, eu me pergunto se todo mundo vê coisas assim, e se coisas como arte rupestre, ou arte ornamental podem ter sido derivadas disso.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Autismo


   O autismo pode ser considerado um distúrbio do desenvolvimento caracterizado por  quadro comportamental que envolve sempre as áreas da interação social, da comunicação e do comportamento em graus variáveis de severidade.
    As crianças com autismo apresentam uma variedade de sintomas, incluindo pouco interesse em outras pessoas, deficiências acentuadas na linguagem e padrões peculiares de movimento, muitas vezes tendo retardo mental.
   Mercadante (2006) disse que: O que se sabe é que os cérebros de autistas são diferentes em três áreas principais: a amígdala, ligada à emoção e ao comportamento social, o giro fusiforme e o sulco temporal superior. As duas últimas costumam ser ativadas quando se olha para a face de alguém ou se escuta uma voz humana. Os autistas, ao verem ou ouvirem alguém, ativam outra área, responsável pela identificação de objetos.

IMAGEM FAPESP

     Schwartzman aponta as seguintes desordens de indivíduos com autismo:
- isolamento social; - pobre contato visual; - distúrbios da comunicação; - falta de empatia; - dificuldades na compreensão de metáforas; - compreensão literal da linguagem; - dificuldades em imitar ações dos outros; - preocupação extrema com detalhes; - aversão a certos sons. O autor coloca que uma vez que eles tendem ao isolamento social e a falta de empatia ocorrendo uma falta de atividade nos neurônios espelho em várias regiões do cérebro. Nesse sentido, ele nos traz como questionamento se a possibilidade de restauração desta atividade poderia aliviar alguns dos sinais e sintomas do quadro do Autismo.


    Em junho de 2011, a Revista Fapesp publicou a reportagem “O cérebro no autismo” , a qual falou das alterações no córtex temporal e os prejuízos na percepção para a interação social. Zorzetto, menciona que:  O primeiro grupo a identificar o funcionamento anormal no cérebro de crianças autistas foi o da médica brasileira Monica Zilbovicius, pesquisadora do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm) da França. Usando um aparelho de tomografia por emissão de pósitrons, que mede o fluxo sanguíneo e, portanto, o nível de atividade de diferentes regiões do sistema nervoso central, Monica analisou o cérebro de 21 garotos com autismo e 10 sem o problema – o autismo é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. Inicialmente se acreditava que o lobo temporal fosse importante apenas para a percepção dos sons. Estudos mais detalhados mostraram, porém, que tanto o sulco temporal superior como outra área do lobo temporal, o giro fusiforme, estavam envolvidos no processamento de dois tipos de informações relevantes para as interações sociais. Eles captam informações auditivas, sobre a voz do interlocutor, e visuais, como os movimentos dos olhos, os gestos e as expressões faciais, processam-nas e as distribuem para outras áreas cerebrais associadas às emoções e ao raciocínio lógico. Essas descobertas levaram Monica a propor em 2006 que modificações nessas regiões do cérebro durante o desenvolvimento seriam responsáveis pelo sintoma mais frequente do autismo: a dificuldade de interação social.

 Epidemologia:
   A taxa média de prevalência do transtorno autista em estudos epidemiológicos é de 15 casos por 10 mil indivíduos, com relatos de taxas variando de 2 a 20 casos por 10 mil indivíduos.  É encontrado em todo o mundo e em famílias de qualquer configuração racial, étnica e social. No Brasil, ainda não se dispõem de estatísticas oficias. Quanto ao gênero, observa se uma prevalência do autismo no sexo masculino havendo uma estimativa de que ele acomete de três a quatro meninos para cada menina.  Mas as meninas tendem a ser mais seriamente afetadas e a ter comprometimento cognitivo.
     A idade média para a detecção do quadro é em torno dos três anos, embora o diagnóstico já possa ser bem estabelecido em torno dos 18 meses de idade.

Na escola: maximizando o que eles têm de melhor

    Falar sobre métodos e técnicas disso e daquilo é um tanto quanto arriscado, pois a meu ver cada indivíduo é único, e quando o mesmo se encontra dentro do ambiente escolar, se faz mais necessário ainda, ter isso bem esclarecido.
      Mas acredito que quando algo deu certo, pode servir de sugestão para outros...
     Em uma das oportunidades que tive de interação com uma criança  autista, no processo de alfabetização, utilizei-me da estratégia de observar o que ela mais gostava: LIVROS, ela tinha predileção por alguns livros, eram sempre os mesmos... o que demonstrava a necessidade da sequência, da rotina. O que fiz: - cópias ampliadas das páginas do livro e utilizei-me da “repetição”. Muitos condenam os métodos tradicionais, mas tem certas situações em que se fazem necessário...
   Na primeira semana, mostrei a mesma página (ampliada) e lia com ele o texto, até chegar ao ponto em que o mesmo tinha “decorado”. Na segunda semana, recortei o texto em frases, íamos lendo e tentando montar a sequência que se encontrava desordenada. Juntamente com ele, recortamos as frases e tentava encaixar a sequência de uma frase na outra, enfim, remontar uma nova frase.
     Destas, comecei a retirar palavras chaves (acompanhadas de gravuras que as representassem), e foi o mesmo processo de memorização, das palavras, recorte de sílabas, até que  se começou o processo de formação de novas palavras e lógico a tendência inicial era sempre tentar montar a palavra já conhecida, mas utilizando-se de outras atividades: jogo de memória, bingo, colagem de texturas nas sílabas que poderiam indicar novas palavras, o progresso foi rápido.
    O aluno era ótimo, logo foi identificando as sílabas em demais palavras e lendo diversos contextos... O que motivava as demais crianças a interagirem com ele, lhe instigando a ler o que elas lhes mostravam ou tentavam montar para que ele lesse. Lendo o contexto, pode passar a impressão de que isso levou muito tempo... que nada, em um mês ele já estava lendo tudo que via pela frente, claro ALFABETICAMENTE, pois letramento é outra etapa. Mas o prazer de ver aquele amado lendo, não tem preço que pague, e olha que era uma leitura fluente...
    Se o método que usei foi certo, talvez sim, talvez não, tudo depende da concepção de quem analisa os fatos, mas foi desse modo que funcionou, e acho que educação é isso, é observar constantemente, investir no ser humano e procurar formas que o levem para a aprendizagem... Lógico, confiar na sua proposta e investir nela. E novamente reforço, foi apenas o jeito que fiz, o que não quer dizer que isso seja eficaz com todas as crianças que tenham autismo, pois cada indivíduo é único e deve ser visto como tal, o importante é procurar maximizar o que cada um tem de melhor, e a partir daí construir novos objetivos, novas estratégias de aprendizagem, procurando interagir no mundo do autista e com ele aprender.


Fonte:

LAGE, Amarílis. Autistas usam remédios para controlar aspectos da doença. Disponível online em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4160.shtml

SCHWARTZMAN, José S. Neurônios Espelho e Autismo. Disponível online em http://www.schwartzman.com.br
ZORZETTO, Ricardo. O cérebro no autismo. Disponível online em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/06/16/o-c%C3%A9rebro-no-autismo/

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mapeamento do cérebro

     Na visão do brasileiro, as funções do corpo não são determinadas "pela geografia", mas sim "pelas demandas que se impõem ao cérebro". "Se a pessoa perde a função visual, a função táctil se distribui para todo o córtex cerebral --inclusive para o córtex visual", diz. O cérebro tem a função de "remapear o mundo". "A plasticidade é inerente à dinâmica do cérebro, misturando múltiplas visões". 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A perda auditiva pode acelerar o declínio cognitivo em idosos


Idosos com perda auditiva têm um maior risco de comprometimento cognitivo do  que idosos cuja audição é normal, de acordo com um novo estudo realizado por especialistas em audição na Universidade Johns Hopkins.


    O estudo ocorreu durante seis anos, onde idosos com deficiência auditiva foram submetidos a testes de cognição. As habilidades cognitivas diminuíram de 30 a 40 por cento mais rápido do que aqueles cuja audição era normal. Os níveis de função cerebral em declínio foram diretamente relacionados à quantidade de perda de audição, dizem os pesquisadores.
  Em média, os idosos com perda auditiva desenvolveram um prejuízo significativo em suas capacidades cognitivas 3,2 anos mais cedo do que aqueles com audição normal.
   Por que isso acontece? Frank Lin (epidemiologista) disse que não há explicação definitiva, observando que várias explicações poderiam ser dadas. Quando as pessoas sofrem de perda de audição, não é que eles não podem ouvir. É que a cóclea, a parte do ouvido interno que converte um som complexo para um sinal preciso que vai para o cérebro para decodificar, não está fazendo um bom trabalho de conversão, então as pessoas ouvem um sinal distorcido. Lin descreveu que seria como uma má conexão de telefone celular.
    Uma teoria do declínio cognitivo seria que "se o cérebro está dedicando recursos extras para tentar ouvir o que está acontecendo, provavelmente está tirando recursos cerebrais de outros locais", explicou Lin. Em geral, a pesquisa sugere que a sensibilidade auditiva traz consequências para os processos neurais que suportam tanto a percepção quanto a cognição.
"Nossos resultados mostram o quanto é importante para os médicos discutirem com seus pacientes sobre as baixas na audição", Lin diz que espera mostrar em pesquisas futuras que os aparelhos auditivos podem evitar o problema.
    Embora a pesquisa foi conduzida em idosos, os resultados também têm implicações para os mais jovens, incluindo os interessados ​​em ouvir música em volumes altos. "Sua capacidade auditiva afeta diretamente como o cérebro processa os sons, incluindo a fala", diz o Dr. Peelle. "Preservar a sua audição não é só proteger seus ouvidos, mas também ajudar o cérebro a executar o seu melhor."



Imagem:  Como os Ouvidos Funcionam
Extraído do Livro: Psicologia: uma abordagem consisa
Richard A. Griggs
Editora Artmed










Segue um infográfico de como identificar os sinais de surdez


Marcadores Somáticos



     De acordo com Antonio Damásio, o resultado de uma experiência condiciona as antecipações e decisões futuras, são os marcadores somáticos, através deles existe o registo emocional das decisões, ou seja, os efeitos da decisão provocam determinadas emoções que podem ser positivas ou negativas e que vão ser associadas à decisão que a originou. Desta forma, quando nos confrontamos com uma situação semelhante, a memória vai ajudar o cérebro associando a decisão ao respectivo estado emocional, que pode ser positivo ou negativo. Frente a isto somos direcionados a repetir decisões e experiências que motivaram os estados positivos e a evitar o que se associa aos estados negativos. Procura-se otimizar as decisões futuras em função do passado, regulando as escolhas para o que nos levou ao sucesso."

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O novo cérebro...


    Os avanços da neurociência estão permitindo descortinar um novo konzept não apenas sobre a estrutura, mas também sobre o funcionamento e o papel do cérebro em todo o corpo humano. Ele faz parte de um sistema integrado, holístico.
   Com os estudos já realizados a partir do Connectome[1], chegamos a um ponto de entendimento de que o cérebro, na realidade, é uma grande rede, e não uma parte estanque do corpo. Tampouco se limita a ser apenas aquele órgão que conhecemos dentro da caixa craniana. Por mais paradoxal que possa parecer, ao mesmo tempo em que deixa de ter o poder absoluto que lhe foi arbitrado em séculos de estudos, o cérebro ganha uma nova dimensão e se espalha por todo o corpo. 


    Acreditem, senhores, e, por favor, dispensem as camisas de força. Podemos afirmar que o cérebro não está apenas na cabeça. Ele se 'espraia' como rede formando a identidade do seu próprio corpo (self) e se estende extracorpo na formação de uma fisionomia cultural e social. Ele vai da ponta do dedão do pé até o teto da Capela Sistina ou da sonda Phoenix, pousada em Marte, passando por panturrilhas e braços. Ou seja: passe a cuidar bem dos seus cotovelos. Eles também pensam e sentem por você.
Antonio Damasio
Estudos recentes comprovam este novo conceito do cérebro. Uma das pesquisas mais emblemáticas foi conduzida pelo médico português António Damásio, um dos grandes nomes da neurociência e professor da University of Southern California. Ele forjou a invasão de uma casa com homens encapuzados, que assaltaram as pessoas. Nenhum dos presentes viu o rosto dos supostos ladrões. Depois ele criou uma situação para que um dos “assaltantes” passasse na rua ao lado de uma das pessoas que estavam na residência. Ela teve uma sensação horrorosa, algo que não estava na elaboração mental dela, mas, sim, em seu corpo. Automaticamente, ela vinculou aquele sujeito a seu lado a um episódio de estresse e angústia. Essa associação comprovada pela experiência feita por António Damásio apenas revelou a importância de um mecanismo fundamental para o entendimento desta nova concepção sobre o funcionamento do sistema nervoso e, mais especificamente, do cérebro: os marcadores somáticos. Segundo a tese de Damásio, os marcadores somáticos podem guiar o processo emocional, o comportamento, principalmente a tomada de decisões. São associações entre estímulos e um estado afetivo e fisiológico, capazes de interferir em nosso processo cognitivo.
    A tese de António Damásio apenas reforça a ideia de que o cérebro está em todas as partes, ou seja, há um sistema integrado que rege as reações nervosas e emocionais. Nosso corpo é cheio de marcadores somáticos, sensores que captam deslocamentos táteis, vozes, gestuais, enfim, qualquer fenômeno externo capaz de criar uma resposta interna. Essas sensações são enviadas para as diversas regiões do cérebro, que funciona como uma espécie de satélite e retransmite o sinal para o corpo. Portanto, dentro deste novo ângulo de compreensão, é absolutamente equivocado dizer que a emoção está no cérebro. Ela até está, mas não apenas lá. Distribui-se, isso sim, pelos marcadores somáticos, mecanismos como disparo do coração, mal-estar epigástrico, uma dor na virilha ou sensações de medo, fome, sede, desejo sexual. Por isso, podemos dizer: o cérebro mudou e não mais está circunscrito à caixa craniana. Não há qualquer exagero ou crime de lesa-ciência ao se afirmar que ele está no joelho, nas dobras do mindinho, no baço, no lóbulo da orelha, nos quadris, na virilha. O corpo está no cérebro, e o cérebro, por meio dos marcadores somáticos, está em todas as latitudes do corpo. Quando disse que o homem pinta com o cérebro e não com as mãos, Michelangelo atirou no que viu e acertou no que não viu. A partir desta nova concepção do sistema nervoso, cérebro e mãos funcionam como um só órgão.

O caso Gage


     Dois casos famosos na medicina neuropsiquiátrica ilustram bem a importância dos marcadores somáticos no funcionamento do cérebro. Um deles tem como protagonista Phineas Gage, que trabalhava na construção da estrada de ferro Rutland & Burlington, em Cavendish, no estado norte-americano de Vermont. No dia 13 de setembro de 1848, Gage foi vítima de uma explosão. No acidente, uma barra de ferro de um metro e meio atravessou seu rosto. Entrou pela face esquerda, esmagando seu olho, cruzou a parte frontal do cérebro e saiu pelo topo do crânio, no lado direito. Logo após, ele se levantou e andou e falou normalmente. Phineas Gage foi submetido a testes de memória, que apresentaram resultados normais. Tempos depois, no entanto, Gage, que era considerado um funcionário absolutamente exemplar, começou a ter um comportamento errático e irresponsável. Tomava decisões completamente equivocadas e tinha atitudes impróprias. O médico John Harlow, que o atendeu logo após o acidente, cunhou uma frase que se tornaria famosa no estudo da neurociência: “Gage não é mais Gage”.
    Simplesmente sua personalidade mudou depois do acidente. Dentro da rede de neurônios que compõem o cérebro ele não tinha mais empatia por nada. Ele não conseguia mais interpretar seus marcadores somáticos, que, por sua vez, perderam conectividade. Como diz António Damásio, a emoção norteia a nossa razão. Gage perdeu a razão porque teve subtraída a emoção.
    Outro exemplo emblemático do funcionamento dos marcadores somáticos vem de uma experiência feita por um grande neurologista e filósofo chamado Miller Fisher. Ele selecionou um grupo de pessoas com catarata congênita. Em sua maioria, eram filhos de mães sifilíticas e tinham zero de visão. Todos foram operados e, aos 20 e poucos anos, passaram a enxergar. Ou seja: o módulo receptivo da visão foi acionado. Miller, então, começou a mostrar objetos a essas pessoas. Todos olhavam e ninguém sabia dizer o que era. Depois, todos puderam pegar o material em questão nas mãos. Miller, então, exibiu mais uma vez o objeto e, ao vê-lo, todos passaram a identificá-lo. A conclusão dessa experiência é que, na teoria do conhecimento, o toque é o mais importante, acima da própria visão. Esse estudo deu origem à pirâmide do conhecimento: - Palestras nos permitem reter 5% de conhecimento; - a leitura, 10%; - o audiovisual, 20%; - a demonstração empírica, 30%; - grupos de discussão, 50%; - a prática, 75%; e - ensinar os outros, 80%. Ou seja: o ensinamento, como eufemismo para o toque, é fundamental.



Fonte: Recorte do artigo "A Parte e o Todo: O Novo Cérebro e seu contexto histórico" que se encontra no blog Neuroscience



[1] Um projeto sem precedentes na história da neurociência e praticamente ainda desconhecido no Brasil. Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma espécie de “Genoma do cérebro”. O próprio Projeto Genoma chegou a contemplar estudos sobre as conexões cerebrais, trazendo  avanços importantes para a hodologia, a ciência das conexões. No entanto, o Connectome é a promessa de um salto triplo no conhecimento neurocientífico. É como se, finalmente, o manual de instruções do mais intrincado equipamento do corpo humano começasse a ser traduzido. O projeto prevê o mais completo mapeamento jamais feito pela medicina de todos os sistemas cerebrais, desde o nível das transações moleculares na conexão até os níveis celulares, sistêmicos, comportamentais, sociais e culturais. Ao longo de séculos, após muitos ziguezagues, posto que a ciência não foi feita para caminhar em linha reta, a medicina conseguiu desvendar a macroestrutura do cérebro. Agora, estamos dando um mergulho de Jacques Costeau nas profundezas do órgão. Chegou a hora de conhecermos, no detalhe do detalhe, a microestrutura cerebral.

Plasticidade cerebral

Uma das últimas investigações da neurociência demonstram
que o cérebro pode se regenerar mediante seu uso e potenciação.
A chave para alcançar o sucesso se chama:

“NEUROPLASTICIDADE”
que é moldar a mente, o cérebro, através de uma ou várias atividade(s).

    Plasticidade cerebral é a denominação das capacidades adaptativas do Sistema Nervoso central – sua habilidade para modificar sua organização estrutural própria e funcionamento. É a propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência, e como adaptação a condições mutantes e a estímulos repetidos.
    Há alguns anos admitia-se que o tecido cerebral não tinha capacidade regenerativa e que o cérebro era definido geneticamente, ou seja, possuía um programa genético fixo. No entanto, não era possível explicar o fato de pacientes com lesões severas obterem, com técnicas de terapia, a recuperação da função. O aumento do conhecimento sobre o cérebro mostrou que este é muito mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da experiência, das percepções, das ações e dos comportamentos
“A cada nova experiência do indivíduo, redes de neurônios são rearranjadas, outras tantas sinapses são reforçadas e múltiplas possibilidades de respostas ao ambiente tornam-se possíveis.” (Michael Merzenich)

  O pintor de 41 anos Huang Guofu, natural de Chongqing, na China, aprendeu a dominar o pincel com a boca e com o pé direito depois de ter perdido ambos os braços em um acidente de choque elétrico quando possuía apenas 4 anos de idade.
    O acidente, porém, não o impediu de seguir seus sonhos, e aos 12 anos, começou a pintar com os pés. O talentoso artista lembra que no início suas obras não se pareciam em nada com o que ele pretendia pintar, mas, como o passar dos anos, suas habilidades melhoraram consideravelmente.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Sonhos, Freud e Neurociências

Imagem: Ciência Hoje

 Numa época em que a fisiologia do sono e sonhos era desconhecida, Freud utilizando-se da interpretação psicanalítica teorizou  que os sonhos refletiam a experiência inconsciente e era um guardião do sono. Para ele, os desejos reprimidos são, particularmente, aqueles associados ao sexo e à hostilidade, os quais eram liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.
Fraga (2010) cita que um dos maiores responsáveis no Brasil por pesquisas nessa área é o neurocientista Sidarta Ribeiro[1]. Ele e outros pesquisadores desenvolvem estudos que seguem uma linha da neurociência cujas conclusões contrariam as convicções de muitos cientistas: Freud estava certo, afinal!
Imagem: Istoé

Ele dizia, por exemplo, que sonhos representam a satisfação de desejos. “Na linguagem da neurociência, isso significaria que sonhos concatenam fragmentos de memórias de forma a simular expectativas futuras de recompensa e punição mediadas por dopamina”, explica Ribeiro. “Tudo indica que o sonho tem a função de simular comportamentos – tanto os que levam a recompensa (os bons) como os que levam a punição (os pesadelos). Portanto, sua função seria evitar ações que resultem em punição e procurar aquelas que levam à satisfação do desejo.” “Hoje sabemos que a reverberação das memórias, que Freud chamava de ‘restos’ do dia, acontece durante o sono profundo. Durante o sono REM, quando os sonhos acontecem, são ativados os genes que promovem a fixação das memórias”, diz Sidarta. Somente agora, no entanto, com os progressos da neurociência, compreende-se muito mais seu papel real na vida cotidiana – a prática e a emocional.
Imagem: Istoé

Para entender como isso acontece, percebe-se por meio de eletroencefalogramas que durante o sono a atividade cerebral não se mantém constante. Ondas cerebrais lentas são sucedidas por curtos períodos de ondas mais aceleradas, acompanhadas por rápidos movimentos involuntários dos olhos. É o chamado sono REM (do inglês “movimento rápido dos olhos”). Constatou-se, posteriormente, que, durante esse período mais agitado, o fluxo sanguíneo cerebral se intensifica e uma série de imagens toma conta do cérebro. É o nascimento dos sonhos. A fixação de memórias acontece quando as memórias de curta duração, armazenadas no hipocampo, são transpostas para o córtex cerebral, região mais exterior, onde são armazenadas as memórias de longa duração.
Imagem: Istoé

Cheniaux(2006) traz um recorte interessante sobre os sonhos,
Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é frequentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória.
Nesse sentido, o neurologista Flávio Alóe diz que "O sonho serve para depurar a emoção negativa recente. É como se você limpasse o seu HD para sofrer menos durante o dia. Já os pesadelos são sonhos que provocam sensação de impotência diante de ameaças de sobrevivência, segurança pessoal ou autoestima. Com sequências temporais semelhantes à realidade, eles se confundem com esta, tornam-se perturbadores e terminam com o despertar consciente e com emoções negativas como ansiedade, medo, raiva, vergonha e nojo, que permanecem na memória. Também podem ser acompanhados de taquicardia, respiração ofegante, sudorese ou ereção". Porém, noites cortadas por pesadelos prejudicam o sono REM, essencial para regular funções como criatividade e memória.

Segundo a revista  QUANTA as descobertas sobre o sono também arremetem a algumas situações que ocorrem na escola...

"Sonho e escola"

Na educação, as descobertas sobre sono, sonho e aprendizado têm implicações importantes. “O sono deve ser visto como algo relevante para os alunos, e não como um mero problema de disciplina”,  diz Fernando Louzada, neurocientista da Universidade Federal do Paraná. Ou seja, quando um aluno dormir na aula, o professor deve lembrar que isso não é necessariamente falta de interesse.

Um dos problemas é que as aulas começam muito cedo e não respeitam o ritmo biológico dos jovens. Embora entre os cientistas isso seja um consenso, o horário das aulas nas escolas não mudou. A principal dificuldade é reorganizar o horário de forma que seja bom para todo mundo: escolas, alunos e professores. “Mas poderia começar pelo menos um pouco mais tarde, pois o horário das 7h afeta até os pequenos. Os mais prejudicados, porém, são os alunos que têm dificuldades”, alerta Fernando.

Além disso, é importante perceber que o bom sono não serve só para manter os alunos atentos no dia seguinte durante as aulas, mas também para consolidar o que se aprendeu na aula do dia anterior. “A falta de sono na noite anterior pode fazer com que o aluno não aprenda direito. Se ele dormir mal no dia seguinte, porém, ele vai aprender, mas seu aprendizado será menos flexível”, explica Paula Tiba. “Em laboratório, observamos que ratos aprendem a se localizar em um labirinto, mas dormem mal no dia seguinte, fazem sempre o mesmo caminho. Se você bloquear esse caminho, ele tem dificuldade em achar uma alternativa.” Dormindo bem e sonhando, o cérebro reativa redes neurais ativadas durante o dia e transforma memórias de curto prazo em longo prazo, que poderão ser utilizadas depois, aproveitando ao máximo as informações.

Quando o sono é irresistível, uma alternativa para muitos alunos pode ser a sesta. “Uma dormida rápida tem um papel reparador e diminui a sonolência”, diz Fernando. Além disso, é importante reconhecer as mudanças no sono nas diferentes fases na vida. Assim como o idoso adianta o sono, o adolescente atrasa. “Uma possível explicação do ponto de vista biológico é que o adolescente fica acordado até mais tarde porque está entrando na fase reprodutiva”, diz Fernando Louzada.

A falta de sono também pode estar por trás de problemas de aprendizagem “Alguns alunos que parecem ter dificuldade para acompanhar a aula podem na verdade estar com algum distúrbio do sono, como a apneia, que diminui o fluxo de oxigênio e atrapalha o aprendizado”, diz Camila Cruz Rodrigues, neuropsicóloga do Mackenzie.

Fonte:
COSTA, Raquel. JULIÃO, André. Por que os sonhos nos ajudam a viver melhor. Revista Istoé. Disponível online em: http://www.istoe.com.br/reportagens/99517_POR+QUE+OS+SONHOS+NOS+AJUDAM+A+VIVER+MELHOR
CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Scielo, 2006. Disponível online em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009
FRAGA, Isabela. Um neurocientista enrustido. Ciência Hoje, 2010. Disponível online em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-27/anais-da-neurociencia/sonhos-de-natal>




[1] Chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu- resenha


Oliver Sacks é um neurologista que encontrou na escrita uma forma de tornar a ciência mais simples e mais acessível para o público em geral, ele transforma intencionalmente os relatos clínicos em artefatos literários, mostrando os sofrimentos e experiências de personagens singulares, desvelando novas realidades para a investigação científica e problematizando os limites entre o físico e o psíquico.
Em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, Sacks relata casos interessantíssimos de lesões cerebrais. de seus pacientes, em especial do hemisfério direito, isso porque ele fala que as síndromes desse lado do cérebro são menos distintas e perceptíveis do que os danos ocorridos no hemisfério esquerdo. Também as síndromes do hemisfério direito estão mais relacionadas com os distúrbios neurológicos que afetam a essência do indivíduo e sua sensibilidade emocional e psicológica. E é dessa relação que ele destaca no livro, síndromes que poderiam ser consideradas como uma patologia fisiológica no cérebro e, como tal, ser diagnosticada e tratada, quando possível, pela medicina como uma deficiência cerebral do sujeito. Para ele, não basta somente diagnosticar o caso, o importante entre a relação médico-paciente é “entender” como se processa esse distúrbio, e isso só é possível quando o médico acompanha de forma mais expressiva o cotidiano do paciente, investigando as causas aparentes e evolução desse distúrbio no mesmo. Conforme Sacks, infelizmente na atualidade vivemos um paradoxo, tendo uma medicina avançada tecnologicamente podendo mapear cada centímetro do nosso corpo, até mesmo do cérebro, reconhecendo onde está alojado cada enfermidade ou distúrbio na fisiologia do indivíduo, mas essa mesma medicina não o integra como pessoa, não consegue interagir com esse indivíduo como uma pessoa única que tem um nome, uma vida que está relacionada a essa patologia, e não somente um corpo dissecado pela ciência para analisar suas partes.
     Na primeira parte, intitulada “Perdas”, são as histórias de pacientes com lesão ou mau funcionamento das áreas gnósicas do cérebro que refletem em perdas das funções de interpretação do indivíduo, como no capítulo do Homem que Confundiu sua Mulher com o Chapéu que deu origem ao nome do livro, que lesou as áreas de memória visual e partes da área visual e não reconhece mais pessoas, lugares ou objetos, somente entende as formas abstratas e geométricas sem conseguir relaciona-las com suas memórias.
      Na segunda parte, “Excessos”, são relatados os casos de pessoas que por um desequilíbrio ou lesão do cérebro passaram a exercer com exagero algumas funções, como no caso do paciente com Síndrome de Tourette com distúrbios que o levam a excitação das emoções e paixões em demasia, fazendo com que sinta raiva demais, alegria demais, exaltações que não consegue controlar normalmente, vivendo sempre no excesso de suas emoções.
     Já terceira parte, “Transportes”, são retratados casos de pessoas com anormalidades nos lobos temporais e sistema límbico do cérebro que os transportam através de suas memórias e imagens mentais para infância ou no mundo dos sonhos, como uma senhora um pouco surda e que passou a ouvir uma sinfonia particular constante no seu íntimo, do seu idioma natal, reminiscências de uma infância perdida e que não tinha acesso por bloqueios psíquicos, o que possibilitou á ela um resgate inestimável de um período de sua vida que achava não possuir.
     E, na última e quarta parte, são relatado casos de pacientes com deficiência mental, a qual chama “O Mundo dos Simples”, e nos traz um universo de possibilidades, de pessoas consideradas incapacitadas socialmente e, no entanto, apresentam habilidades extraordinárias em outras áreas que não intelectual como, na música, pintura e no teatro. A cada caso, ele apresenta um paciente com uma habilidade específica e que nos mostra como os seres humanos são providos de muitas potencialidades.