sábado, 25 de fevereiro de 2017

Pão e circo cativando seus neurônios-espelho

Ana Lúcia Hennemann[1]

“[...] quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhece-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo.” Guy Debort

      Já aconteceu com você estar passando por algum local e de repente uma ou duas pessoas começam a olhar para algum ponto no céu e sem perceber você imita o gesto? É algo instintivo. Há um vídeo no youtube intitulado “Face the Rear” que retrata o seguinte cenário: alguém entra no elevador e em seguida 2 ou 3 atores entram e se posicionam de costas, inicialmente a pessoa olha com indignação, mas aos poucos o indivíduo vai virando e fica na mesma posição que os demais.
Imagem: Revista MeuCérebro/ Fev_2015
       Já imaginou se alguém ou um grupo se utilizasse de todo esse conhecimento para uma grande massa social? Induzissem pessoas a imitarem outras? Chorar quando outras chorassem, rir quando elas rissem, ficar indignado se elas passassem por situações de injustiça, enfim se preocuparem com a vida alheia e esquecer suas próprias vidas? Pois bem, isso aconteceu há muito tempo em Roma e ficou conhecida como a política do “Pão e Circo”.
        O povo trabalhava demais para sustentar o luxo de poucos; a comida escassa, mas recebiam trigo gratuitamente, então satisfazia as necessidades básicas; haviam livros, entretanto apenas alguns dominavam a arte da leitura. Os mais ousados começaram a criticar a forma de governo e perguntar sobre o valor dos impostos arrecadados; os reis, governantes da época perceberam a desmotivação e entenderam que precisavam agir, não poderiam abdicar de todo aquele luxo para satisfazer as vontades alheias.
       Naquele tempo não se entendia nada sobre cérebros humanos, de como se processava os pensamentos, de neurônios-espelho, rapport, empatia, projeção, mas era necessário modificar o padrão de pensamento, as conexões neurais daqueles indivíduos, caso contrário a insatisfação iria tomar conta de seus corpos e como eram muitos poderiam acabar com o privilégio da minoria.
        Os governantes reuniram-se e logo concluíram que o povo precisava de entretenimento, algo com o que se identificassem, sofredores, guerreiros em busca de vitória, liberdade, desejo de vencer a todo custo. Mas não eram todos que venceriam, somente alguns, aqueles que conquistassem a admiração de todos e mostrassem garra para esta conquista...e foi assim que corpos esculpidos apareceram em plateias de 50.000 mil a 90.000 mil espectadores. Em troca da tão sonhada liberdade, presentes caros, fama e glória, os gladiadores submetiam-se às exposições vis e banhadas de sangue e suor. E o povo ali, apenas dando uma espiadinha, rindo, divertindo-se em família, achando graça do infortúnio alheio. Projetando seus sonhos, suas necessidades, esquecendo suas angústias.
      Aos poucos, o sentimento de descontentamento era trocado pelo desejo de ver quem sairia vitorioso na próxima batalha, quem seria derrotado pelos demais, alguns criticavam toda essa artimanha, mas eles já não tinham voz, pois o povo em geral estava feliz.  Mas lógico, isso tudo ocorreu num século onde as pessoas da época não tinham os recursos e conhecimentos que temos na atualidade para entender todo o entorno que se passa por trás dos bastidores.
       No século XXI, o cenário modificou, mas as estratégias usadas no primeiro século continuam as mesmas: “Pão e circo” ativando os neurônios-espelho! Dentro do nosso cérebro temos regiões especificas que quando ativadas faz com que sentimos emoções e sentimentos de outros como se fossem nossos. É o sentir com o outro e como o outro. Estas células especializadas nos fazem perceber expressões, sentimentos e antever reações de outros indivíduos. Conforme o neurocientista Rizzolatti:  "Os neurônios-espelho nos permitem captar a mente dos outros não por meio do raciocínio conceitual, mas pela simulação direta. Sentindo e não pensando."
      Assim como na Roma antiga, milhares de pessoas sentiam simpatia e desprezo pelos gladiadores, hoje temos de forma mais mascarada o mesmo espetáculo, os famosos reality shows. Mesmo que for para dar a famosa espiadinha, o fato é que muitos se deixam contagiar pelo enredo deste grande circo. Os neurônios-espelho são ativados e fazem com que o povo comece a vivenciar as reações de seu “jogador” preferido.
      Goleman, no livro Inteligência Social, menciona que em 1970 uma equipe de pesquisadores de Israel reuniu um grupo de voluntários para assistir vários clipes de filmes procurando entender parte dos mecanismos neurais envolvidos entre a tela e o espectador. Exames de ressonância magnético funcional eram realizados simultaneamente entre todos os envolvidos e percebeu-se que o cérebro dos espectadores agia como se a história imaginária estivesse acontecendo com eles, evidenciando assim que o cérebro faz pouca distinção entre realidade virtual (imaginária) e real. Conforme Goleman (2011, p.23), “quando o cérebro reage a cenários imaginados da mesma maneira que reage aos cenários reais, o imaginário tem consequências biológicas.[...] quanto mais notável e surpreendente o acontecimento, maior a atenção do cérebro.”
       Quando as pessoas estão aborrecidas e entediadas, tornam-se disfuncionais, começam a perceber fatos que desagradam todo o sistema à sua volta. Todavia, quando dominadas pelas emoções, focando a atenção em pequenos grupos, projetam-se ali, nem que seja apenas para uma “espiadinha”. Séculos se passaram e o homem ainda não dominou a arte de dominar a si mesmo. isso traz significativas consequências sociais. De agora em diante é preciso lembrar que “Pão e o Circo” anseiam dissimuladamente pelos seus neurônios-espelho.

Referências:
GOLEMAN, Daniel. Inteligência social: o poder das relações humanas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
GUARINELLO, Norberto. Violência como espetáculo: http://migre.me/orEaQ
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.   Pão e circo cativando seus neurônios-espelho. Novo Hamburgo, 25 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/pao-e-circo-cativando-seus-neuronios.html




[1] Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG / Membro do Conselho Técnico Profissional da SBNPp - whatsApp - 51 99248-4325

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

“Pseudo”- transtornos específicos de aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]

Talvez não tenha conseguido fazer o melhor, mas lutei para que o melhor fosse feito. Não sou o que deveria ser, mas graças a Deus, não sou o que era antes. (Marthin Luther King)

Toda criança ao cursar os primeiros anos de escolaridade formal evoca, naqueles que interagem com ela, expectativas relacionadas ao processo de aprendizagem. Será um período de continuidade do todo o trabalho já desenvolvido na Educação Infantil, no qual a criança no findar dos três primeiros anos do Ensino Fundamental I deverá ter condições de ler, escrever, interpretar, calcular, ou seja, adquirir habilidades básicas que servirão de suporte para os demais anos acadêmicos.
Enfatizamos uma educação que tenha o olhar na individualidade do aluno, mas também é na escola que as crianças estão inseridas num ambiente de coletividade e muitas vezes os seus pares (seus colegas) é que servem de parâmetro para identificar como está o processo de aprendizagem de cada indivíduo. E quando esta aprendizagem se mostra mais lenta comparada aos demais, se faz necessário um olhar mais abrangente dos profissionais da educação principalmente procurando investigar se há ou não critérios que sinalizam um Transtorno Específico de Aprendizagem.
Os Transtornos específicos de aprendizagem são aqueles onde há déficits específicos relacionados a capacidade do indivíduo perceber ou processar informações com eficiência e precisão. Eles geralmente se manifestam durante os primeiros anos de escolaridade formal, cujas características marcantes são as dificuldades persistentes e prejudiciais nas habilidades acadêmicas de leitura, escrita  e/ou  matemática.
Numa leitura superficial, certamente muitas crianças poderiam aí ser classificadas; e percebe-se que muitas delas são enviadas ao atendimento especializado pautados nas dificuldades persistentes das habilidades acadêmicas. O DSM-V (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), que inicialmente era material de referência para aqueles que trabalham na área da saúde, atualmente, tem se mostrado leitura obrigatória para todos aqueles que atuam na área educacional principalmente porque nele há a descrição detalhada dos Transtornos específicos de aprendizagem.
O DSM-V, traz critérios de classificação destes transtornos, subdivididos em 4 níveis e especificados em subitens, o que faz com se tenha bem claro a diferença entre crianças com dificuldades das que realmente apresentam transtornos. Por exemplo: logo no critério A, existe a questão dos sintomas a serem elencados persistirem durante 6 meses APÓS INTERVENÇÃO.
Não há muita clareza, sobre quais os tipos de intervenções a serem realizadas, no entanto elas abrangem desde o contexto educacional e até mesmo o clínico. Mousinho e Navas (2016, p. 39) observam que
O texto que inicia o critério A traz uma das maiores novidades dessa edição do DSM para os transtornos específicos de aprendizagem, que é a inclusão da proposta de resposta à intervenção (response to intervention – RTI). Trata-se de um modelo em que o diagnóstico não é dado a priori; inicialmente, pode ser estabelecida uma hipótese diagnóstica, que deve ser confirmada após um período de intervenção eficaz e cientificamente embasada.
Quando a criança não está aprendendo devemos sim, investir em todos recursos necessários para entender o que está dificultando a sua aprendizagem, contudo, como professores não podemos nos eximir do nosso dever de ensinar e também proporcionar qualidade neste ensino para que a mesma venha obter resultados satisfatórios. Cada indivíduo tem seu próprio ritmo de aprendizagem, sendo que muitas vezes isto é desconsiderado, avaliando todos utilizando-se de mesmo critérios. Por exemplo: digamos que uma criança provenha de um lar onde não há estímulo para a leitura, onde talvez a linguagem entre os moradores deste local seja pobre de conteúdo e não exista hábitos de estudo. Certamente, esta criança vai apresentar um ritmo de aprendizagem diferente das crianças que tenham qualidade de estímulos, talvez a escrita dela apresente frases curtas e com muitos erros ortográficos, mas isto não quer dizer que ela tenha um transtorno de aprendizagem, mas sim que ela necessita de maior intervenção pedagógica. E o interessante aqui é verificar o quanto esta criança, ao longo do tempo, melhorou seu desempenho acadêmico usando como parâmetro ela mesma.
Salles et al (2013) em seu artigo “Normas de desempenho em tarefa de leitura de palavras/pseudopalavras isoladas (LPI) para crianças de 1º ano a 7º ano” comprovam que o desempenho das crianças em leitura melhora no decorrer dos anos escolares, através de boas intervenções. E também outro dado significativo deste artigo é que crianças de escolas públicas no primeiro ano de educação formal apresentam índices mais baixos de leitura comparadas às de escola privada, no entanto quando chegam ao final do terceiro ano, o desempenho delas se igualam, o que nos leva a perceber o quanto a educação promove a neuroplasticidade das crianças, ou seja, é o “meio modificando o meio”.
Jaime Luiz Zorzi, em seu livro “Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: Questões clínicas e educacionais” utiliza uma expressão que há muito tempo me inquieta e tem sido fruto de longas reflexões e debates com outros colegas da área. O autor menciona sobre os “Pseudo Distúrbios de Aprendizagem”, ou seja, quando todas as deficiências do ensino aprendizagem são depositadas no aprendente. Como o livro foi publicado em 2003, e o DSM-V em 2013, poderíamos dizer que Zorzi faz menção aos “Pseudo- transtornos específicos de aprendizagem”
Pseudo transtornos de aprendizagem ocorrem quando deixamos de proporcionar nosso melhor na educação, quando pensamos que cada criança tem seu tempo de aprender e nos “poupamos” de prover recursos que promovam a aprendizagem desta criança.
Esta situação nos faz perceber o quanto se faz necessário qualificar ainda mais os profissionais que trabalham nos anos iniciais, que são os voltados ao período de alfabetização e isto não se redireciona somente a leitura e escrita, mas sim a todos os comprometimentos que envolvem este contexto.
 A educação escolar poderia ser comparada como a construção de um edifício onde a educação infantil deveria se preocupar com todo a estrutura que fica abaixo da terra, que dará o suporte para as etapas posteriores do prédio, mas logo em seguida, se as primeiras paredes não forem bem assentadas, que é justamente o papel dos anos iniciais, este prédio pode não resistir aos primeiros vendavais, trepidações e assim por diante. Os andares posteriores do prédio correspondem ao ensino fundamental, ensino médio, graduação, pós-graduação ou seja, cada andar necessita ser bem-acabado para dar suporte ao próximo. Mas também temos que ter o entendimento que se ocorreram lacunas de anos anteriores, não adianta procurar quem falhou, mas sim, quais são as falhas e de que modo elas podem ser remediadas, pois educação é acima de tudo investimento no ser humano.
Devemos lembrar que existem sim, transtornos de aprendizagem, mas jamais devemos confundi-los com os pseudo transtornos, como forma de justificar algo que deixamos de fazer.

Referências Bibliográficas:

MOUSINHO, Renata, NAVAS, Ana. Mudanças apontadas no DSM-5 em relação aos Transtornos Específicos de Aprendizagem em leitura e escrita. Disponível online em: http://www.abp.org.br/rdp16/03/RDP_3_201604.pdf

SALLES, Jerusa. Et al. Normas de desempenho em tarefa de leitura de palavras/pseudopalavras isoladas (LPI) para crianças de 1º ano a 7º ano. Disponível online em: http://www.revispsi.uerj.br/v13n2/artigos/pdf/v13n2a02.pdf

ZORZI, Jaime. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: Questões clínicas e educacionais. Porto Alegre, Artmed, 2003.

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  “Pseudo”- transtornos específicos de aprendizagem. Novo Hamburgo, 23 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/pseudo-transtornos-especificos-de.html







[1] Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem.  Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG / Membro do Conselho Técnico Profissional da SBNPp  - whatsApp - 51 99248-4325

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Estágio Supervisionado III – Tubarão SC

Estágio em Neuropsicopedagogia Clínica

"Trate um homem como ele é, e continuará sendo como é. Trate-o como ele pode e deve ser, e ele se tornará o que pode e deve ser".
 Goethe

O curso de Neuropsicopedagogia Clínica do Censupeg é atualmente organizado em uma grade curricular com 600 horas/aula, sendo que 135 horas são destinadas ao estágio.  Praticamente são seis meses de atuação no contexto clínico. Seis meses, nos quais os alunos iguais as crianças no findar de seu primeiro ano de vida, vão experimentar seus primeiros passos e nós como professores, representantes da instituição Censupeg nos faremos presentes.
Primeiros passos são instigantes, despertam o desejo de ir além, servem de suporte para que no futuro nossa caminhada se torne mais ágil. Entretanto, num primeiro momento estes passos podem acontecer de modo desequilibrado, com doses de medo, sensação de insegurança, porém, tal qual os pais fazem com as crianças, que se mostram receosas diante o medo da queda, nós professores, nos posicionamos um passo a frente de nossos estagiários, olhamos em seus olhos ao mesmo tempo que estendemos os braços e dizemos: - “Vem, você consegue!”
E é com este sentimento de pais que se emocionam ao perceber que seu filho já está andando sozinho, nos orgulhamos também ao perceber que nossa primeira turma de Neuropsicopedagogia Clínica da cidade de Tubarão (SC) já deu seus primeiros passos.
Para 18 pós-graduandas da instituição Censupeg, o sábado do dia 18 de fevereiro será marcado com o sentimento de muita alegria, pois nesta data fizeram o relato de suas primeiras experiências como neuropsicopedagogas clínicas, o relato de seus primeiros passos.
Isso mesmo, cada aluna em seu estágio se responsabilizou por um consulente, um estudo de caso, ou seja, alguém para quem pudessem fazer alguma diferença, para quem pudessem olhar através da realidade o qual este se encontrasse e pudesse lhe apontar caminhos. Mas não caminhos pautados no achismo, mas sim caminhos pautados em muito estudo, em resolução de hipóteses, em troca de saberes com outros profissionais.
Nossas estagiárias tiveram que olhar para cada consulente e não ver apenas o óbvio que todos que estão a volta dele veem, porque apenas ver o óbvio não provoca mudanças, se fez necessário ver além, ver o que fazer a partir daquilo que está sendo evidenciado. E eis aí o motivo de nossa alegria, o motivo de nossa euforia, pois ao receberem o retorno da escola ou dos familiares de que algo estava mudando com aquele indivíduo, isso sim é sinal de dever cumprido. Sinal de que todos vencemos!
E nossos agradecimentos se estendem além das fronteiras do contexto Censupeg, pois dessa vez tivemos a oportunidade de contar com o apoio da Clínica de Psicologia Sistêmica ((48) 9938-3656) que recebeu de braços abertos nossas estagiárias, um gesto de bondade que mostra toda a grandeza de amor e caráter do Sr Jucemar Honório, proprietário da clínica. Gesto esse que me fez lembrar das palavras do presidente do Censupeg Sandro Albino Albano: [...] o que não pode faltar em educação é amor e caráter e quando aprendemos que fazer o bem é muito gostoso [...] que ajudar aos outros deixa um perfume em suas mãos, a gente vai verdadeiramente aprender que é possível fazer um mundo melhor, como a gente já está fazendo. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Neuropsicopedagogia e Aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]

A aprendizagem, ao longo da história da humanidade, sempre se mostrou um fator inquietante e elemento de profundas reflexões nas mais diversas áreas do saber. Inquietações que acompanharam Aristóteles, filósofo grego, estudioso de diversas ciências e como muitos de nós, apaixonado pela biologia. Desprovido de toda e qualquer tecnologia da atualidade, apenas com os rudimentares instrumentos da época, Aristóteles cria hipóteses sobre a natureza da lembrança e dos esquecimentos, os quais deram origem a grande número de experimentos na área da aprendizagem. O ato de aprender, de construir conhecimento, já fazia parte do olhar investigativo deste grego e retratava a construção do que já era um esboço das atuais pesquisas em neurociências: “[...]segundo Aristóteles, o conhecimento se constitui de uma série de filtragens, seleções e estruturações progressivas, que começam nos sentidos (na experiência) e culminam na estruturação racional do conhecimento. ” (DE CARVALHO 1996, p. 67-68)
Se Aristóteles, séculos antes, percebeu que os sentidos eram a porta de entrada da aprendizagem, Jean Piaget, atravessa a porta e descreve como ela se transforma em conhecimento. Além dos sentidos, que perpassam o sujeito, é preciso mais, é necessário a interação com o objeto, ou seja, a aprendizagem requer a interação do sujeito com o objeto (com tudo aquilo que não é o sujeito), e cada nova aprendizagem vai servindo de estrutura para novos conhecimentos, por isso, através de Piaget, podemos ter o entendimento de que a “ação” é elemento essencial da aprendizagem. Não há construção do saber, sem interação com o objeto de estudo, sem a experimentação, sem a ação. Nesse sentido Lima (1980, p.130) enfatiza:
Piaget chega a afirmar, paradoxalmente, que “tudo que se ensina à criança impede que ela invente ou descubra por si mesma” (o que a criança descobre ou inventa por si mesma, reestrutura, fundamentalmente, suas atividades motora, verbal e mental).

A aprendizagem pode ser sim algo complexo, repleta de descobertas e reestruturações, mas também existe simplicidade no aprender, há chaves que abrem este segredo. Chaves que aparecem através da descoberta de vias da aprendizagem e memória em moluscos, estudos realizados por Eric Kandel, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Kandel, nos mostra que a base do aprendizado está na criação e no fortalecimento de conexões entre os neurônios. Se o estímulo é fraco, a aprendizagem não se consolida, se o estímulo é forte, há alteração nas células nervosas e estas geram uma mudança. Podemos dizer que sempre ocorre  aprendizagem, no entanto ela só “cria raízes” no momento em que se transforma numa memória. Riesgo (2016, p.9), ao falar de aprendizado afirma que:  “Quando chega ao SNC[2] uma informação inteiramente nova, ela nada evoca, mas produz uma mudança na estrutura e/ou na função do SNC – isto é aprendizado, do ponto de vista estreitamente neurobiológico.”
Aprendizagens são chaves para mudanças, mas para toda chave, se faz necessário uma fechadura que podem ser o simbolismo de sentimentos e emoções. Então, surge Damásio e nos mostra que não há como separar “razão da emoção”. A aprendizagem passa pela esfera da emoção, não há como aprender sem sentir o gostinho do tempero da emoção, pois conforme Oliveira (2013) “em um nível básico, as emoções são parte da regulação homeostática e constituem-se como um poderoso mecanismo de aprendizagem”.
E assim, com o auxílio de chaves, portas e fechaduras, a aprendizagem foi mapeada e resultou num grande mapa representado por todo nosso sistema nervoso, que reduzidamente intitulamos “cérebro”. O processo de aprender envolve a decodificação do mesmo e entendimento que estamos diante de um mapa moldável, onde cada indivíduo vai se modificando conforme as modificações ambientais.
O ato de aprender, expertise do nosso cérebro, inquietou Aristóteles, Piaget, Kandel, Damásio e tantos outros que promovem ciência, desacomodou aqueles que transitam pela educação, desacomodou um grupo de pesquisadores que os fizera pensar numa nova ciência focada na aprendizagem. Uma ciência, descrita pela SBNPp[3] (2016), que transitasse pela psicologia cognitiva, pedagogia e neurociência aplicada à educação, que fosse desse modo transdisciplinar, que trouxesse respostas não somente para aqueles que aprendem tivessem facilidade em aprender, mas também proporcionasse aprendizagem a todos aqueles que se veem diante de algum empecilho.
Se há uma fisiologia da aprendizagem, o porquê não a trazer para a educação? O porquê não tornar a aprendizagem mais eficaz? E assim novamente a inquietação promoveu mudanças, e eis que surge a Neuropsicopedagogia que traz um novo olhar para a aprendizagem, um olhar que é capaz de reconhecer as limitações, mas também enxergar todas as capacidades do indivíduo. Não há como pensar em aprendizagem sem ter o entendimento de onde ela se localiza em nosso sistema nervoso, de qual a metodologia mais eficaz para determinado indivíduo e o porquê ela se consolida ou não nas memórias de cada um.
Neuropsicopedagogos são profissionais da Neuropsicopedagogia, que têm o compromisso com a constante busca do saber, do aprimoramento, de melhorar o ensino-aprendizagem e ter conhecimento sobre o neurodesenvolvimento do indivíduo, pois dessa forma “permite a utilização de teorias e práticas pedagógicas que levem em conta a base biológica e os mecanismos neurofuncionais, otimizando as capacidades do seu aluno” (OLIVEIRA, 2014, p.16) e também de seus pacientes.
O neuropsicopedagogo, trabalhando em conjunto com demais profissionais, procurará identificar o que realmente é importante para o educando, o que levará o mesmo a possíveis reestruturações cerebrais: - somente socialização?; - aprendizado de letras, palavras, frases?; - melhoria na coordenação motora?; - estimulação sensorial?; enfim, diante cada situação, se faz necessário criar uma estratégia de reabilitação do indivíduo. Por mínimas que sejam as condições, ainda assim, o foco tem que ser na potencialidade do indivíduo, mas também ter consciência de suas limitações, sejam momentâneas ou não.
A Neuropsicopedagogia entende que por mais simples que possa parecer a aprendizagem diante aos olhares de outros, por exemplo: a aprendizagem do simples ato de conseguir tirar o material escolar de dentro de uma mochila; esta aprendizagem provocou mudanças na organização funcional e anatômica do indivíduo, pois houve a construção de novas conexões entre os dendritos de diferentes neurônios, localizados em diferentes regiões cerebrais, e cada vez que este indivíduo chega à escola, ou mesmo à sua casa, ele por si só conseguirá pegar um lápis, um caderno, sem que outros o façam por ele.
Isto é aprendizagem, isto é provocar mudanças, é entender que a partir deste ato se abrem possibilidades para novas aprendizagens, que talvez alguns indivíduos, nunca cheguem ao aprendizado de escrever um livro, mas o simples fato de sozinho pegá-lo em suas mãos, talvez folheá-lo, já é digno de aplausos.

Referências Bibliográficas:

DE CARVALHO, Olavo. Aristóteles em Nova Perspectiva. Rio de Janeiro: TOPBOOKS, 1996.

LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. São Paulo: Summus, 1980.

OLIVEIRA, Nythamar. Damásio, Neurociência e Neurofilosofia. Porto Alegre, Fronteiras do Pensamento, 2013. Disponível online em: http://www.fronteiras.com/artigos/damasio-neurociencia-e-neurofilosofia. Acesso em 12/07/2016.

OLIVEIRA, Gilberto Gonçalves de. Neurociências e os processos educativos: um saber necessário na formação de professores. Educação Unisinos. V. 18, número 1, jan/abr 2014

RIESGO, Rudimar. Anatomia da Aprendizagem. In. ROTTA; OHLWEILER; RIESGO [et al]. Transtornos da Aprendizagem: abordagem neurobiológica e multidisciplinar. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.

SBNPp. O que é Neuropsicopedagogia? Joinville: Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia, 2016.  Disponível online em: http://www.sbnpp.com.br/o-que-e-neuropsicopedagogia/ Acesso em 14/07/2016.

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  Neuropsicopedagogia e Aprendizagem. Novo Hamburgo, 12 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/neuropsicopedagogia-e-aprendizagem.html





[1] Especialista em Alfabetização/Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva/Neuropsicopedagogia Clinica/Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG / Membro do Conselho Técnico Profissional da SBNPp WhatsApp +55 51 992484325 
[2] SNC – Sistema Nervoso Central
[3] SBNPp – Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Uma empresa chamada cérebro

Funções executivas para uma vida de sucesso!
Ana Lúcia Hennemann[1]

     Como nosso cérebro faz associações, se alguém ler a expressão “Funções executivas” sem ter conhecimento prévio do assunto, vai lembrar de? Isso mesmo, num primeiro momento lembrará a imagem de algum executivo ou algo ligado à organização empresarial. Digamos que a associação está parcialmente correta, pois tais funções localizam-se dentro de uma “grande empresa”: seu cérebro.
     As Funções Executivas referem-se a um conjunto de habilidades mentais que trabalham de modo cooperativo para ajudar as pessoas a alcançarem metas. Estas habilidades são coordenadas pelo córtex pré-frontal, sendo que a região dorsolateral responsabiliza-se pelo planejamento e a flexibilidade do comportamento; a região medial pelas atividades de autorregulação e da correção de erros; região orbitofrontal se encarrega da avaliação dos riscos envolvidos em determinadas ações e da inibição de respostas inapropriadas.
   Guerra (2011, p.92) salienta que: “Como as histórias individuais são diferentes, também o desenvolvimento das funções executivas terá́ trajetórias desiguais para cada pessoa, e as habilidades adquiridas serão provavelmente distintas.”
     Numa concepção neuropsicológica, pode-se dizer que estas funções compreendem fenômenos de flexibilidade cognitiva e tomada de decisões. Por exemplo: Vamos pensar em algumas capacidades que crianças/adultos precisariam ter interagindo num jogo de memória: - gerir o tempo e atenção; - controle de foco; planejar e organizar jogadas (isso exige flexibilidade, pois terá que mudar suas ações conforme a jogada do outro); lembrar-se de detalhes; inibir o comportamento (a criança tem de ter controle inibitório, ela para tudo o que está fazendo e deixa a outra criança ter a vez); integrar experiências passadas com o presente (ou seja, construir estratégias para ter um desempenho no jogo).
     O exemplo do jogo, pode ser aplicado a qualquer outra atividade que realizamos no dia-a-dia, pois ter o bom funcionamento de nossas funções executivas nos permitem maior desempenho em tudo que fizermos.
   Quando um indivíduo apresenta déficit nestas funções, o comportamento/desempenho torna-se ineficiente afetando a capacidade de manter relações sociais adequadas, pois precisamos ser aptos a trabalhar efetivamente com os outros, com as distrações, ou seja, com as múltiplas demandas provindas do meio. Porém, conforme Guerra (2011, p.89) existem indivíduos que apresentam “disfunções executivas”, ou seja:
 Indivíduos com lesões pré-frontais podem apresentar uma série de problemas que caracterizam as chamadas “disfunções executivas”. Alguns, embora apresentem um nível de inteligência inalterado, podem se tornar apáticos e serem incapazes de tomar decisões necessárias no dia a dia. Ou as tomam de uma forma desastrada, que não leva em conta prioridades, consequências ou os riscos envolvidos, além de não conseguirem perceber e avaliar os próprios erros. Outros podem ser impulsivos, incapazes de inibir comportamentos inadequados ou de flexibilizar sua conduta, mesmo constatando que suas ações não levam ao objetivo determinado. Podem ter uma tendência a perseverar, ou insistir em ações já em andamento, mesmo que elas se mostrem ineficientes, ou podem deixar de avaliar as consequências de suas ações no futuro e comportar-se de forma inadequada e antissocial."

     Distúrbios e transtornos tais como TDAH (Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade), TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento), TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento) ou vítimas de lesões cerebrais traumáticas podem apresentar dificuldades nas funções executivas, por causa das alterações na área pré-frontal, mas com o auxílio de profissionais , tais como psicólogos (neuropsicólogos), psicopedagogo (neuropsicopedagogo), entre outros, há possibilidades de realizar atividades que auxiliem no melhor desempenho das funções executivas.
    Suponha que um indivíduo tenha um trabalho acadêmico a ser apresentado num período de 10 dias, mas apenas um dia anterior comece a organizá-lo. Ou quem sabe, nem o faça.  Se pensarmos em questões de organização, o ideal seria iniciar uns dias antes, mas, para isso, é preciso disciplina, autorregulação, ou seja, dizer não para algumas coisas que são desnecessárias e sim para o que realmente é essencial.
     Imagine: uma criança recebeu um dinheiro x para comprar seu lanche ou algum material escolar de que necessita, mas no percurso para a escola viu algum brinquedo e resolveu gastar seu dinheiro com o mesmo.... Ficou sem lanche, gastou desnecessariamente... Talvez você pense: - mas é só uma criança!!!
     O fato é que a construção do bom desempenho das funções executivas inicia-se “no berço”. Cada fase da vida exige o aprimoramento destas funções, pois se não desenvolvermos essas habilidades durante a infância e adolescência, estaremos fadados a ter sérios problemas quando adultos: seja para manter um emprego, manter um casamento, criar filhos, relacionar-nos com os outros, interagir em sociedade.
   Vejamos outro exemplo: um adulto que tem um dinheiro x para sobreviver durante um certo período de tempo, mas gastou este dinheiro. Encontrou comprando algo que supôs interessante e acabou sem recursos financeiros. Gastou, mais uma vez, desnecessariamente... Todos os exemplos, alertam para a importância de funções executivas bem desenvolvidas.
     Como pais e professores podemos auxiliar e muito no desenvolvimento destas funções, pautados na organização (regras) e metacognição (pensar sobre o pensar). O simples fato de criar rotinas e regras pré-estabelecidas servem de grande auxilio, mas se faz necessário, juntamente com as crianças/adolescentes o “sentipensar” sobre as ações e atitudes que tiveram em determinada situação, promovem a metacognição = o que foi feito, que ações/estratégias usei, quais os resultados, o que posso fazer diferente numa próxima oportunidade.
     Nesse sentido, Guerra (2011) mencionando Gardner, nos diz que muito se fala sobre o aprender a aprender, entretanto pouco se ensina como realmente aprender, mas se quisermos bom desempenho na vida, precisamos de um bom funcionamento de nossas funções executivas e só conseguiremos isso quando praticarmos o exercício da metacognição revendo constantemente nossas metas, estratégias e possibilidades de readaptações,  assim nossa aprendizagem se mostra muito mais eficaz, pois numa concepção neurobiológica “aprender é modificar comportamentos”. 

Fonte: COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Porto Alegre: Artmed, 2011.
Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L.  Uma empresa chamada cérebro. Novo Hamburgo, 08 fevereiro/ 2017. Disponível online em:  http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/02/uma-empresa-chamada-cerebro.html 





[1] Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325