sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O surgimento da Neuroeducação



Ana Lúcia Hennemann*
Nota: artigo publicado na Revista Meucerebro

 As práticas pedagógicas começaram a modificar-se com a Educação Inclusiva, sendo que esta trouxe novos desafios, novas formas de percepção do contexto educacional. Por isso, surge um diferencial na Educação: a Neuroeducação, a percepção do sujeito na sua individualidade e nesse sentido vamos refletir sobre o que precisa modificado, quais são os novos olhares que precisamos ter com este indivíduo que diariamente está dentro da sala de aula.
Um dos primeiros relatos que temos sobre a educação com um olhar mais global se dá se dá através das Paideias, na Grécia. As mesmas eram constituídas a partir da concepção de que a comunidade e o indivíduo são responsáveis uns pelos outros e dessa forma vão se transformando, integrando-se e evoluindo.  O indivíduo era percebido sobre seus diversos aspectos e fazia parte de uma cadeia social, cada um era importante. Cada um tinha contribuições para a evolução daquele contexto social.
Entretanto, as concepções mudaram e a educação “abandonou” a  percepção individual e integral do sujeito para um outro aspecto muito diferenciado, o indivíduo valia o quanto ele produzia, em outras palavras, o melhor aluno era aquele que conseguia acumular mais conhecimento. Mas até aqui a escola ainda não era para todos. Apenas alguns privilegiados estudavam.
Conforme Tracey Espinosa, mesmo tendo os direitos assegurados pela Declaração Universal do Direitos Humanos, é somente na década de 1980 que a educação em massa começa fazer parte do cenário educacional e através dessa maior diversidade que se percebe que o sistema educacional necessitava de muitas melhorias.
Todo o conhecimento que se tinha em educação, aprendizagem e comportamento humano, ainda era fruto de pesquisas anteriores ao escaneamento cerebral, e as grandes mudanças começam a ocorrer com o surgimento da Neurociência, que é responsável pelo estudo do sistema nervoso.
A Psicologia, uma das áreas que sempre auxiliou a educação, ao agregar conhecimentos da Neurociência começou a trazer abordagens diferenciadas para o contexto educacional e, dessa forma, a Pedagogia pautada na Educação e Aprendizagem percebeu que se faz necessário um novo olhar educacional, voltar às origens da Paideia e perceber o ser humano como um ser global. Todas as áreas que antes eram “especializadas em” modificam-se e começam a atuar de modo interdisciplinar agregando a nomenclatura de Neuroeducação.
A Neuroeducação não é uma nova área do conhecimento, trata-se da junção dos conhecimentos da Psicologia, Educação e Neurociência. (Figura 1).

A Neuroeducação nos traz uma abordagem diferenciada do que é aprendizagem. Anteriormente, numa visão mais direta poderia se dizer que: “Aprender é a aquisição de novos conhecimentos”. A mesma Neuroeducação nos mostra agora que “Aprender é modificar comportamentos”.
Quando pensamos numa educação inclusiva o significado de aprender dentro destas concepções tem um valor muito significativo. Porque se o sujeito é somente avaliado pelo viés do conhecimento adquirido dentro do contexto escolar certamente a educação não estará sendo inclusiva, mas se ela consegue perceber o educando como alguém que modificou seu comportamento inicial, seja ele, psicomotor, cognitivo ou emocional, desse modo sim, estamos diante de uma educação inclusiva, que prima pelos direitos humanos.
Percebemos indivíduos Downs atuando na sociedade, seja como repórteres, cineastas, professores, e demais profissões, temos entendimento do quão é importante a interação com o meio. Mais ainda, do quão é importante o trabalho de um profissional que tem o entendimento do funcionamento do sistema nervoso.
O neuroeducador, profissional da Neuroeducação, resgata a práxis das Paideias. Ele observa o indivíduo em seus aspectos que precisam ser melhorados e em  suas potencialidades e, através disso, constrói um planejamento individualizado para cada educando. Porém, todos aprendem, pois há modificação de comportamento tanto para o neuroeducador quanto para os educandos, ambos necessitam sair de suas zonas de conforto e dessa forma alcançar patamares mais elevados. Através disso resgata-se um valor primordial que os gregos já conheciam: a cooperação. A sociedade se constitui pelo entendimento da responsabilidade que temos uns com os outros e só podemos mudar a sociedade se mudarmos nossos comportamentos.

Referência Bibliográficas:

TOKUHAMA – ESPINOSA, Tracey. Why Mind, Brain, and Education Scienceis the "New" Brain-Based Education. Disponível online em http://migre.me/lXgK3

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Especialista em Alfabetização, Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia e Pós-graduanda em Neuroaprendizagem. E-mail: ana.hennemann@outlook.com

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Transtorno de Conduta


Ana Lúcia Hennemann*

Fato 1:
O garoto de 8 anos colocou o caderno fechado embaixo da mesa, a professora parou ao seu lado e questionou: - Terminou!
E ele com um sorriso no canto da boca responde: - Sim, prontinho! E desviando o olhar pôs-se a procurar algo em seu estojo.
- Por favor, posso dar uma olhada em seu caderno? - perguntou a professora. Olhando-a fixamente e esboçando outro sorriso, o garoto lhe entrega o mesmo.
Apenas a data do dia constava ali e quando questionado sobre o restante da atividade, ele calmamente folheia as páginas do mesmo e menciona que não sabe o que aconteceu, pois tinha certeza que havia copiado.
Fato 2:
Naquele dia tirou o lápis da mão da colega, quebrou-o e jogou longe.  Os diálogos não estavam funcionando, a cena já estava se repetindo. A professora solicitou a agenda, escreveu um recado aos pais. O término da aula chegou, ela viu quando ele rasgou a página da agenda e colocou embaixo da mesa, então calmamente o questionou: - Lembrou de pegar todos os teus pertences? Olhaste embaixo da mesa?
- Tudo que preciso está na mochila professora!
Fato 3:
Todos estavam posicionados olhando para a porta, a qualquer momento a aniversariante entraria... 3, 2, 1 começou o canto de parabéns. Era um dia de festa, eis que em determinado momento uma das crianças que não falava (mutismo seletivo) sai da sala correndo e chorando. Inúmeras perguntas foram feitas para que se tentasse entender o que havia acontecido. Nas costas, a marca de um soco que alguém lhe dera durante aquele momento em que todos cantavam.
O suposto suspeito mostrava-se desolado e comentava com os demais colegas: - Quem pode ter tido a coragem de fazer isso com aquele coitadinho?

    O Transtorno de Conduta classificado como um dos Transtornos Disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, pode ter seu início na infância. Pequenos atos que evidenciam falta de sentimentos ao sofrimento alheio, demonstrações de agressividade física para com os outros ou mesmo torturas praticadas com animais, denotam um olhar mais atento do adulto em relação às atitudes da criança. Conforme DSM-V algumas características deste transtorno aparecem antes de 10 anos e geralmente são meninos.
   Conforme Burke (et al, 2002) é um padrão comportamental repetitivo e persistente no qual são violados direitos básicos de outras pessoas ou normas ou regaras sociais relevantes e apropriadas para a idade, podem implicar uma conduta agressiva de ferir ou ameaçar outras pessoas ou animais, desonestidade ou violações graves de regras.
Indivíduos com o transtorno de conduta apresentam:
- Ausência de remorso ou culpa: não se sentem mal quando fazem algo errado e nem se preocupam quanto às consequências negativas de suas ações.
- Insensibilidade – falta de empatia: ignora e não está preocupado com os sentimentos de outras pessoas.
- Despreocupação com o desempenho: não se preocupa com o desempenho escolar, com o trabalho ou outras atividades importantes. Geralmente culpa os outros pelas situações.
- Afeto superficial ou deficiente: não expressam sentimentos e nem demonstram emoções para os outros, a não ser de uma maneira que parece superficial, insincera ou rasa (ex. as ações contradizem a emoção demonstrada; pode “ligar” ou “desligar” emoções rapidamente) ou quando as expressões emocionais são usadas para obter algum ganho (ex. emoções com a finalidade de manipular ou intimidar outras pessoas).
    O DSM-V apresenta os seguintes critérios para o diagnóstico de transtorno de Conduta:
Um padrão de comportamento repetitivo e persistente no qual são violados direitos básicos de outras pessoas ou normas ou regras sociais relevantes e apropriadas para idade
- presença de ao menos 3 dos 15 critérios seguintes, nos últimos 12 meses, mas com ao menos 1 critério presente nos últimos 6 meses.
A
- Agressão a Pessoas e Animais
1) Frequentemente provoca, ameaça ou intimida outros.
2) Frequentemente inicia brigas físicas.
3) Usou alguma arma que pode causar danos físicos graves a outros (ex. bastão, tijolo, garrafa quebrada, faca, arama de fogo)
4) Foi fisicamente cruel com as pessoas.
5) Foi fisicamente cruel com animais.
6) Roubou durante o confronto com uma vítima (ex. assalto, roubo de bolsa, extorsão, roubo à mão armada)
7) Forçou alguém a atividade sexual.

- Destruição de propriedade
8) Envolveu-se deliberadamente na provocação de incêndios com a intenção de causar danos graves.
9) Destruiu deliberadamente propriedade de outras pessoas (excluindo provocação de incêndios)

-Falsidade ou Furto
10) Invadiu a casa, o edifício ou o carro de outra pessoa.
11) Frequentemente mente para obter bens materiais ou favores ou para evitar obrigações (“trapaceia”)
12) Furtou itens de valores consideráveis sem confrontar a vítima (ex: furto em lojas, mas sem invadir ou forçar a entrada; falsificação)

- Violações Graves de Regras
13) Frequentemente fica fora de casa à noite, apesar da proibição dos pais, com início antes dos 13 anos de idade.
14) Fugiu de casa, passando a noite fora, pelo menos duas vezes enquanto morando com os pais ou em lar substituto, ou uma vez sem retornar por um longo período.
15) Com frequência falta às aulas, com ínicio antes dos 13 anos de idade
B
A perturbação comportamental causa prejuízos clinicamente significativos no funcionamento social, acadêmico ou profissional.
C
Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, os critérios para transtornos de personalidade antissocial não são preenchidos

   Conforme Teixeira (2013, p.65) na escola essas são algumas ações perceptíveis do transtorno de conduta:

 Mentiras
 Agressões físicas
 “Matar aula”
 Destruição de carteiras
 Roubo de material escolar
 Agressividade e ameaças contra professores e alunos
 Hostilidade com colegas de turma
 Ausência de remorso
 Comportamento sádico
 Consumo de álcool e drogas
 Desempenho escolar fraco
 Isolamento social
 Prática de bullying

    Sugere-se que as famílias juntamente com a escola permaneçam atentos e utilizem-se de medidas socioeducativas, treinamento de habilidades sociais e técnicas cognitivo-comportamentais como forma de controlar a agressão, a modulação do comportamento social e o estímulo ao diálogo e melhoria de relacionamento.

Referência Bibliográfica:
APA. Referência Rápida aso Critérios Diagnósticos do DSM-V. Porto Alegre: Artmed, 2014
TEIXEIRA, Gustavo. Manual dos Transtornos Escolares: entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.
------------------------------------------------------------------------------------------------
* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

   Email: ana.hennemann@outlook.com   

TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade


Ana Lúcia Hennemann*

O sinal anunciava o início da aula, as crianças já se encontravam na fila. Alguns pais acompanhavam apreensivos a entrada das crianças à sala de aula, observavam o menino num estado de euforia pulando sobre os ombros dos colegas, quase os derrubando. Apresentava uma fala ligeira e cheia de gestos, entretanto não tinha noção espacial de seu corpo e não percebia quando a extensão de seu braço atingia o corpo dos demais.  
Na sala de aula, mostrava-se inquieto, o espaço da mesma era pequeno demais para ele, não conseguia organizar-se, o lápis com frequência caia no chão, o caderno incompleto cheio de dobras nas pontas, a borracha num instante se transformava num carrinho.
Na mochila, além de todos os pertences escolares também estavam vários brinquedos, que constantemente insistia em pegá-los durante a execução de tarefas escolares.
O conteúdo da aula era deixado de lado por qualquer motivo.  
Cadeira, pra que serve mesmo? aquele corpinho inquieto mal conseguia permanecer 15 minutos sentado. Porém o problema é que sua inquietação tirava a concentração dos demais...hora de chamar a família...
Na fala entristecida o histórico de pais que já conheciam todo o repertório do diálogo proposto, já não era a primeira escola pela qual passavam, a inquietação do filho, a falta de atenção nas atividades, as brincadeiras constantes, a dificuldade de cumprir regras, a desatenção...
Em casa também vivenciavam as mesmas situações, mas mencionaram que não entendiam, pois a criança era tão inteligente e conseguia passar muito tempo concentrado no computador...

    Existem muitos mitos em torno do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas este é distúrbio neurobiológico crônico que afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Esses sinais devem obrigatoriamente manifestar-se na infância, mas podem perdurar por toda a vida, se não forem devidamente reconhecidos e tratados. Os sintomas incluem dificuldade em se concentrar e prestar atenção além da dificuldade em controlar o comportamento.
    Segundo  Leonardi, Rubano e Assis (2010, p.114), estudos de neuroimagem e de neurobiologia mostraram que crianças com TDAH possuem volumes cerebrais quase 3% menores que o restante da população e assimetrias no córtex pré-frontal, estriado e cerebelo, além de alterações no funcionamento de alguns neurotransmissores, em especial dopamina e noradrenalina.
   Nesse sentido, o TDAH não acontece devido a fatores culturais ou conflitos psicológicos, mas por apresentar alterações na região frontal do cérebro, responsável pela inibição do comportamento e do controle da atenção.
    De acordo com o Manual de Classificação das Doenças Mentais – DSM-V, o TDAH é considerado um Transtorno do Neurodesenvolvimento apresentando as seguintes características:
Desatenção: falta de atenção para detalhes, cometem erros por omissão, as tarefas são realizadas sem o devido cuidado e meticulosidade, dificuldade para manter a atenção, dificuldade para persistir e terminar as tarefas, parece estar com a cabeça “em outro lugar”.
Hiperatividade: inquietação, não consegue permanecer quieto ou sentado por muito tempo e quando deveria; apresenta dificuldade em realizar tarefas de lazer em silêncio; demonstra estar “a todo vapor”.
Impulsividade: impaciência, não espera sua vez, responde antes da pergunta ser finalizada, interrompe conversas alheias.
 Os critérios para o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas persistem por pelo menos seis meses em um grau que é inconsistente com o nível do desenvolvimento e têm impacto negativo diretamente nas atividades sociais e acadêmicas/profissionais. Para adolescentes mais velhos e adultos (17 anos ou mais), pelo menos cinco sintomas são necessários.
A
1)Desatenção: (Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção (duração mínima de 6 meses)
a) Frequentemente não presta atenção em detalhes ou comete erros por descuido em tarefas escolares, no trabalho ou durante outras atividades (p. ex, negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é impreciso).
b) Frequentemente tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas (p. ex, dificuldade de manter o foco durante aulas, conversas ou leituras prolongadas).
c) Frequentemente parece não escutar quando alguém lhe dirige a palavra diretamente (p. ex, parece estar com a cabeça longe, mesmo na ausência de qualquer distração óbvia).
d) Frequentemente não segue instruções até o fim e não consegue e não consegue terminar trabalhos escolares, tarefas ou deveres no local de trabalho (p. ex, começa as tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente perde o rumo).
e) Frequentemente tem dificuldade para organizar tarefas e atividades (p. ex, dificuldade em gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade em manter materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e desleixado; mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazos).
f ) Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se envolver em tarefas que exijam esforço mental prolongado (p. ex, trabalhos escolares ou lições de casa; para adolescentes mais velhos e adultos, preparo de relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos).
g) Frequentemente perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (p. ex, materiais escolares, lápis, livros, instrumentos, carteiras, chaves, documentos, óculos, celular).

2) Hiperatividade e Impulsividade:
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade (duração mínima de 6 meses)

a) Frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira;
b) Frequentemente levanta da cadeira em situações em que se espera que permaneça sentado (p. ex, sai do seu lugar em sala de aula, no escritório ou em outro lugar de trabalho ou em outras situações que exijam que se permaneça em um mesmo lugar).
 c) Frequentemente corre ou sobe nas coisas em situações em que isso é inapropriado. Nota: Em adolescentes ou adultos, pode se limitar a sensações de inquietude).
 d) Com frequência é incapaz de brincar ou se envolver em atividades de lazer calmamente
e) Com frequência “não para”, agindo como se estivesse “com o motor ligado” (p. ex, não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito tempo, como em restaurantes, reuniões, outros podem ver o indivíduo como inquieto ou difícil de acompanhar.

Impulsividade (duração mínima de 6 meses)
 f) Frequentemente fala demais.
g) Frequentemente deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída (p. ex, termina frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar).
h) Frequentemente tem dificuldade para esperar a sua vez (p. ex, aguardar em uma fila)
i) Frequentemente interrompe ou se intromete (p. ex, mete-se nas conversas, jogos ou atividades; pode começar a usar as coisas de outras pessoas sem pedir ou receber permissão; para adolescentes ou adultos, pode intrometer-se em ou assumir o controle sobre o que os outros estão fazendo.
B
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estavam presentes antes dos 12 anos de idade
C
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estão presentes em dois ou mais ambientes (p. ex, em casa, na escola, no trabalho; com amigos ou parentes; em outras atividades).
D
Há evidências claras de que os sintomas interferem no funcionamento social, acadêmico ou profissional ou de que reduzem a sua qualidade.

E
Os sintomas não ocorrem durante o curso de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são mais bem explicados por outro transtorno mental (p. ex, transtorno do humor, transtorno de ansiedade, transtorno dissociativo, transtorno da personalidade, intoxicação ou abuso de substâncias). 


TEIXEIRA (2010, p 65 - 67) elenca algumas atitudes que o indivíduo com TDAH pode manifestar na escola:
® Deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades.
® Tem dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas.
® Parece não escutar quando lhe dirigem a palavra.
® Não segue instruções e não termina seus deveres escolares.
® Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.
® Evita, antipatiza ou reluta em envolver-se em atividades que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa).
® Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por exemplo: brinquedos, lápis, livros, etc.).
® É facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa.
® Apresenta esquecimento em atividades diárias.
® Agita as mãos ou pés, ou se remexe na cadeira.
® Abandona sua cadeira em sala de aula ou em outras situações nas quais se espera que permaneça sentado.
® Corre ou escala em demasia, em situações nas quais fazer isso é inapropriado (em adolescentes e adultos pode estar limitado a sensações subjetivas de inquietação).
® Tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer.
® Fica a “mil” ou muitas vezes age como se estivesse “a todo vapor”.
® Fala muito.
® Dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas.
® Tem dificuldade para aguardar a vez.
® Interrompe ou se mete em assuntos dos outros (por exemplo: intromete-se em conversas ou brincadeiras).

Visando o melhor desempenho destes alunos em sala de aula, sugere-se que os professores:
ï Organizem as mesas em círculos, ou em forma de U, ao invés de fileiras: facilita o contato e particularmente o “olho no olho” com os demais colegas da classe;
ï Ensinem técnicas de organização e de estudo;
ï Estimulem e reforcem positivamente atitudes assertivas através de elogios;
ï Proporcionem atividades que contemplem as inteligências múltiplas.

Fonte: G1


Para maior entendimento , assista ao vídeo do Psicólogo Thales Vianna Coutinho: 




Referência Bibliográfica:

COUTINHO, Thales. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Youtube Canal TVCChanelNews
LEONARDI, Jan. RUBANO, Denize. ASSIS, Fátima. Subsídios da Análise do Comportamento para Avaliação de Diagnóstico e Tratamento do Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). In.: Medicalização de crianças e adolescentes: conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doença de indivíduos. CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SÃO PAULO. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
SOUZA, Felipe. Transtornos do Neurodesenvolvimento. Disponível online em: http://pt.slideshare.net/FelipedeSouza10/curso-dsm-5-transtornos-do-neurodesenvolvimento
TEIXEIRA, Gustavo. Manual dos Transtornos Escolares: entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.
------------------------------------------------------------------------------------------------
* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

   Email: ana.hennemann@outlook.com   

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Uma orquestra dentro de seu cérebro


Ana Lúcia Hennemann*

As crianças brincavam na pracinha, o local era cheio de árvores e numa das laterais havia um enorme muro.
Duas turmas dividiam o espaço, uma com crianças entre 3-4 anos e outra com 4-5 anos de idade. Os meninos começaram a brincar de cientistas, juntaram alguns gravetos  e começaram suas pesquisas. Acompanhavam o trajeto feito por formigas e quando uma delas entrava em qualquer buraco eles usavam "suas ferramentas" para exploravam o esconderijo. A professora ouviu e olhou de relance quando o menino falou:
- Os inimigos estão mortos.
Na ponta do graveto uma abelha espetada e rapidamente o ambiente foi se transformando numa nuvem negra de insetos saindo por uma fenda do muro. Era um enorme enxame de abelhas.
Em fração de segundos a professora viu um filme passar por seus pensamentos, não podia ficar ali, pois uma simples picada poderia ser a porta de entrada para um hospital e na rapidez de tentar se salvar, saiu correndo gritando para que todas crianças corressem também.
Longe do perigo, há alguns metros de distância, iniciou a contagem de quantos ali estavam, mas nisso voltou seus olhos para a nuvem preta e percebeu sua colega tentando salvar as crianças que ficaram se debatendo como tentativa de se livrar das abelhas.
Novamente a fração de segundos veio à mente, alergia a picada, dor intensa, inchaço, náuseas, mas era preciso ajudar, como pode ter sido tão egoísta e foi assim que enfrentou seu medo e voltou para o ambiente nada convidativo.  

     Durante milhares de anos nosso cérebro mantém a função primordial de cuidar do nosso bem estar e nossa sobrevivência. Qualquer sinal de perigo faz com que tomamos ações imediatas, muitas vezes impensadas, que podem tanto manter nossa sobrevivência quanto causar a morte. Por exemplo: “O sujeito era muito calmo, nunca reagiu a nada, mas levou um tiro por ter atacado o assaltante”.  E mesmo sem entendermos, foi apenas o instinto de sobrevivência falando mais alto, que em situações estressantes podem tanto paralisar um indivíduo quanto fazê-lo ter reações agressivas, ou seja, fuga ou luta.   
      Nosso cérebro possui uma região chamada neocórtex que nos faz raciocinar, prever situações, analisar o ambiente e a partir daí tomar decisões mais sensatas. É essa região que nos diferencia dos demais animais, pois somos os únicos capazes de antecipar o futuro e pensar em possíveis estratégias a serem realizadas.  Entretanto, quando se trata de emoções e situações que exigem tomadas de decisões bruscas, será que é esta a região que comanda nosso cérebro?
     O neurofisiologista Paul MacLean, em 1990, propôs a teoria do “Cérebro Triúno” ou “Cérebro Trino”, na qual teríamos três cérebros: reptiliano, límbico, neocórtex.
Réptil – onde se manifestam nossos comportamentos de autopreservação: alimentação, agressão e fuga, território e sexualidade;
Mamífero ou Límbico – apresentando os instintos de “rebanho’, cuidados com a prole e hierarquias sociais
Neocórtex- processamento da linguagem simbólica, das abstrações, da lógica.
Conforme esta teoria, grande parte dos humanos em situações de emergência estariam expressando ações mais voltadas ao cérebro réptil e mamífero.

     Dalgalarrondo (2010, p 21), mencionando sobre a evolução do cérebro, enfatiza que essa visão não é mais aceita nos dias atuais, pois a evolução não ocorre de modo linear, mas em ramificações arbóreas, e cada ramo segue seu próprio caminho evolutivo.
    Nesta concepção, há a Teoria do Sistema Funcional, desenvolvida pelo neuropsicólogos russo Aleksandr Romanovick Luria, considerado o principal destaque da Neuropsicologia. Para Luria há em nosso cérebro 3 unidades funcionais, mas que trabalham de modo integral:
Primeira Unidade funcional – Não recebe nenhuma informação externa, sua única atividade é regular o estado do funcionamento do córtex e o nível de vigilância, controlando o tônus, a vigília e os estados mentais do indivíduo, porém, é uma unidade extremamente importante porque o funcionamento cortical é essencial para a sobrevivência do indivíduo e para a execução das outras funções superiores.
Segunda Unidade Funcional - responsável pela recepção, análise e pelo armazenamento das informações. É uma das unidades mais importantes e que compõe grande parte do funcionamento neurológico. O cérebro, ao receber as informações provindas tanto do meio externo quanto do próprio organismo precisa processá-las (interpretá-las) e quando entende que estas informações são muito importantes passa a armazená-las no que pode ser comumente chamado de memória.
Terceira Unidade Funcional - é a região responsável pela programação, regulação e verificação da atividade consciente do homem.

       Para Luria, nosso cérebro ao executar qualquer ação, qualquer atividade ele não envolve apenas uma região cerebral, mas várias. Luria comparou nosso cérebro ao funcionamento de uma orquestra, ou seja,  para que trabalhe com harmonia precisa ter seus instrumentos afinados e trabalhando de forma integrada. Explica que cada área da orquestra é importante e interdependente, mas que precisam das outras áreas funcionando conjuntamente para que seja tocada uma boa música.
    Quando temos esse entendimento de que nosso cérebro trabalha em unidade, entendemos o quanto é importante praticarmos atividades que visem o nosso bem estar, não somente mental, mas físico também, pois frequentemente somos expostos a muitas situações e muitas delas requerem tomadas de decisões rápidas e somente quando estamos em harmonia é que podemos ter atitudes e/ou ações mais inteligentes. Se a função de nosso cérebro é manter nosso bem estar e sobrevivência, que ele o faça de modo assertivo.

Referência Bibliográfica:
ANDRADE, M.V., SANTOS, F.R., BRUNO, O.F.A. Neuropsicologia Hoje. São Paulo: Editora Artes Médicas, 2004.
DALGALARRONDO, Paulo. Evolução do cérebro: sistema nervoso, psicologia e psicopatologia sob a perspectiva evolucionista. Porto Alegre: Artmed, 2011.
----------------------------------------------------------------------------------
* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

   Email: ana.hennemann@outlook.com   

Neurônios Espelho – Aprendizagem por observação/imitação

 
Ana Lúcia Hennemann*

Frequentemente algumas crianças vinham brincar com João. Entre uma brincadeira e outra corriam até um pequeno cercado na porta e chamavam o cachorro até ele.
Era um dogue alemão enorme, mas muito manso, porém cada vez que o cão chegava perto do cercado, as crianças saiam em disparada, rindo e procurando ficar longe do campo de visão do mesmo.
Sentado no carrinho, o irmãozinho de João observa tudo, cada detalhe, a ida das crianças até o cercado, as provocações, o cachorro vindo, e elas correndo sorrindo. Ele tinha apenas 8 meses, mas acompanhava tudo com olhares e movimentos com os pés como se estivesse a correr junto com as crianças.
Foram alguns meses apenas de observação, mas assim que começou a caminhar foi até a porta, tentou expressar algo como se estivesse a chamar o cachorro e saiu correndo, meio que cambaleando, mas feliz pelo feito realizado com tantos meses de espera...

     A criança descrita no texto, após longo período observando as demais interagirem conseguiu um dia imitá-las, ou seja, ela teve uma aprendizagem por observação.
      O psicólogo canadense, Albert Bandura (1925-1988) realizou experiências onde crianças assistiam vídeos de adultos agredindo um boneco “João Bobo”, e em seguida eram colocadas numa sala com alguns brinquedos e também o referido boneco. Constatou-se que 90% das crianças apresentavam as mesmas atitudes do adulto em relação ao tal boneco, confirmando assim, que a experiência de outros podem conduzir à aquisição de novos comportamentos.
    Para Bandura, a aprendizagem por observação, ou aprendizagem social, ocorre pela observação dos comportamentos daqueles com quem convivemos (pais, irmãos, amigos, professores). Bandura designa por modelação ou modelagem o processo de aprendizagem social feito com base na observação e imitação sociais.
     Em meados de 1990, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolati e seus colaboradores, descobriram neurônios no cérebro que são responsáveis por esta aprendizagem por imitação, os neurônios-espelho. As pessoas, crianças e até mesmo animais podem aprender observando e imitando os outros.

   Entretanto, aprendemos não somente com aqueles que estão presencialmente, podemos aprender virtualmente também, um exemplo disso é a tal “Galinha Pintadinha” que serve de babás para muitas crianças. Também há o enorme repertório de filmes, novelas e comerciais que estão a modular muitos neurônios-espelho por aí.
     Na questão da aprendizagem escolar, o quanto é importante o professor entender o impacto da aprendizagem por observação. Seja pelo seu modo de atuar em sala de aula, seja pelo entendimento de que alunos também aprendem com alunos. Por exemplo, há salas de aula onde indivíduos passam o ano e anos sentados com os mesmos colegas, repetem os mesmos padrões de comportamento, deixam de aprender e deixam de ensinar aos demais. O famoso espelho de classe é uma ferramenta essencial, pois oportuniza que alunos aprendam a observar diferentes colegas e ampliarem sua capacidade de aprendizagem.
    Mas, pensando neste mundo cada vez mais tecnológico, pais queixando-se que seus filhos vivem conectados, professores preocupados com a defasagem da leitura e escrita e os neurônios-espelho nos evidenciando que aprendemos por imitação, quem sabe devemos parar de reclamar e tornar nossas ações mais visíveis para que possam ser imitadas. Quem sabe 20 minutos de leitura juntamente com os filhos ou alunos faria um grande diferencial.


Referência Bibliográfica:
BANDURA, Alfred. AZZI, Roberta. POLYDORO, Soely. Teoria Social Cognitiva: conceitos básicos. Porto Alegre: Artmed, 2008.
LA ROSA, Jorge. Psicologia e educação: o significado do aprender. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
----------------------------------------------------------------------------------
* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com