domingo, 19 de fevereiro de 2017

Estágio Supervisionado III – Tubarão SC

Estágio em Neuropsicopedagogia Clínica

"Trate um homem como ele é, e continuará sendo como é. Trate-o como ele pode e deve ser, e ele se tornará o que pode e deve ser".
 Goethe

O curso de Neuropsicopedagogia Clínica do Censupeg é atualmente organizado em uma grade curricular com 600 horas/aula, sendo que 135 horas são destinadas ao estágio.  Praticamente são seis meses de atuação no contexto clínico. Seis meses, nos quais os alunos iguais as crianças no findar de seu primeiro ano de vida, vão experimentar seus primeiros passos e nós como professores, representantes da instituição Censupeg nos faremos presentes.
Primeiros passos são instigantes, despertam o desejo de ir além, servem de suporte para que no futuro nossa caminhada se torne mais ágil. Entretanto, num primeiro momento estes passos podem acontecer de modo desequilibrado, com doses de medo, sensação de insegurança, porém, tal qual os pais fazem com as crianças, que se mostram receosas diante o medo da queda, nós professores, nos posicionamos um passo a frente de nossos estagiários, olhamos em seus olhos ao mesmo tempo que estendemos os braços e dizemos: - “Vem, você consegue!”
E é com este sentimento de pais que se emocionam ao perceber que seu filho já está andando sozinho, nos orgulhamos também ao perceber que nossa primeira turma de Neuropsicopedagogia Clínica da cidade de Tubarão (SC) já deu seus primeiros passos.
Para 18 pós-graduandas da instituição Censupeg, o sábado do dia 18 de fevereiro será marcado com o sentimento de muita alegria, pois nesta data fizeram o relato de suas primeiras experiências como neuropsicopedagogas clínicas, o relato de seus primeiros passos.
Isso mesmo, cada aluna em seu estágio se responsabilizou por um consulente, um estudo de caso, ou seja, alguém para quem pudessem fazer alguma diferença, para quem pudessem olhar através da realidade o qual este se encontrasse e pudesse lhe apontar caminhos. Mas não caminhos pautados no achismo, mas sim caminhos pautados em muito estudo, em resolução de hipóteses, em troca de saberes com outros profissionais.
Nossas estagiárias tiveram que olhar para cada consulente e não ver apenas o óbvio que todos que estão a volta dele veem, porque apenas ver o óbvio não provoca mudanças, se fez necessário ver além, ver o que fazer a partir daquilo que está sendo evidenciado. E eis aí o motivo de nossa alegria, o motivo de nossa euforia, pois ao receberem o retorno da escola ou dos familiares de que algo estava mudando com aquele indivíduo, isso sim é sinal de dever cumprido. Sinal de que todos vencemos!
E nossos agradecimentos se estendem além das fronteiras do contexto Censupeg, pois dessa vez tivemos a oportunidade de contar com o apoio da Clínica de Psicologia Sistêmica ((48) 9938-3656) que recebeu de braços abertos nossas estagiárias, um gesto de bondade que mostra toda a grandeza de amor e caráter do Sr Jucemar Honório, proprietário da clínica. Gesto esse que me fez lembrar das palavras do presidente do Censupeg Sandro Albino Albano: [...] o que não pode faltar em educação é amor e caráter e quando aprendemos que fazer o bem é muito gostoso [...] que ajudar aos outros deixa um perfume em suas mãos, a gente vai verdadeiramente aprender que é possível fazer um mundo melhor, como a gente já está fazendo. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Neuropsicopedagogia e Aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]

A aprendizagem, ao longo da história da humanidade, sempre se mostrou um fator inquietante e elemento de profundas reflexões nas mais diversas áreas do saber. Inquietações que acompanharam Aristóteles, filósofo grego, estudioso de diversas ciências e como muitos de nós, apaixonado pela biologia. Desprovido de toda e qualquer tecnologia da atualidade, apenas com os rudimentares instrumentos da época, Aristóteles cria hipóteses sobre a natureza da lembrança e dos esquecimentos, os quais deram origem a grande número de experimentos na área da aprendizagem. O ato de aprender, de construir conhecimento, já fazia parte do olhar investigativo deste grego e retratava a construção do que já era um esboço das atuais pesquisas em neurociências: “[...]segundo Aristóteles, o conhecimento se constitui de uma série de filtragens, seleções e estruturações progressivas, que começam nos sentidos (na experiência) e culminam na estruturação racional do conhecimento. ” (DE CARVALHO 1996, p. 67-68)
Se Aristóteles, séculos antes, percebeu que os sentidos eram a porta de entrada da aprendizagem, Jean Piaget, atravessa a porta e descreve como ela se transforma em conhecimento. Além dos sentidos, que perpassam o sujeito, é preciso mais, é necessário a interação com o objeto, ou seja, a aprendizagem requer a interação do sujeito com o objeto (com tudo aquilo que não é o sujeito), e cada nova aprendizagem vai servindo de estrutura para novos conhecimentos, por isso, através de Piaget, podemos ter o entendimento de que a “ação” é elemento essencial da aprendizagem. Não há construção do saber, sem interação com o objeto de estudo, sem a experimentação, sem a ação. Nesse sentido Lima (1980, p.130) enfatiza:
Piaget chega a afirmar, paradoxalmente, que “tudo que se ensina à criança impede que ela invente ou descubra por si mesma” (o que a criança descobre ou inventa por si mesma, reestrutura, fundamentalmente, suas atividades motora, verbal e mental).

A aprendizagem pode ser sim algo complexo, repleta de descobertas e reestruturações, mas também existe simplicidade no aprender, há chaves que abrem este segredo. Chaves que aparecem através da descoberta de vias da aprendizagem e memória em moluscos, estudos realizados por Eric Kandel, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Kandel, nos mostra que a base do aprendizado está na criação e no fortalecimento de conexões entre os neurônios. Se o estímulo é fraco, a aprendizagem não se consolida, se o estímulo é forte, há alteração nas células nervosas e estas geram uma mudança. Podemos dizer que sempre ocorre  aprendizagem, no entanto ela só “cria raízes” no momento em que se transforma numa memória. Riesgo (2016, p.9), ao falar de aprendizado afirma que:  “Quando chega ao SNC[2] uma informação inteiramente nova, ela nada evoca, mas produz uma mudança na estrutura e/ou na função do SNC – isto é aprendizado, do ponto de vista estreitamente neurobiológico.”
Aprendizagens são chaves para mudanças, mas para toda chave, se faz necessário uma fechadura que podem ser o simbolismo de sentimentos e emoções. Então, surge Damásio e nos mostra que não há como separar “razão da emoção”. A aprendizagem passa pela esfera da emoção, não há como aprender sem sentir o gostinho do tempero da emoção, pois conforme Oliveira (2013) “em um nível básico, as emoções são parte da regulação homeostática e constituem-se como um poderoso mecanismo de aprendizagem”.
E assim, com o auxílio de chaves, portas e fechaduras, a aprendizagem foi mapeada e resultou num grande mapa representado por todo nosso sistema nervoso, que reduzidamente intitulamos “cérebro”. O processo de aprender envolve a decodificação do mesmo e entendimento que estamos diante de um mapa moldável, onde cada indivíduo vai se modificando conforme as modificações ambientais.
O ato de aprender, expertise do nosso cérebro, inquietou Aristóteles, Piaget, Kandel, Damásio e tantos outros que promovem ciência, desacomodou aqueles que transitam pela educação, desacomodou um grupo de pesquisadores que os fizera pensar numa nova ciência focada na aprendizagem. Uma ciência, descrita pela SBNPp[3] (2016), que transitasse pela psicologia cognitiva, pedagogia e neurociência aplicada à educação, que fosse desse modo transdisciplinar, que trouxesse respostas não somente para aqueles que aprendem tivessem facilidade em aprender, mas também proporcionasse aprendizagem a todos aqueles que se veem diante de algum empecilho.
Se há uma fisiologia da aprendizagem, o porquê não a trazer para a educação? O porquê não tornar a aprendizagem mais eficaz? E assim novamente a inquietação promoveu mudanças, e eis que surge a Neuropsicopedagogia que traz um novo olhar para a aprendizagem, um olhar que é capaz de reconhecer as limitações, mas também enxergar todas as capacidades do indivíduo. Não há como pensar em aprendizagem sem ter o entendimento de onde ela se localiza em nosso sistema nervoso, de qual a metodologia mais eficaz para determinado indivíduo e o porquê ela se consolida ou não nas memórias de cada um.
Neuropsicopedagogos são profissionais da Neuropsicopedagogia, que têm o compromisso com a constante busca do saber, do aprimoramento, de melhorar o ensino-aprendizagem e ter conhecimento sobre o neurodesenvolvimento do indivíduo, pois dessa forma “permite a utilização de teorias e práticas pedagógicas que levem em conta a base biológica e os mecanismos neurofuncionais, otimizando as capacidades do seu aluno” (OLIVEIRA, 2014, p.16) e também de seus pacientes.
O neuropsicopedagogo, trabalhando em conjunto com demais profissionais, procurará identificar o que realmente é importante para o educando, o que levará o mesmo a possíveis reestruturações cerebrais: - somente socialização?; - aprendizado de letras, palavras, frases?; - melhoria na coordenação motora?; - estimulação sensorial?; enfim, diante cada situação, se faz necessário criar uma estratégia de reabilitação do indivíduo. Por mínimas que sejam as condições, ainda assim, o foco tem que ser na potencialidade do indivíduo, mas também ter consciência de suas limitações, sejam momentâneas ou não.
A Neuropsicopedagogia entende que por mais simples que possa parecer a aprendizagem diante aos olhares de outros, por exemplo: a aprendizagem do simples ato de conseguir tirar o material escolar de dentro de uma mochila; esta aprendizagem provocou mudanças na organização funcional e anatômica do indivíduo, pois houve a construção de novas conexões entre os dendritos de diferentes neurônios, localizados em diferentes regiões cerebrais, e cada vez que este indivíduo chega à escola, ou mesmo à sua casa, ele por si só conseguirá pegar um lápis, um caderno, sem que outros o façam por ele.
Isto é aprendizagem, isto é provocar mudanças, é entender que a partir deste ato se abrem possibilidades para novas aprendizagens, que talvez alguns indivíduos, nunca cheguem ao aprendizado de escrever um livro, mas o simples fato de sozinho pegá-lo em suas mãos, talvez folheá-lo, já é digno de aplausos.

Referências Bibliográficas:

DE CARVALHO, Olavo. Aristóteles em Nova Perspectiva. Rio de Janeiro: TOPBOOKS, 1996.

LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. São Paulo: Summus, 1980.

OLIVEIRA, Nythamar. Damásio, Neurociência e Neurofilosofia. Porto Alegre, Fronteiras do Pensamento, 2013. Disponível online em: http://www.fronteiras.com/artigos/damasio-neurociencia-e-neurofilosofia. Acesso em 12/07/2016.

OLIVEIRA, Gilberto Gonçalves de. Neurociências e os processos educativos: um saber necessário na formação de professores. Educação Unisinos. V. 18, número 1, jan/abr 2014

RIESGO, Rudimar. Anatomia da Aprendizagem. In. ROTTA; OHLWEILER; RIESGO [et al]. Transtornos da Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

SBNPp. O que é Neuropsicopedagogia? Joinville: Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, 2016.  Disponível online em: http://www.sbnpp.com.br/o-que-e-neuropsicopedagogia/ Acesso em 14/07/2016.

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  Neuropsicopedagogia e Aprendizagem. Novo Hamburgo, 12 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/neuropsicopedagogia-e-aprendizagem.html





[1] Especialista em Alfabetização/Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva/Neuropsicopedagogia Clinica/Neuroaprendizagem WhatsApp +55 51 992484325   
[2] SNC – Sistema Nervoso Central
[3] SBNPp – Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Uma empresa chamada cérebro

Funções executivas para uma vida de sucesso!
Ana Lúcia Hennemann[1]

     Como nosso cérebro faz associações, se alguém ler a expressão “Funções executivas” sem ter conhecimento prévio do assunto, vai lembrar de? Isso mesmo, num primeiro momento lembrará a imagem de algum executivo ou algo ligado à organização empresarial. Digamos que a associação está parcialmente correta, pois tais funções localizam-se dentro de uma “grande empresa”: seu cérebro.
     As Funções Executivas referem-se a um conjunto de habilidades mentais que trabalham de modo cooperativo para ajudar as pessoas a alcançarem metas. Estas habilidades são coordenadas pelo córtex pré-frontal, sendo que a região dorsolateral responsabiliza-se pelo planejamento e a flexibilidade do comportamento; a região medial pelas atividades de autorregulação e da correção de erros; região orbitofrontal se encarrega da avaliação dos riscos envolvidos em determinadas ações e da inibição de respostas inapropriadas.
   Guerra (2011, p.92) salienta que: “Como as histórias individuais são diferentes, também o desenvolvimento das funções executivas terá́ trajetórias desiguais para cada pessoa, e as habilidades adquiridas serão provavelmente distintas.”
     Numa concepção neuropsicológica, pode-se dizer que estas funções compreendem fenômenos de flexibilidade cognitiva e tomada de decisões. Por exemplo: Vamos pensar em algumas capacidades que crianças/adultos precisariam ter interagindo num jogo de memória: - gerir o tempo e atenção; - controle de foco; planejar e organizar jogadas (isso exige flexibilidade, pois terá que mudar suas ações conforme a jogada do outro); lembrar-se de detalhes; inibir o comportamento (a criança tem de ter controle inibitório, ela para tudo o que está fazendo e deixa a outra criança ter a vez); integrar experiências passadas com o presente (ou seja, construir estratégias para ter um desempenho no jogo).
     O exemplo do jogo, pode ser aplicado a qualquer outra atividade que realizamos no dia-a-dia, pois ter o bom funcionamento de nossas funções executivas nos permitem maior desempenho em tudo que fizermos.
   Quando um indivíduo apresenta déficit nestas funções, o comportamento/desempenho torna-se ineficiente afetando a capacidade de manter relações sociais adequadas, pois precisamos ser aptos a trabalhar efetivamente com os outros, com as distrações, ou seja, com as múltiplas demandas provindas do meio. Porém, conforme Guerra (2011, p.89) existem indivíduos que apresentam “disfunções executivas”, ou seja:
 Indivíduos com lesões pré-frontais podem apresentar uma série de problemas que caracterizam as chamadas “disfunções executivas”. Alguns, embora apresentem um nível de inteligência inalterado, podem se tornar apáticos e serem incapazes de tomar decisões necessárias no dia a dia. Ou as tomam de uma forma desastrada, que não leva em conta prioridades, consequências ou os riscos envolvidos, além de não conseguirem perceber e avaliar os próprios erros. Outros podem ser impulsivos, incapazes de inibir comportamentos inadequados ou de flexibilizar sua conduta, mesmo constatando que suas ações não levam ao objetivo determinado. Podem ter uma tendência a perseverar, ou insistir em ações já em andamento, mesmo que elas se mostrem ineficientes, ou podem deixar de avaliar as consequências de suas ações no futuro e comportar-se de forma inadequada e antissocial."

     Distúrbios e transtornos tais como TDAH (Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade), TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento), TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento) ou vítimas de lesões cerebrais traumáticas podem apresentar dificuldades nas funções executivas, por causa das alterações na área pré-frontal, mas com o auxílio de profissionais , tais como psicólogos (neuropsicólogos), psicopedagogo (neuropsicopedagogo), entre outros, há possibilidades de realizar atividades que auxiliem no melhor desempenho das funções executivas.
    Suponha que um indivíduo tenha um trabalho acadêmico a ser apresentado num período de 10 dias, mas apenas um dia anterior comece a organizá-lo. Ou quem sabe, nem o faça.  Se pensarmos em questões de organização, o ideal seria iniciar uns dias antes, mas, para isso, é preciso disciplina, autorregulação, ou seja, dizer não para algumas coisas que são desnecessárias e sim para o que realmente é essencial.
     Imagine: uma criança recebeu um dinheiro x para comprar seu lanche ou algum material escolar de que necessita, mas no percurso para a escola viu algum brinquedo e resolveu gastar seu dinheiro com o mesmo.... Ficou sem lanche, gastou desnecessariamente... Talvez você pense: - mas é só uma criança!!!
     O fato é que a construção do bom desempenho das funções executivas inicia-se “no berço”. Cada fase da vida exige o aprimoramento destas funções, pois se não desenvolvermos essas habilidades durante a infância e adolescência, estaremos fadados a ter sérios problemas quando adultos: seja para manter um emprego, manter um casamento, criar filhos, relacionar-nos com os outros, interagir em sociedade.
   Vejamos outro exemplo: um adulto que tem um dinheiro x para sobreviver durante um certo período de tempo, mas gastou este dinheiro. Encontrou comprando algo que supôs interessante e acabou sem recursos financeiros. Gastou, mais uma vez, desnecessariamente... Todos os exemplos, alertam para a importância de funções executivas bem desenvolvidas.
     Como pais e professores podemos auxiliar e muito no desenvolvimento destas funções, pautados na organização (regras) e metacognição (pensar sobre o pensar). O simples fato de criar rotinas e regras pré-estabelecidas servem de grande auxilio, mas se faz necessário, juntamente com as crianças/adolescentes o “sentipensar” sobre as ações e atitudes que tiveram em determinada situação, promovem a metacognição = o que foi feito, que ações/estratégias usei, quais os resultados, o que posso fazer diferente numa próxima oportunidade.
     Nesse sentido, Guerra (2011) mencionando Gardner, nos diz que muito se fala sobre o aprender a aprender, entretanto pouco se ensina como realmente aprender, mas se quisermos bom desempenho na vida, precisamos de um bom funcionamento de nossas funções executivas e só conseguiremos isso quando praticarmos o exercício da metacognição revendo constantemente nossas metas, estratégias e possibilidades de readaptações,  assim nossa aprendizagem se mostra muito mais eficaz, pois numa concepção neurobiológica “aprender é modificar comportamentos”. 

Fonte: COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Porto Alegre: Artmed, 2011.
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  Uma empresa chamada cérebro. Novo Hamburgo, 08 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/uma-empresa-chamada-cerebro.html 





[1] Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O “Bruxo da Matemática” na Intervenção Neuropsicopedagógica

Ana Lúcia Hennemann¹

O uso de games no contexto clínico tem se tornado cada vez mais habitual. Para aqueles que desconhecem o trabalho realizado neste setting, ou seja, local de atendimento, num primeiro momento pode parecer apenas uma aproximação do clínico com a realidade vivenciada pelo consulente, contudo há muito mais elementos que permeiam esta interação.
Um bom exemplo disso é o jogo Pearls before swine conhecido como “Bruxo da Matemática”, indicado como intervenção neuropsicopedagógica no contexto da matemática, mas que também pode ser utilizado como excelente no auxílio para o desenvolvimento das funções executivas...
O jogo consiste na interação indivíduo X máquina que tem como avatar um bruxo, onde o mesmo mostra a sua mão com três fileiras de pérolas. Na primeira linha de pérolas há cinco unidades, na segunda quatro e a terceira com três. O bruxo mostra apenas quatro dedos, sendo que três deles contém palavras com as ordens do jogo, por exemplo:  no dedo indicador está escrita a palavra “new”, significando que vai começar o jogo; no dedo médio, a palavra “go”, significando que o jogador está passando a vez; e no dedo mínimo, a palavra “quit”, que significa que o jogador desistiu do jogo.
O jogador poderá clicar em uma das fileiras de pérolas e tirar quantas pérolas quiser e em seguida clicar em “go”, que passará a vez para o adversário. Ambos irão jogando sucessivamente até que o jogo termine e então basta clicar em “new” para recomeçar tudo novamente. O uso de palavras em inglês também pode servir de objeto de estudo, auxiliando a ampliação do vocabulário infantil.
Algumas habilidades matemáticas podem ser exploradas através destas jogadas, por exemplo: contagem, seriação, par e ímpar, relação termo a termo, subtração, inclusive após o jogo virtual pode-se fazer uma versão analógica do jogo, o que permite que o indivíduo tenha uma planificação diferenciada do jogo.
No entanto, o objetivo do jogo é fazer com que o bruxo tire a última pérola, o que significaria que o ele foi derrotado no jogo. Mas, isso não é tão fácil, pois exige muita concentração, atenção, um plano estratégico e um bom raciocínio lógico, que nos arremete ao desenvolvimento das funções executivas que também é um dos aspectos que é trabalhado no atendimento neuropsicopedagógico.
Segundo Lezak (2004 apud Saboya 2007) as funções executivas abrangem 4 domínios que necessitam ser bem trabalhados: volição, planejamento, ação propositiva e monitoramento, que seria o desempenho efetivo.
A volição diz respeito aos aspectos relacionados à intenção, iniciativa e motivação, então relacionado ao jogo, pode-se ter a percepção se o indivíduo consegue ter uma inciativa, se ele tem motivação, ou seja, algo que o faça querer jogar, por exemplo: vencer o jogo. Mas apenas ter o objetivo de vencer o jogo não basta, se faz necessário ter a iniciativa de jogar.
O planejamento fará menção aos aspectos relacionados às capacidades de tomada de decisão e julgamento, ou seja, decidir e estabelecer estratégias observando o que é prioritário no momento, apresentando controle de impulsos.
A ação propositiva prioriza aspectos relacionados ao controle inibitório, flexibilidade cognitiva e processos atencionais.  Aqui é necessário que se inicie, mantenha, modifique ou interrompa um conjunto complexo de ações e atitudes organizadamente. Por exemplo, se o indivíduo participou de uma rodada do jogo e não venceu, se faz necessário que ele modifique as ações feitas anteriormente para que numa próxima tentativa possa conseguir o êxito.
E por fim, o desempenho efetivo que faz menção aos aspectos associados à utilização de feedbacks para o ajuste de respostas (cognitivo-comportamentais), de modo a tornar as mesmas mais adequadas ao contexto. O indivíduo, pode aqui fazer uso da metacognição, ou seja, pensar sobre o pensar, ele vai monitorando o que deu certo e reutilizando estas estratégias de forma mais eficaz.
Há de se ter o entendimento que sair vencedor de qualquer jogo, nem sempre acontece num mesmo dia, as vezes este jogo pode levar mais tempo, horas, dias, e aí a importância do indivíduo explorar de diferentes formas as estratégias já utilizadas e que não tiveram êxito. O importante para ter êxito no jogo ou em qualquer tarefa é saber fazer uso dos domínios executivos que envolvam volição, planejamento, ação propositiva e monitoramento.

Referências:
MENEZES, Josinalva. Atividades interdisciplinares com jogos virtuais para o ensino da matemática. 2006. Disponível online em: http://www.comunidadesvirtuais.pro.br/seminario2/trabalhos/josinalvamenezes_josivaldobrito.pdf
RUSSO, Rita Margarida Toler. Neuropsicopedagogia clínica: introdução, conceitos, teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2015.
SABOYA, Eloisa (et al). Disfunção executiva como uma medida de funcionalidade em adultos com TDAH. Jornal Brasileiro de Psiquiatria.  vol.56 suppl.1 Rio de Janeiro 2007. Disponível online em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852007000500007


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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  O “Bruxo da Matemática” na Intervenção Neuropsicopedagógica.  Novo Hamburgo, 02 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/o-bruxo-da-matematica-na-intervencao.html

sábado, 28 de janeiro de 2017

Consumo de Ômega-3 melhora o desempenho acadêmico?

Ana Lúcia Hennemann

Entender e fazer uso do conteúdo proporcionado pelo contexto escolar é um dos aspectos que são avaliados quando se diz que o aluno tem um bom desempenho escolar, pois significa que ele está aprendendo, que está “aumentando a sua capacidade para responder aos estímulos educacionais”.
Os conteúdos escolares são estruturados de acordo com o nível escolar que o aluno se encontra, por exemplo: nas séries iniciais a organização curricular está voltada à alfabetização, ou seja, são proporcionadas noções básicas envolvendo aspectos relacionados à leitura e escrita, numeracia, lateralidade, etc. O mínimo esperado é que o aluno ao final do 3º ano do Ensino Fundamental consiga ter um bom nível de leitura e interpretação e consiga fazer uso disso para os demais contextos...
Todos estes aspectos envolvem diversos fatores, e principalmente, um bom funcionamento cerebral. Por exemplo, para que o aluno consiga decodificar o código linguístico, ou seja, ter apropriação do alfabeto e usar suas variáveis até transformá-lo ou decodificá-lo em textos, se faz necessário que os neurônios envolvidos neste processo passem por uma maturação, uma mielinização, a qual lhe dará maior velocidade no processamento de todas estas informações. Portanto, esses neurônios necessitam ser revestidos com uma espécie de “capa” que faça com que eles consigam “movimentar-se” mais rapidamente para fazer a junção de todas as informações e responder ao estímulo proposto.
Se pensarmos na leitura da palavra “bola”, que pode parecer tão simples, são necessários o processamento de mais de 27 áreas cerebrais para que a leitura realmente tenha fluência e velocidade, pois a aprendizagem desta palavra demandou tempo. Inicialmente, apenas ocorreu a maturação das áreas visuais, pois quando víamos a imagem da palavra percebíamos: um “risquinho” com 2 barriguinhas que significam um som, que vai para área auditiva e depois volta para a área visual e junta um símbolo em formato de círculo que mais tarde entendemos como letra O, e novamente faz esta seleção de sons e riscos com as letras posteriores. Tudo isso explicado numa versão muito grotesca do que realmente acontece, mas ao mesmo tempo nos dá o entendimento de quantos fatores são necessários para que a maturação dos neurônios envolvidos neste processo de leitura ocorra.
No entanto, além de todos estes aspectos há fatores, tais como: qualidade de sono e alimentação. Por exemplo, durante o sono ocorre “o crescimento das espinhas dendríticas, que são pequenas saliências de células cerebrais que auxiliam na conexão entre as mesmas, facilitando assim a passagem de informação através das sinapses e desta forma ampliam a memória de longo prazo. ” (Sono: alicerce da aprendizagem) e também ocorrem aspectos relacionados a “faxina noturna” (HERCULANO-HOUZEL, 2013), ou seja, a remoção de toxinas produzidas pelo organismo celular.
Do mesmo modo que o sono, uma boa alimentação influencia na saúde de nosso cérebro, melhorando o nosso desempenho cognitivo, pois traz mais oxigenação e energia, que são pressupostos básicos para que as informações provindas do ambiente (interno e externo) possam ter maior velocidade no processamento neural.
Quando nosso organismo não tem nutrientes considerados saudáveis para o cérebro, o mesmo vai funcionar também, porém de forma mais lenta. E se pensarmos a longo prazo, numa situação onde há carência demasiada destes nutrientes, podem começar a ocorrer problemas na memória, alterações no humor e consequentemente pioras na retenção de informações.
Uma pesquisa relacionando alimentação e desempenho acadêmico foi realizada com 493 crianças britânicas, na idade entre sete e nove anos, verificando o consumo de Omega-3 e a relação do mesmo com o aprendizado. Os pesquisadores Alex Richardson e Paul Montgomery, professores da Universidade de Oxford, optaram pelo Ômega-3 (EPA[1] e DHA[2]) porque ele é um ácido graxo, popularmente conhecido como “gordura boa”, essencial para um bom funcionamento cerebral.
O ômega 3 pode ser encontrado em peixes (ex.: atum, sardinha, salmão, tilápia, anchova, cavalinha, bacalhau), frutos do mar, algumas algas, na linhaça, na chia, nas nozes, castanhas e amêndoas.
Para verificar o nível de ácido graxo Ômega-3 nas crianças, os pesquisadores fizeram coleta sanguínea através do dedo e entrevistaram os pais investigando o consumo de peixe na dieta das crianças.
Os resultados desta pesquisa, foram publicados em 2013, na revista PLOS ONE e mostraram que todas as crianças que tinham dificuldades em leitura (de acordo com avaliações nacionais) apresentavam baixo índice de Ômega-3 especialmente no que se refere ao DHA, dois terços destas crianças apresentavam um nível de leitura abaixo do seu nível de idade. As crianças que tinham níveis mais elevados de Ômega-3 (principalmente DHA) apresentavam melhores escores na leitura e na memória, bem como menos problemas de comportamento.
As pesquisas com Ômega-3 e sua correlação com o desempenho acadêmico necessitaria ser replicadas com estudantes de populações diferenciadas e também devemos ter o entendimento que existem outras variáveis que influenciam o desempenho acadêmico, portanto é cedo demais para dizer que crianças que carecem de Ômega-3 apresentam dificuldades acadêmicas, mas por outro lado todos sabemos que um bom funcionamento cerebral necessita de bons nutrientes para que possamos realizar as atividades diárias com maior disposição e quando se trata de crianças, cujo sistema nervoso está em fase de desenvolvimento devemos primar por dietas saudáveis que possam lhe dar condições favoráveis  para aprender.

Referências:
EDUCAVITA. Definição de desempenho acadêmico. Disponível online em: https: educavita.blogspot.com.br/2013/12qdefinicao-de-desempenho-academico.html
HERCULANO-HOUZEL, Suzana. Faxina Noturna. 12/11/2013. São Paulo, Jornal Folha de São Paulo, 2013.
HENNEMANN, Ana Lúcia. Sono: Alicerce da Aprendizagem. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/01/sono-alicerce-da-aprendizagem.html
Universit of Oxford. Low Omega-3 could explain why some children struggle with reading Disponivel online em: http://www.ox.ac.uk/news/2013-09-05-low-omega-3-could-explain-why-some-children-struggle-reading
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325

Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L. Consumo de Ômega-3 melhora o desempenho acadêmico?.  Novo Hamburgo, 28 janeiro/ 2017. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/01/consumo-de-omega-3-melhora-o-desempenho.html



[1] EPA (ácido eicosapentaenoico) tem como principal função a proteção das artérias e veias, que, além de ajudar na redução das taxas de colesterol, também protegem nosso corpo de doenças coronárias.
[2] DHA (ácido docosahexaenóico) aumenta a concentração de fosofolipídios das células de nossos olhos, tecidos e cérebro, melhorando assim toda a atividade neurotransmissora e também a memória do indivíduo.