terça-feira, 2 de abril de 2013

Apraxias



    A apraxia é um distúrbio que pode ser observado após uma lesão neurológica, apresentando uma incapacidade de realizar movimentos voluntários aprendidos, como gestos e movimentos do dia a dia. Por exemplo, uma lesão na região parietal posterior direita poderá causar dificuldades, tais como: copiar desenhos, montar quebra-cabeças e encontrar o caminho em uma cidade que o indivíduo já conhecia. Se o dano afetar a região parietal posterior esquerda, as deficiências serão relacionadas à linguagem (afasia, dificuldades para leitura e geração de nomes de objetos ou animais) e à reprodução de movimentos (apraxia). O tipo mais conhecido é a bucofacial, que consiste em deixar o paciente incapaz de realizar movimentos faciais, como assobiar, tossir, mastigar.
     A apraxia apresenta impossibilidade ou a dificuldade de realizar atos intencionais, gestos complexos, voluntários, conscientes, sem que haja paralisias, paresias ou ataxias, e sem que faltem também o entendimento da ordem para fazê-lo ou a decisão de fazê-lo. Além disso, a incapacidade de realizar o ato motor complexo deve ocorrer na ausência de perturbações da capacidade de compreensão, reconhecimento e manipulação instrumental dos objetos (agnosias e afasias). Ela decorre sempre de lesões neuronais, geralmente corticais, seja por conta de traumas na região cerebral, tumores e também outros fatores. Sendo assim, a funcionabilidade do paciente torna-se deficitária e a recuperação neuromotora, prejudicada. Uma das principais dificuldades encontradas por profissionais da saúde que ministram programas de reabilitação para esses pacientes é diagnosticar tal distúrbio, para que as terapias sejam dirigidas às causas reais dos déficits funcionais e, consequentemente, obtenha-se êxito quanto à sua reabilitação.

 As apraxias podem ser:

A apraxia ideativa (apraxia no uso de objetos) é a incapacidade de usar objetos comuns de forma adequada, ou a incapacidade de realizar movimentos sequenciais apesar de conservar a capacidade para executar os movimentos individuais (que fazem parte daquela sequencia de movimentos). (ex.: se for pedido ao paciente que fume um cigarro, pode-se observar que irá acender o fósforo com o cigarro, ou que leva o cigarro aos lábios e fuma sem tê-lo acendido).

 A apraxia ideomotora é a incapacidade de completar um ato de forma voluntária em resposta a uma ordem verbal. O mesmo ato, entretanto, pode ser realizado pelo paciente de modo espontâneo (ex.: ordena-se que o paciente faça o sinal-da-cruz, ele não o faz, mas realiza-o automaticamente ao entrar em uma igreja). Tanto a apraxia ideativa como a ideomotora são resultantes geralmente de lesão no hemisfério esquerdo.

A apraxia construcional é a incapacidade de construir figuras geométricas, montar quebra-cabeças ou desenhar um cubo ou outras figuras geométricas (ex.: ele é incapaz de fazer um desenho com molde).

A apraxia de vestimenta é a perda da capacidade para vestir-se, mantendo-se as capacidades motoras simples e a cognição global. Tanto a apraxia construcional como a de vestimenta resultam geralmente de lesões no hemisfério direito.

A apraxia da marcha é a incapacidade para iniciar o movimento espontaneamente e organizar a atividade gestual da marcha, ocorrendo com frequência à marcha em pequenos passos (petit pas). A apraxia da marcha resulta de lesões dos lobos frontais e subcorticais e de alterações associadas à hidrocefalia de pressão normal.

A apraxia mielocinética é a incapacidade de executar movimentos adquiridos delicados; a rapidez e a habilidade estão afetadas, independentemente da complexidade do gesto; pode ser identificada na mímica, sendo mais evidente quando se testam os movimentos distais independentes, principalmente os mais rápidos (ex.: o paciente é incapaz de imitar o ato de passar a ferro).

A apraxia bucofacial é a incapacidade de realizar os movimentos voluntários da deglutição, movimentos voluntários da língua, movimentos faciais ao comando (ex.: lamber os lábios, soprar um fósforo), mas automaticamente fumam e recolhem migalhas nos lábios com a língua.

A apraxia agnóstica é retratada por alguns autores como a associação entre as apraxias com as agnosias, sendo por definição: apraxia – alteração das funções gestuais, e agnosias – alteração das funções cognitivas, ou seja, o paciente não realiza os gestos por não reconhecer o objeto e qual a sua utilização.

A Apraxia diagonística consiste em má cooperação entre as mãos na execução de tarefas bimanuais. Nas atividades espontâneas, às vezes, pode estar evidente, por exemplo: uma pessoa deposita sobre o balcão de uma loja o dinheiro que deve após uma compra; a mão direita pega normalmente o objeto comprado enquanto a mão esquerda apodera-se do dinheiro antes que seja registrado no caixa, como se já se tratasse do troco. As dificuldades que o paciente encontra para a execução dessas tarefas bimanuais devem-se ao fato de que o conjunto cérebro esquerdo/mão direita responde às solicitações verbais ou aos projetos conceituais, enquanto o conjunto cérebro direito/mão esquerda responde às estimulações visuais concretas. Os dois hemisférios separados não podem coordenar sua respectiva atividade e atrapalham-se mutuamente.

A percepção corporal e a atuação motora formam, do ponto de vista neurológico e neuropsicológico, uma unidade indivisível. Um exemplo disso é a apraxia construtiva, ou incapacidade de desenhar um modelo (cubo, casa, etc.), de montar um quebra-cabeças, de construir formas simples com cubos, etc. A apraxia construtiva ocorre, com frequência, devido a lesões dos lobos parietais.

     Conforme estudos de VAZ (1999), as apraxias podem causar um importante déficit funcional aos pacientes neurológicos; sendo assim, profissionais empenhados na recuperação neuromotora desses pacientes necessitam identificá-las e tratá-las o mais precocemente possível, de modo a não prejudicar a reabilitação integral desses pacientes. Portanto, a utilização de testes simples, práticos e de fácil aplicabilidade, na rotina de atendimento desses pacientes, faz-se necessária. O protocolo proposto pode ser aplicado, discutido e criticado em novos estudos.

Tratamento:

     O tratamento geralmente é baseado por uma equipe médica que diversifica em diversos meios e técnicas. Os profissionais geralmente são fonoaudiólogos, fisioterapeutas, neurologistas e psicólogos.
      O paciente faz exercícios indicados, que visam melhorar os movimentos e instigar a fala. Em alguns casos a psicologia é muito importante durante o tratamento, pois a pessoa pode ficar constrangida por não conseguir se movimentar e comunicar-se como as outras e esse quadro pode levar o paciente a um estado de depressão, o que agrava e atrapalha o andamento do tratamento.


Semiotécnica resumida da apraxia


As apraxias são pesquisadas solicitando ao paciente comandos simples como: feche os olhos, lamba os seus lábios. Pedir ao paciente que realize, com a mão direita (e depois com a esquerda), ações como: fazer de conta que irá pentear os cabelos, escovar os dentes, cortar as unhas, etc. É possível também pesquisar o uso de objetos solicitando ao paciente que imite o ato de acender um fósforo ou usar o telefone.
Solicitar ao paciente que desenhe um cubo, que tire e vista novamente sua camisa e seus sapatos.

Fonte: (Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed, 04/2011. p. 183).

Bibliografia:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2011.
VAZ, Elaine. FONTES, Sissy. FUKUJIMA, Marcia. Testes para Detecção de Apraxias por Profissionais da Saúde. Revista Neurociências, disponível online em http://www.revistaneurociencias.com.br/edicoes/1999/RN%2007%2003/Pages%20from%20RN%2007%2003-7.pdf


Um comentário:

  1. O profissional terapeuta ocupacional também pode auxiliar no processo de tratamento de apraxias, por meio de atividades que irão estimular o exercício e a melhoria do quadro clínico.

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