segunda-feira, 27 de maio de 2013

O TDAH sem preconceito – mitos e verdades sobre os transtornos de atenção e hiperatividade


    


 Ocorreu neste final de semana a palestra ”O TDAH SEM PRECONCEITO – MITOS E VERDADES SOBRE OS TRANSTORNOS DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE”, promovida pelo Instituto Superior de Educação Ivoti – RS, em parceria com a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ADBA) – Núcleo Porto Alegre e COE – Centro de Orientação ao Escolar. Só posso afirmar que foi maravilhosa, entretanto tamanha grandiosidade do evento deveria ter maior tempo, pois cada palestrante desenvolveu uma temática a cerca do assunto conseguindo aguçar o interesse dos participantes em querer saber mais, ouvir mais, entender mais.
    A palestra inicial abordou todo o trabalho desenvolvido pelo COE e a proposta de capacitação de professores frente ao TDAH, pois segundo a neurologista Drª Elnora de Paiva Ayres existem muitos achismos a cerca do assunto. 
    A neuropediatra Drª Fabiana Eloisa Mugnol apresentou a questão do neurodesenvolvimento da criança mostrando através de neuroimagem que as crianças com TDAH apresentam uma formação mais “demorada” de certas regiões cerebrais. Segundo ela, TDAH é um processo maturacional.
Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Saúde Mental (EUA)  mostrou um atraso em indivíduos com TDAH em “atingir a espessura de pico durante a maior parte do cérebro: O atraso foi mais proeminente nas regiões pré-frontais importantes para o controle de processos cognitivos, incluindo a atenção e planejamento motor” Em contraste, o córtex motor nos pacientes com ADHD teve um amadurecimento mais rápido do que o normal, sugerindo que tanto o desenvolvimento mais lento do controle do comportamento como o mais avançado, podem ser condições que causam a inquietação característica do TDAH. A imagem mostra a maturação do cérebro refletindo a idade em que uma área do córtex atinge a espessura máxima. Fonte: Drdangvu
      Também enfatizou que quando a criança nasce tem áreas mais maduras e outras mais imaturas. Que as neuroimagens mostram que as crianças com TDAH apresentam um menor número de conexões entre as diferentes partes do cérebro em comparação com as outras crianças. Isso resulta numa dificuldade em focar a atenção, e, consequentemente, na aquisição mais lenta do aprendizado.
  O ser humano necessita que alguém lhe ajude a  desenvolver-se, proporcionando carinho, alimentação, desenvolvimento motor, cognitivo, social. Inclusive a palestrante fez referência a pesquisa realizada com ratos onde fala da importância do afeto com os seus filhotes. Dentro desta perspectiva há 3 autores que retratam bem essa abordagem: do movimento, do intelecto, do afeto...
   Existe na atualidade a Escala de Francisco Rosa Neto (EDAH) que é uma tentativa mais atual de verificar possíveis indivíduos com TDAH.

O instrumento EDAH (Tabela abaixo), que classifica a criança com o predomínio dos seguintes sintomas: hiperatividade, déficit de atenção, transtorno de conduta, hiperatividade com déficit de atenção ou sintomas do déficit de atenção/hiperatividade associados ao transtorno de conduta (global). Esta escala é composta por 20 questões fechadas – sendo que as respostas a serem marcadas variam de 0 a 3 pontos –, as quais o professor responde conforme a conduta frequente do sujeito durante os últimos seis meses. Optamos por utilizar esta mesma escala com os pais das crianças, já que a literatura indica que as manifestações do transtorno devem ocorrer em pelo menos dois ambientes distintos. (Neto, 2004)

     A explanação do neurologista, Dr Paulo André B. dos Santos, ressaltou os pontos abordados anteriormente, mas enfatizou que muitas vezes percebemos com maior facilidade aquele indivíduo que é inquieto, que não para, mas nossa preocupação deveria ser também voltada para aquele que pouco fala, pouco se manifesta, pouco é percebido em sala de aula, pois este é muito mais difícil de ser encaminhado para a avaliação. O DSM-V alterou para até 12 anos o diagnóstico do TDAH, pois nesta que exigem muito das funções cognitivas é que vários outros fatores podem se manifestar.
      O psiquiatra do Desenvolvimento, Drº Athos Pereira Schmidt, no trouxe todo um contexto envolvente, um assunto cativante: o desenvolvimento do ser humano. Segundo ele o bebê quando nasce só sabe aquilo que sabia dentro do útero. Quando um animal nasce, a mãe do mesmo não precisa ensinar-lhe tudo, ele instintivamente apresentará as características pertinentes a sua espécie. O ser humano não, ele precisa uma pessoa que vai amá-lo, oferecer carinho, alimento, ensinar-lhe coisas da vida. 
     O bebê quando é alimentado ele recebe carinho, e no momento que chora e é alimentado, com o passar do tempo, ele já não sabe mais distinguir o que vai para o estômago e o que vai para o coração. Incluído no ciclo de desejo, ele passa a desejar. Ele se torna cada vez mais ligado com alguém. E isso é maravilhoso e ao mesmo tempo assustador, pois o bebê depende de outros. E no princípio tem que ser assim, é necessária esta simbiose. O ser humano precisa desta ligação primária.
      E na palestra final com o Dr Jefferson Escobar, psiquiatra da Infância e Adolescência, foi feita toda uma reflexão do papel do professor frente as questões abordadas, pois os professores são os indivíduos que são os modeladores dos alunos, pois no estilo de sociedade que atualmente viemos, os alunos passam mais tempo com seus professores do que com seus pais e também nossas crianças estão cada vez mais cedo no mundo virtual, e neste mundo não há troca de olhares que é uma das coisas vitais no ser humano. Talvez a única troca de olhar, o único contato físico que este indivíduo irá ter é de seu professor quando chega próximo dele para dar alguma explicação.
      Segundo o palestrante, os professores precisam se conscientizar de sua importância diante este contexto e também entender que quando um aluno apresenta tais comportamentos como os do TDAH ele não o faz porque quer, mas sim porque não há maturação cerebral apropriada para agir de forma diferente. Entretanto é  preciso ter clareza que nem todo inquieto é hiperativo e nem todo mal desempenho é considerado Déficit de Atenção, portanto observa-se os seguintes critérios estabelecidos pelo DSM-IV:


Critérios Diagnósticos para Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade DSM-IV

A. Ou (1) ou (2)
1) seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção persistiram por pelo menos 6 meses, em grau mal adaptativo e inconsistente com o nível de desenvolvimento:

Desatenção:
(a) frequentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras
(b) com frequência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas
(c) com frequência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra
(d) com frequência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade de compreender instruções)
(e) com frequência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades
(f) com frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa)
(g) com frequência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais)
(h) é facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa
(i) com frequência apresenta esquecimento em atividades diárias

(2) seis (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade persistiram por pelo menos 6 meses, em grau mal adaptativo e inconsistente com o nível de desenvolvimento:

Hiperatividade:
(a) frequentemente agita as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira
(b) frequentemente abandona sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que permaneça sentado
(c) frequentemente corre ou escala em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado (em adolescentes e adultos, pode estar limitado a sensações subjetivas de inquietação)
(d) com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer
(e) está frequentemente "a mil" ou muitas vezes age como se estivesse "a todo vapor"
(f) frequentemente fala em demasia
Impulsividade:
(g) frequentemente dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas
(h) com frequência tem dificuldade para aguardar sua vez
(i) frequentemente interrompe ou se mete em assuntos de outros (por ex., intromete-se em conversas ou brincadeiras)
B. Alguns sintomas de hiperatividade-impulsividade ou desatenção que causaram prejuízo estavam presentes antes dos 7 anos de idade.
C. Algum prejuízo causado pelos sintomas está presente em dois ou mais contextos (por ex., na escola [ou trabalho] e em casa).
D. Deve haver claras evidências de prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
E. Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Esquizofrenia ou outro Transtorno Psicótico e não são melhor explicados por outro transtorno mental (por ex., Transtorno do Humor, Transtorno de Ansiedade, Transtorno Dissociativo ou um Transtorno da Personalidade).

Codificar com base no tipo:
F90.0 - 314.01 Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, Tipo Combinado: se tanto o Critério A1 quanto o Critério A2 são satisfeitos durante os últimos 6 meses.
F98.8 - 314.00 Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, Tipo Predominantemente Desatento: Se o Critério A1 é satisfeito, mas o Critério A2 não é satisfeito durante os últimos 6 meses.
F90.0 - 314.01 Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, Tipo Predominantemente Hiperativo-Impulsivo: Se o Critério A2 é satisfeito, mas o Critério A1 não é satisfeito durante os últimos 6 meses.
Nota para a codificação: Para indivíduos (em especial adolescentes e adultos) que atualmente apresentam sintomas que não mais satisfazem todos os critérios, especificar "Em Remissão Parcial".




F90.9 - 314.9 Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade Sem Outra Especificação

Esta categoria aplica-se a transtornos com sintomas proeminentes de desatenção ou hiperatividade-impulsividade que não satisfazem os critérios para Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.

Esta categoria aplica-se a transtornos com sintomas proeminentes de desatenção ou hiperatividade-impulsividade que não satisfazem os critérios para Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.

        
      Quanto ao TDAH é necessário que tenhamos bem claro: porque tratar, quando tratar e como tratar:


# É uma patologia que causa muito prejuízo por toda a vida;
# Algumas crianças com TDAH são hiperativos, mas muitos outros podem parecer com olhar longe e desmotivado.
# As crianças com TDAH são capazes de se concentrar em atividades que gostam. Mas não importa o quanto eles tentem, eles têm dificuldade em manter o foco quando a tarefa é chata ou repetitiva.
# Crianças com TDAH podem fazer o seu melhor para ter bom desempenho, mas continuam incapazes de ficar parado, ficar quieto, ou prestar atenção. Eles podem parecer desobedientes, mas isso não significa que eles estão agindo fora de propósito.
# O TDAH, muitas vezes continua na idade adulta, por isso o tratamento pode ajudar a aprender, a gerir e minimizar os sintomas.
# A medicação é muitas vezes prescrita para o transtorno de déficit de atenção, mas pode não ser a única opção pois um tratamento eficaz para a TDAH também inclui a educação, terapia comportamental, apoio em casa e na escola.

         Estes foram apenas alguns dos tópicos abordados na palestra, teve muito mais, poderia ficar dias escrevendo e ainda teria a impressão que não consegui transmitir tudo, mas em breve o COE- Centro de Orientação ao Escolar apresentará  cursos de capacitação para professores procurando auxiliar em eventuais dúvidas em relação aos problemas de aprendizagem. Maiores informações no site:Pais Preocupados

Um comentário:

  1. Excelente me trouxe muitos esclarecimentos sobre a hiperatividade infantil. Parabéns...

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